Nota biográfica

Alberto Silva nasceu em Angola e chega a Portugal com poucos dias de vida, fixando-se a família em Braga. Reside em Setúbal. Cedo revela o gosto pela palavra. Acaba de publicar "Labirinto de nós", poesia, editada pela Alfarroba.

Alberto Silva – “Fome”

01.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vejo-te em fragmentos soltos de peças quebradas
em derrotas de batalhas nunca ganhas
nem vontades de lutas diferentes
ou construções de verdadeiras vontades.
Sei-te ainda dentro dos teus ais
por eles fui-te dando o meu ter
enquanto desistias e perdias mais de ti.
Medos de passados já quebrados
despedaçaram-te vontades e quereres
navegando-te em sonhos desfeitos e moribundos
em pedaços mortos de futuros risonhos.
Ergue-te hoje em bases sólidas
de fome e vontade de viver
a vida que com quem deves saber viver
e dá-te à vontade de querer.

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Alberto Silva – “Vielas”

01.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Afagam-se incertezas em viagens matinais
por ruas e avenidas de alcatrão posto
em ritmos despertos de sonhos brandos
enquanto se espera o infinito
além da dor da tua espera.
Colam-se retalhos velhos a novos rumos
na esperança de novos horizontes
mas a esquina que vem dobrando
não acompanha o que é preciso.
Fogem-se as vielas por nossas solas
gastas e rotas das calçadas
em breves passos já cansados
até ao próximo pouso na estrada.

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Pedro Barão de Campos – “Sou um pássaro”

28.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sabes,

Sou um pássaro.


Só hoje descobri

Por entre as arcadas do monumento alado em tua honra

Quando esticava os braços que eram asas à sombra

Olhei de relance para um espelho fixo

No outro lado da rua
E vi um corpo de pássaro…

Uma memória de pássaro…

Um levitar… de pássaro

Que não se escondia… nem calava.

Vi uma alma de pássaro…

Que não fugia nem se camuflava

No denso arvoredo que ainda haveria de existir

Junto ao lago sagrado do artista genuíno
Que compõe melodias feitas de si próprio
E se transforma… em breves instantes
Em instantes de si mesmo…

Nos pedaços da obra que inventa

Da escultura que molda

Do poema que escreve…

E ele a sua métrica… a sua regra…a sua forma… o seu

Sentido…

De sonhador…

De apaixonado…

De amante…
E crepita… luz! Crepita!

Cintila firmamento suave! Eu espero por ti… pela tua voz!

Espero… pelo teu sabor sumptuoso… febril… Quente…

Pelo teu silvo ardente…

Essa melodia divinamente harmoniosa

Que estipula… todos os limites do céu…

Aqui…

Ali…

No infinito…


Por dentro do vácuo ermo e sorridente

Desse lampejo de liberdade que é voar…

Assim…

Com as asas… Abanando…

Assim.…

Porque, sabes?

Sabes… meu bom amigo.. 

Hoje descobri…

Sou um pássaro!

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Daniel de Sá – “A minha amada”

22.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os seios da minha amada são como duas romãs maduras;
O seu cabelo tem perfume de alfazema;
Os seus lábios são da cor do açafrão
E a sua boca tem o sabor do damasco;
Os seus olhos são como pedras preciosas
E a sua pele como o oiro da mesquita de Abd-Al-Rahman.

A visão da minha amada é a minha alegria;
As formas do seu corpo, a minha delícia;
O seu amor, a minha felicidade.

Nada é comparável à minha amada.

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Daniel de Sá – “Isabel e Fernando”

22.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dois leões lutaram pela mesma corça,
E vieram dois leopardos e roubaram-na.
Por isso já Isabel pode lavar a camisa na água de Albaicín
E o rei pode beber das lágrimas de Aynadamar.

Vede, ó príncipes, com que cuidado foi posta cada pedra,
Em Granada, a esplêndida, e plantada cada rosa.
Uma mãe não veste a filha com mais carinho.
Contemplai os versos dos poetas
Que ornamentam as paredes da Alhambra,
E as palavras do Alcorão que as tornam veneráveis.
Granada curvou a cerviz perante a força das vossas armas.
Mas respeitai os vencidos e a memória dos que pereceram.
Perante as pedras e as rosas de Granada,
Dizei ao menos: “Como eles a amaram!”

A luta dos dois leões refere-se à guerra entre El Zagal e Boabdil, seu sobrinho, que roubara o trono ao pai, Mulhacén (Muley Assam), que morrera em 1585 e contra o qual também lutara. Os dois leopardos são Isabel de Castela e Fernando de Aragão.
Aynadamar é um topónimo composto por “Ayn” (“olho”, com o significado de nascente), e “damar” (lágrimas), talvez como referência à maneira como surge a água nessas fontes que abastecem a zona alta de Granada, Albaicín, coração da cidade velha.

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Daniel de Sá – “Granada em mãos infiéis”

22.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A minha amada desnudou-se e cobriu-se de vergonha.
Só a vergonha veste agora a minha amada.
A minha amada dormiu com o infiel,
Entregou-se nos seus braços e deitou-se na sua cama.
Esqueceu as juras de amor que eu lhe fizera
E deixou-se seduzir por falas mansas.

Como eu entendo que ele a tenha amado,
A ela, a mais amável de todas!

Oh, se eu pudesse tê-lo cegado antes que ele a contemplasse!
Mas não tocarei sequer um só dos seus cabelos,
Para não tornar mais infeliz ainda a minha amada.

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Palavras 162 – Daniel de Sá

22.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Daniel de Sá, de nome completo, Daniel Augusto Raposo de Sá nasceu na Maia, S. Miguel, Açores, em Março de 1944. Autor com vasta obra, constituída por romances, crónicas, novelas, ensaios e contos.

Daniel de Sá foi professor do ensino primário. Estudou Filosofia e Teologia em Valência e Granada, exerceu vários cargos públicos, escreve em vários jornais e já publicou mais de uma dezena de livros.
Foi agraciado pelo Presidente da República num 10 de junho, Dia de Portugal, Camões e das Comunidades, com o Grau de Oficial da Ordem Infante D. Henrique pela relevância de sua obra e por sua contribuição na expansão da cultura portuguesa.

Como acontece muitas vezes li, por acaso, um poema de Daniel de Sá. Ouviu-o, também certamente por acaso e teve a amabilidade de me enviar uma mensagem agradecendo a minha leitura e onde se pode ler: 
“Não me considero poeta, mas faço, às vezes, umas coisas por graça. Ofereci há meses a minha mulher um livrinho não comerciável. Mas penso publicá-lo em breve em edição bilingue, Português/Castelhano. Se ler alguma coisa do anexo, perceberá porquê. E, se algum dos poemas lhe interessar, terei muito gosto se o usar no Raposa.”

Pois, interessou sim, senhor e vamos ter neste “Palavras de Ouro” a poesia de Daniel de Sá. Começamos por ouvir as palavras que o poeta dedicou a Maria Alice, sua mulher, na introdução do tal “livrinho não comerciável” intitulado “As rosas de Granada” e onde ficamos a sentir e perceber a atmosfera onde se desenrolam os poemas.

“Nunca escrevi um poema para ti, Maria Alice. Porque sempre te julguei superior a toda a poesia. Pelo menos a minha. Mas, por um desses acasos que são mais criadores do que qualquer momento de inspiração, inventei um poeta árabe de Granada – Ahmed Ben Kassin. E fui-lhe dando vida pela voz que lhe dava.
A maior parte dos poemas de Ahmed Ben Kassin são dedicados à sua amada. Para os compor, imaginei que ele a amasse tanto como eu a ti. E assim, numa espécie de metempsicose consciente, ele foi eu ou eu fui ele em cada poema. Até um pouco também nos que dedicou a Granada, cidade que me fascina. Ou a Boabdil, o trágico e último rei dela. Ambos terão partido no mesmo dia para o exílio nas Alpujarras, a sul da Serra Nevada, e mais tarde para Marrocos. Ahmed Ben Kassin assistiu ao choro de Boabdil, ao voltar-se num último adeus à cidade que tanto amava. E também ao pranto do rei deposto quando, pouco tempo depois, perdeu Morayma, a outra imensa paixão da sua vida.
Não me perguntes nada mais acerca de Ahmed Ben Kassin e da sua amada. Da minha sei que vive comigo há trinta e sete anos. Dia a dia, que hoje, quando isto escrevo, se completam.
Por isso este livro te pertence. Não te é dedicado simplesmente, como os outros, mas é teu, teu fisicamente e não apenas em intenção. Todos os exemplares te são oferecidos.
Seguem-se, então, os meus poemas de Ahmed Ben Kassin. Ou teus, aliás.
Maia, na nossa casa, em 31 de Março de 2011
Daniel”

Morayma vendo partir Boabdil

Da mais alta torre de Granada
Vejo partir o meu amado para a batalha.
Choro, mas sem lágrimas,
Porque quero perceber até o último grão da poeira
Levantada pelos cascos do seu cavalo,
Forte como a morte
E belo como a vida.

Eu temo a coragem do meu amado.
Ele despreza a vida
Porque sabe que na sua morte
Eu o amarei mais ainda.
Mas amar mais do que eu amo já é só dor,
Já só é tristeza.

Boabdil chorando os filhos prisioneiros

Ó rei cristão, por que roubaste os meus cordeirinhos,
Nascidos para serem livres nos prados de Granada?
Eles foram amamentados pelos seios de sua mãe
E comeram à minha mesa.

Ainda tenho nas faces o calor dos seus beijos,
Sinto nos braços o doce peso dos seus corpos,
Nas mãos, a ternura das suas carícias,
E nos lábios o sabor das suas faces.

Por quantos palácios pode trocar-se um filho?
Quantas muralhas vale aquele que gerámos?

Se eu tivesse o mundo, trocá-lo-ia pelos meus filhos.
Mas eu não posso dar aquela que outros construíram
E pela qual muitos morreram.
Em Granada há outros pais que amam
Como eu amo o dócil Yusuf e o meigo Ahmed.
E nenhum teria Granada para trocar pelos filhos.

Antes tomasses o meu escudo como troféu de guerra
E o meu cavalo como despojo de batalha,
Porque isso seria sinal de eu estar morto.

Ó rei cristão, ó príncipe de Castela,
A minha dor é imensa.
Se não me atiro sobre a ponta de um alfange,
É para que não haja mais um morto por quem chorar
Nem menos um vivo para chorar os mortos.

Granada em mãos infiéis

A minha amada desnudou-se e cobriu-se de vergonha.
Só a vergonha veste agora a minha amada.
A minha amada dormiu com o infiel,
Entregou-se nos seus braços e deitou-se na sua cama.
Esqueceu as juras de amor que eu lhe fizera
E deixou-se seduzir por falas mansas.

Como eu entendo que ele a tenha amado,
A ela, a mais amável de todas!

Oh, se eu pudesse tê-lo cegado antes que ele a contemplasse!
Mas não tocarei sequer um só dos seus cabelos,
Para não tornar mais infeliz ainda a minha amada.

Isabel e Fernando

Dois leões lutaram pela mesma corça,
E vieram dois leopardos e roubaram-na.
Por isso já Isabel pode lavar a camisa na água de Albaicín
E o rei pode beber das lágrimas de Aynadamar.

Vede, ó príncipes, com que cuidado foi posta cada pedra,
Em Granada, a esplêndida, e plantada cada rosa.
Uma mãe não veste a filha com mais carinho.
Contemplai os versos dos poetas
Que ornamentam as paredes da Alhambra,
E as palavras do Alcorão que as tornam veneráveis.
Granada curvou a cerviz perante a força das vossas armas.
Mas respeitai os vencidos e a memória dos que pereceram.
Perante as pedras e as rosas de Granada,
Dizei ao menos: “Como eles a amaram!”

Notas:
A luta dos dois leões refere-se à guerra entre El Zagal e Boabdil, seu sobrinho, que roubara o trono ao pai, Mulhacén (Muley Assam), que morrera em 1585 e contra o qual também lutara. Os dois leopardos são Isabel de Castela e Fernando de Aragão.
Aynadamar é um topónimo composto por “Ayn” (“olho”, com o significado de nascente), e “damar” (lágrimas), talvez como referência à maneira como surge a água nessas fontes que abastecem a zona alta de Granada, Albaicín, coração da cidade velha.

A minha amada

Os seios da minha amada são como duas romãs maduras;
O seu cabelo tem perfume de alfazema;
Os seus lábios são da cor do açafrão
E a sua boca tem o sabor do damasco;
Os seus olhos são como pedras preciosas
E a sua pele como o oiro da mesquita de Abd-Al-Rahman.

A visão da minha amada é a minha alegria;
As formas do seu corpo, a minha delícia;
O seu amor, a minha felicidade.

Nada é comparável à minha amada.

Ouvimos, neste “Palavras de Ouro” o nº 162, poemas de Daniel de Sá e que fazem parte de um livro de poemas intitulado “As Rosas de Granada”.

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História 167 – “O Cavalo e o Leão”

21.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O Cavalo e o Leão.
Deitado, a meditar no jardim do seu palácio, rodeado de grandes e velhas árvores, o Sr. Leão recordava, cheio de cobiça, um belo cavalo que há já dias via a passear na campina.
«Quem me dera apanhá-lo! – pensava ele – gordo, desenxovalhado, bonito. Com ele eu fazia, pelo menos, dois jantares. Mas como hei-de conseguir aproximar-me, se ele foge logo que me vê?»
Tantas voltas deu à cabeça, a fim de achar uma solução para o caso, que lhe ocorreu um expediente, que lhe pareceu bom.
Levantou-se do seu descanso, saiu e ao primeiro vizinho que encontrou disse:
— Já sabe? Há dias que ando a aprender a tratar doenças e tanto tenho estudado que já sei fazer tudo quanto é preciso para curar um doente. Não tenho medo que me morra um doente na mão.
Ao segundo vizinho que encontrou contou a mesma história e a outro e a outro, até que em pouco tempo todos sabiam que o Sr. Leão tratava doenças e era já médico de fama.
E como só se falava daquele facto importante, o Cavalo depressa soube também, mas não acreditou na peta, como os outros, e tanto procurou a razão dela, que a encontrou: o Sr. Leão só queria aproximar-se dele, de forma que ele não fugisse. Jurou que se desforraria da manha do Leão e começou a andar sempre prevenido para tudo.
E uma bela tarde lá viu o Leão aproximar-se, muito vagaroso, cheio de majestade.
Boa tarde, amigo Cavalo – disse o Leão de longe. – Então como vai?
Menos mal, obrigado – respondeu o Cavalo.
Já deve saber que sou médico.
Já me disseram, já, e estou contentíssimo, porque há quase uma semana que trago um espinho num pé e gostaria que o Sr. Doutor mo tirasse o mais depressa possível.
Ora vamos lá ver isso, então – respondeu o médico feito à pressa, a pôr os óculos. – Mostre lá o pé.
É este – replicou o Cavalo voltando-se e estendendo-lhe uma das patas traseiras.
O médico improvisado agarrou-a e pôs-se a observá-la cuidadosamente, dizendo consigo: «Que rica ideia! Tenho-te na mão!»
Porém, ainda não tinham decorrido dois minutos, um tremendo coice do Cavalo assenta-lhe em cheio no nariz e fá-lo virar os pés pela cabeça.
Quando se refez do tombo e pôde entender o que se passara, já só viu o Cavalo ao longe, correndo à desfilada. Entretanto ele, o médico que sabia tratar todas as doenças, gemia com dores no nariz, de onde o sangue corria com abundância, e pensava que o culpado daquele valente coice fora só ele, porque o mau plano que fizera contra o Cavalo virara-se contra ele próprio.
E aqui acaba a história de “O Cavalo e o Leão”.

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Palavras 161 – Joaquim Namorado

06.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este programa usará, para falar de Joaquim Namorado, o texto disponibilizado no blogue “Outra Margem

Joaquim Namorado, Poeta de Incomodidade

“Metam O burro na gaiola

de doiradas grades
e
tratem-no a alpista
s
e quiserem
- é só um despropósito

Mas esperar dele o trinar

Do canário melodioso

É simplesmente tolo.”

Joaquim Namorado viveu entre 1914 e 1986. Nasceu em Alter do Chão, Alentejo, em 30 de Junho.
Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra, dedicando-se ao ensino. Exerceu durante dezenas de anos o professorado no ensino particular, já que o ensino oficial, durante o fascismo, lhe esteve vedado.
Depois do 25 de Abril, ingressou no quadro de professores da secção de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
Notabilizou-se como poeta neo-realista, tendo colaborado nas revistas Seara Nova, Sol Nascente, Vértice, etc. Obras poéticas: Aviso à Navegação (1941), Incomodidade (1945), A Poesia Necessária (1966). Ensaio: Uma Poética da Culutra (1994).)

Dizem que foi o Joaquim Namorado quem, para iludir a PIDE e a Censura, camuflou de “neo-realismo” o tão falado “realismo socialista” apregoado pelo Jdanov…
Entre muitas outras actividades relevantes , foi redactor e director da Revista de cultura e arte Vértice, onde ficou célebre o episódio da publicação de pensamentos do Karl Marx, mas assinados com o pseudónimo Carlos Marques. Um dia, apareceu na redacção um agente da PIDE a intimidar: “ó Senhor Doutor Joaquim Namorado, avise o Carlos Marques para ter cuidadinho, pois nós já estamos de olho nele”…

No concelho da Figueira da Foz– considerava-se um figueirense de coração e de acção – chegou a ser membro da Assembleia Municipal, eleito pela APU.
Teve uma modesta residência na vertente sul da Serra da Boa Viagem. Essa casa, aliás, serviu de local para reuniões preparatórias da fundação do jornal Barca Nova.
Muito mais poderia ser dito para recordar Joaquim Namorado, um Cidadão que teve uma vida integra, de sacrifício e de luta, sempre dedicada á total defesa dos interesses do Povo. 
Nos dias 28 e 29 de Janeiro de 1983, por iniciativa do jornal Barca Nova, a Figueira prestou-lhe uma significativa homenagem, que constituiu um acontecimento nacional de relevante envergadura, onde participaram vultos eminentes da cultura e da democracia portuguesa. 
Na sequência dessa homenagem, a Câmara Municipal da Figueira, durante anos, teve um prémio literário, que alcançou grande prestígio a nível nacional.
Santana Lopes, quando passou pela Figueira da Foz, como Presidente de Câmara, decidiu acabar com o “Prémio do Conto Joaquim Namorado”.

Vamos ouvir poemas publicados numa edição de autor e selecionado pela Vértice, em 1966, com o título “Poesia Necessária”.
“A voz que me dita os versos.”

Sento-me à mesa e escrevo…
A voz que me dita os versos tudo diz e cala
e é minha e das coisas que me cercam,
de quem encontrei na rua e não conheço
e dos amigos fiéis, de quanto ouvi disperso
na rua, nos cafés, onde estive,
dos livros que leio e dos jornais,
de quanto vejo e vivo como meu;
é tua, meu amor, de quanto é nosso,
só porque sentindo-o o partilhamos,
destas horas que se alongam tristes
e doutras que foram e hão-de ser
da luta, do tormento, da alegria
e da glória de vivê-las plenamente.

Sento-me à mesa e escrevo…
A voz que me dita os versos tudo diz e cala:
é a tua, amigo a quem não vejo há tanto
e cuja presença me não esquece,
cuja lembrança em toda a parte aquece
as esperanças comuns pra que vivemos;
é a tua, a quem nunca conheci,
apodrecendo não sei onde
em que distantes exílios e cemitérios secretos,
e de quem nos longos dias te chora
e nas longas noites te espera
Enganando-se que ainda vens
e de quem ouve os teus passos na rua
sabendo que isso é mentira
e fica à noite à janela olhando as esquinas desertas;
é dos teus companheiros resolutos
que as tuas armas empunham com a mesma decisão,
com aquela mão que se estende
para outra mão e a aperta
como se fosse o seu par…

Sento-me à mesa e escrevo…
Voz que tudo dizes e calas, de onde vens?
de que infância perdida me falas,
que soluçar de mães em ti acode
sob o doce ninar da minha mãe?
é da menina esfarrapada que na rua brinca
nas poças da rua com o sol e esquece
a vida triste lá de casa?
é dos meninos que só a loucura embala
mortos na guerra, mortos de fome e frio,
mortos queimados, de baionetas cravados,
nos fornos crematórios, nos ghettos de Varsóvia,
de Viena, de Belgrado, de qualquer cidade?
é dos meninos de escola da sua idade
aprendendo a ler?
é dos meninos operários da sua idade
aprendendo a trabalhar e a sofrer?
Fel que no sangue da vida se mistura,
amargo destino que se tece
da nossa vida futura.
Voz que tudo dizes e calas,
onde foi, onde?
Em Madrid, em Paris, em Praga?
Em Roma, em Londres, Buenos Aires?
De que pontos cardeais correndo livre vens?
Através de que mordaças me falas?
Em que prisões surdamente gemes e te calas?
É a tua voz clara, Gabriel?
A tua voz dentre dentes quebrados, Fucik?
O teu adeus de esperança, Zoia?
Ou é, Alexandre, o teu incitamento
que nos vem?
Em que língua humana me dizes
quanto é do mundo o sofrimento e a glória?
Em que estrofes os poetas te cantam?
Maja de Granada, inviolada e pura,
Federico ao nosso amor te deu;
de que amargo silêncio te fizeste
no exílio onde Machado morreu?
És a arma invicta e discreta,
voz que pelos homens clama,
és o aço puro e a chama
que para a luta os corações tempera.

Sento-me à mesa e escrevo…
Voz que me dita os versos segredada,
é do povo o canto e o choro que vem
do fundo desespero em que se move,
é de quanto espera o apagado canto,
epopeia que só a sua luta forja;
é a certeza em cada peito
com um facho de vida em vida transmitido
de que a noite imunda e mais comprida
tem segura madrugada que há-de vir.
Voz que me dita os versos
lentamente da vida dos dias se insinua:
é a voz das coisas e das gentes,
uma dor e um desespero suspenso,
e é a paixão e o grito que levanta,
é a praga que a nossa raiva activa,
o desafio que se lança,
o sofrimento que protesta,
a humildade que se não arrasta,
o orgulho que não fere,
a saudação fraterna, aberta e franca
– é o estalar do chicote
com o ódio que levanta.

É a tua voz, coração do mundo,
é a tua voz ansiosa, a tua voz vibrante,
a tua voz desesperada, a tua voz confiante.
Sejam meus versos a vogal precisa,
bata no meu pulso o coração do mundo.

Agora, sete pequenos poemas para uma obra de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), ilustrador, que exerceu influência determinante nas modernas artes gráficas portuguesas, quer através de capas, quer de ilustrações que realizou para obras de escritores seus contemporâneos

1
Um menino chora,
sem razão?!…
A mãe limpa com um lenço branco
as lágrimas e chora,
chora porque chora
o seu menino,
sem razão?!…

2
Manta de maltez: sol do
inverno e sombra do
estio, mortalha pronta,
dossel do amor, tecto e
sobrado de não ter casa.
Manto de um rei das
encruzilhadas, sudário
rasgado de dentes e cutiladas;
uma almofada sobre as ortigas…
uma bandeira de Liberdade.

3
Flor da terra, carne dos
homens, de papoilas
bravas entre searas
coroada. Agua da fonte
corrente do rio, pão
ainda quente haste do
trigo. Porto seguro na
vida incerta, paz dos
teus braços da luta
incerta. Esperança e
consolo, pano de linho
sobre as feridas ainda
abertas; bandeira ao
vento. A manhã
que nasce está
nos teus olhos.

4
Os calos da mão apertam cabos
de enxadas quebradas e os
ferros dos arados rasgam
caminhos abertos nas futuras
madrugadas.

5
Um traço largo e profundo
debrua um corpo cansado,
sob a forma rígida de um braço
desenha-se o músculo empedernido
dos trabalhos.
Mapa da vida o teu rosto.
lavrado pelo trabalho,
um pergaminho vincado
da cicatriz da amargura.
Mas no fundo dos teus olhos,
tão firmes e tão seguros,
raia a certa madrugada
dos mundos futuros.

6
Num mundo de maiorais, de
feitores, de cães de guarda,
icou no pó das estradas a
marca dos nossos passos
continuando outros passos. O
caminho é por aqui, dirá quem
vier depois olhando estes
sinais e disso estará tão certo
que o que ainda é distante lhe
será perto.

7
Sobre a planície cai
uma chuva de lume
do sol a prumo.
A solidão sem sombras
incendeia-se de estrelas
e o silêncio estala
como a pele de frenéticos tambores
batidos furiosamente.
Os homens dobrados para a terra levantam
as cabeças medindo os horizontes rasos e
distantes com olhos ávidos, sem piedade.

Ouviram o Palavras de Ouro 161 dedicado a Joaquim Namorado, o Poeta de Incomodidade.

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Encandescente – “Curriculum Vitae”

04.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nome:
Já me chamaram uns quantos
Apelido-me outros tantos
Alguns tão inomináveis
Que nem sequer os cito.
Idade:
A suficiente, não a bastante
Para ter juízo e não tenho
Para ser conforme e não sou
Para não sonhar tanto e sonho
Mas também para saber
Que já não serei o Che e não farei revolução.
Nacionalidade:
Imposta.
Nasci onde me pariram
Onde o acaso o ditou
Não escolhi pais ou pátria
Estou aqui. Calhou.
Estado:
Muitas vezes zangada
Outras vezes cansada
Com tanta merda que vejo
E por nada poder fazer
Para mudar o estado das coisas
Por isso o estado mais frequente
É a precisar de mudança e em ebulição.
Habilitações literárias:
Algumas
Tenho as estantes dobradas
Com o peso dos livros que tenho.
Formação académica:
Nenhuma
Mas sou muito bem educada
Até me chegar a mostarda ao nariz
E como nasci tesa e plebeia
Sem ascendentes importantes
E não bebi chá em pequenina
O verniz estala num instante.
Experiência:
Alguma
Nenhuma em áreas relevantes
Algumas muito interessantes
Outras pouco recomendáveis
Mas…
Para este curriculum não interessa nada.
Como o que vigora neste país
É a lei do desenrasca
Eu que tenho os nomes que me chamo
A idade que me apetecer
E sou uma pindérica sem cultura académica
Num país só de doutores
Considero-me qualificada
Para me desenrascar
Em qualquer função e em qualquer lugar.

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Alberto Caeiro – “A espantosa…”

02.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

De, Alberto Caeiro in Poemas Inconjuntos, Vol. I , Obras Completas, de
Fernando Pessoa, pág. 219/220

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História 164 – “A Árvore e o Machado”

01.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tombado ao pé das árvores estava um machado, triste e solitário, porque não tinha cabo.
— Que sou eu sem cabo…? — lastimava-se ele. — Uma
coisa inútil…
Compadecidas de tal situação, as árvores todas pediram ao Zambujeiro que estendesse um dos seus braços e oferecesse um cabo ao Machado. O Zambujeiro, que também tinha bons sentimentos, assim fez, e, lentamente, estendeu-lhe uma vara comprida e forte, que o Machado logo aproveitou, enfiando-se nela. E ficou todo contente, estendido no chão, a gozar a frescura das árvores amigas.
Eis que passa por ali um lenhador e, vendo o Machado pronto a servir, agarra-o e começa a derrubar as árvores e a cortar-lhes as ramadas.
As árvores, apavoradas, encolhiam-se umas contra as outras, tentando defender-se, mas nada podiam fazer: uma após outra iam sendo destruídas.
Desesperado, o velho Sobreiro disse para o Freixo:
— Só nós tivemos culpa do que está a acontecer, por
que favorecemos um inimigo. Se nunca tivéssemos dado
um cabo ao Machado, estaríamos livres do seu ataque.
Mas já era tarde para a árvores se arrependerem de ter dado armas ao próprio inimigo, porque nas mãos do lenhador o Machado continuava a rachar, a partir, a derrubar.
E aqui acaba a história.

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Ary dos Santos – “Infância”

30.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não minha mãe. Não era ali que estava. 

Talvez noutra gaveta. Noutro quarto. 

Talvez dentro de mim que me apertava 

contra as paredes do teu sexo-parto.

A porta que entretanto atravessava 

talhada no teu ventre de alabastro

abria-se fechava dilatava.

Agora sei: dali nunca mais parto.

Não minha mãe. Também não era a sala

nem nenhum dos retratos de família 

nem a brisa que a vida já não tem.

Talvez a tua voz que ainda me fala… 

… o meu berço enfeitado a buganvília… 

Tenho tantas saudades, minha mãe!

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Ary dos Santos – “Memória de Adriano”

30.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nas tuas mãos tomaste uma guitarra 

copo de vinho de alegria sã 

sangria de suor e de cigarra 

que à noite canta a festa de amanhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra

o que à terra chamou amante e irmã 

mas também português que investe e marra 

voz de alaúde rosto de maçã.

O teu coração de ouro veio do Douro 

num barco de vindimas de cantigas 

tão generoso como a liberdade.

Resta de ti a ilha dum tesouro

a jóia com as pedras mais antigas.

Não é saudade, não! É amizade.

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Ary dos Santos – “Telegrama para Gomes Leal”

30.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tia Maria Poesia a acabar. 

Stop. Vem depressa. Testamento incerto. 

É certo que não tinha que deixar

mais que um saldo no banco a descoberto.

Anda a crítica toda a farejar.

Os enteados rondam muito perto.

Volta depressa ó meu. O teu lugar 

é aqui ajudando neste aperto.

Toma a carreira Inferno-Portugal.

Fizeste-a tantas vezes! E a viagem 

agora de caixão é mais barata.

Vem-me ajudar a consolar a tia. 

A Natália está lá. Não a Sofia

Cara-de-cu que sempre foi ingrata.

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Ary dos Santos – “Soneto de Inês”

30.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dos olhos corre a água do Mondego

Os cabelos parecem os choupais 

Inês! Inês! Rainha sem sossego 

dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego 

Amor que torna os homens imortais.

Inês! Inês! Distância a que não chego

Morta tão cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes os teus braços 

são gaivotas pousadas no regaço

dum mar azul turquesa intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos

e tu morrendo com os olhos baços. 

Inês! Inês! Inês de Portugal.

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Ary dos Santos – “Sonata de Outono”

30.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Inverno não ainda mas Outono

a sonata que bate no meu peito

Poeta distraído cão sem dono

até na própria cama em que me deito.

Acordar é a forma de ter sono

O presente o pretérito imperfeito

Mesmo eu de mim me abandono 

se o vigor que me devo não respeito.

Morro de pé, mas morro devagar.

A vida é afinal o meu lugar 

e só acaba quando eu quiser.

Não me deixo ficar. Não pode ser.

Peço meças ao Sol, ao Céu, ao Mar

Pois viver é também acontecer.

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Ary dos Santos – “Poesia-orgasmo”

30.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

De sílabas de letras de fonemas 

se faz a escrita. Não se faz um verso. 

Tem de correr no corpo dos poemas 

o sangue das artérias do universo.

Cada palavra há-de ser um grito 

um murmúrio um gemido uma erecção

que transporte do humano ao infinito 

a dor o fogo a flor a vibração

A Poesia é de mel ou de cicuta? 

Quando um poeta se interroga e escuta

ouve ternura luta espanto ou espasmo?

Ouve como quiser seja o que for

Fazer poemas é escrever amor

e poesia o que tem de ser é orgasmo.

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Ary dos Santos – “Insónia”

30.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As noites — escorpiões suicidados

Com o seu próprio veneno nas entranhas 

ressuscitam depois em madrugadas 

cada vez mais azuis e mais estranhas.

São insónias tecendo alucinadas 

uma teia de horas e de aranhas 

patas tácteis peludas eriçadas 

com o peso latente das montanhas.

E por dentro dos olhos um perfil 

de ferro e fogo deixa-nos queimados 

selados como a chuva e como o vento.

Será possível que depois de Abril 

ainda adormeçamos acordados 

neste país-raiz de sofrimento?

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Carlos Eurico da Costa – “A Cidade de Palaguin”

26.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Na cidade de Palaguin

o dinheiro corrente era olhos de crianças

Em todas as ruas havia um bordel

e uma multidão de prostitutas

frequentava aos grupos casas de chá.

Havia dramas e histórias de era uma vez

havia hospitais repletos:

o pus escorria da porta para as valetas.

Havia janelas nunca abertas

e prisões descomunais sem portas.

Havia gente de bem a vagabundear

com a barba crescida.

Havia cães enormes e famélicos

a devorar mortos insepultos e voantes.

Havia três agências funerárias

em todos os locais de turismo da cidade.

Havia gente a beber sofregamente

a água dos esgotos e das poças.

Havia um corpo de bombeiros

que lançava nas chamas gasolina.



Na cidade de Palaguin

havia crianças sem braços e desnudas

brincando em parques de pântanos e abismos.

havia ardinas a anunciar

a falência do jornal que vendiam;

havia cinemas: o preço de entrada

era o sexo de um adolescente

(as mães cortavam o sexo dos filhos

para verem cinema).

Havia um trust bem organizado

para exploração do homossexualismo

havia leiteiros que ao alvorecer

distribuíam sangue quente ao domicílio.

Havia pobres a aceitar como esmola

sacos de ouro de trezentos e dois quilos.

E havia ricos pelos passeios

implorando misericórdia e chicotadas.


Na cidade Palaguin

havia bêbados emborcando ácidos

retorcendo-se em espasmos na valeta.

Havia gatos sedentos

a sugar leite nos seios das virgens.

Havia uma banda de música

que dava concertos com metralhadoras;

havia velhas suicidas

que se lançavam das paredes para o meio da multidão.

Havia balneares públicos

com duches de vitríolo – quente e frio

– a população banhava-se frequentes vezes.



Na cidade de Palaguin

havia Havia HAVIA…



Três vezes nove um milhão.

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Fernando Echevarria – “Amor à Vista”

22.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Entras como um punhal
até à minha vida.
Rasgas de estrelas e de sal
a carne da ferida.

Instala-te nas minas.
Dinamita e devora.
Porque quem assassinas
é um monstro de lágrimas que adora.

Dá-me um beijo ou a morte.
Anda. Avança.
Deixa lá a esperança
para quem a suporte.

Mas o mar e os montes…
isso, sim.
Não te amedrontes.
Atira-os sobre mim.

Atira-os de espada.
Porque ficas vencida
ou desta minha vida
não fica nada.

Mar e montes teus beijos, meu amor,
sobre os meus férreos dentes.
Mar e montes esperados com terror
de que te ausentes.

Mar e montes teus beijos, meu amor!…

in “Poesia 1956-1979”

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Poesia 51 – Casimiro de Brito (3)

14.09.2011 | Produção e voz: Luís Gaspar

Mais um programa de poesia erótica, o terceiro, com poesia de Casimiro de Brito.
Há quem diga, e quem sou eu para duvidar, que Casimiro de Brito e David Mourão-Ferreira são os dois grandes poetas do erotismo, na poesia portuguesa.
Até pode ser verdade, agora o que nem um nem o outro são, apenas, trovadores do erotismo. Como poetas, são muito mais do que isso.
Se quer ler o texto do programa e dos poemas, clique AQUI.

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“Vinte Poemas de Amor” (4) de Pablo Neruda

20.05.2011 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quarta e última parte da obra de Pablo Neruda “Vinte Poemas de Amor” com os seguintes poemas: “No meu céu ao crepúsculo…”, “Pensando, enredando sombras…”, “Aqui te amo…”, “Moça morena e ágil…” e “Posso escrever os versos…”.
Se deseja acompanhar a audição dos poemas com a leitura dos textos, clique AQUI.

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“Vinte Poemas de Amor” (3) de Pablo Neruda

18.05.2011 | Produção e voz: Luís Gaspar

Terceira parte (cinco poemas) de “Vinte Poemas de Amor” de Pablo Neruda: “Quase fora do céu…”,”Para o meu coração…”,”Eu fui marcando…”, “Brincas todos os dias…” e “Gosto de ti calada…”.
Se deseja acompanhar a audição com a leitura ou “baixar” o texto, clique AQUI

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“Vinte Poemas de Amor” (1) de Pablo Neruda

14.05.2011 | Produção e voz: Luís Gaspar

Primeira Parte desta obra de Pablo Neruda composta por cinco poemas:
“Corpo de mulher…”, “Na sua chama mortal…”, “Ah, vastidão dos pinheiros…”, “É a manhã cheia…” e “Para que tu me ouças…”.
Se quiser ler os poemas enquanto os ouve, ou fazer o seu download, clique AQUI.

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Palavras 158 – Adolfo Casais Monteiro

04.01.2011 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ouviremos Palavras de Ouro neste programa com a poesia de Adolfo Casais Monteiro.
Adolfo Victor Casais Monteiro nasceu no Porto em 1908 e morreu em São Paulo em 1972.
A sua juventude foi típica de um filho da burguesia portuense ilustrada e liberal, cedo revelando propensão artística.
Se quiser ler o texto do programa enquanto o ouve ou copiar os poemas, clique AQUI.

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Palavras 157 – Natércia Freire

15.12.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Hoje, o brilho da poesia de Natércia Freire. Foi poeta, contista, jornalista e mulher solitária. Escritora durante os anos em que o Estado Novo queria a mulher em casa. Ostracizada pela Revolução de Abril, Natércia Freire acabou por cair num silêncio imerecido. Deixa um legado poético que merece ser (re)descoberto.

Se desejar ler o texto do programa enquanto o ouve, clique AQUI

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Palavras 156- Alfredo Guisado

03.12.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Neste programa, a poesia de Alfredo Guisado, um autor um pouco esquecido.

Alfredo Guisado, poeta português de ascendência galega, nasceu em Lisboa a 30 de Outubro de 1891. Formou-se em 1921 na Faculdade de Direito de Lisboa e em 1922 entrou para a Associação dos Arqueólogos Portugueses. Foi militante do Partido Republicano Português, colaborou no jornal “O Debate” e foi subdiretor do jornal República, o órgão da oposição à ditadura de Salazar.


Se deseja ler o texto do programa enquanto o ouve, clique AQUI

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História 151 – “A bicha de sete cabeças”

29.11.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vamos ouvir uma história recolhida por Ataíde de Oliveira e intitulada “A bicha de sete cabeças”. Uma história com muitas lutas e mortes.
Havia um pescador muito pobre que todos os dias ia ao mar e somente pescava alguma sardinha e chicharro. De uma vez lançou as suas redes e pescou um enorme peixe.
— Não me mates e eu te darei muito peixe, disse o peixe grande.


Se quiseres ler a história ao mesmo tempo que a lês, clica AQUI.

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Palavras 155 – Teófilo Braga

25.11.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ouviremos, neste programa, as palavras de ouro de Teófilo Braga, autor que nos deixou uma obra monumental nos domínios da poesia, história e crítica literárias, historiografia, etnografia, filosofia e sociologia, política, ficção e tradução.
Teófilo Braga nasceu em Ponta Delgada, ilha de Santa Maria, Açores.
Depois de ter feito os primeiros estudos no liceu de Ponta Delgada, veio para o continente em 1861, seguindo para Coimbra, em cuja Universidade fez com distinção o curso de Direito, que completou em 1867, recebendo o grau de doutor em Julho do ano seguinte.
Se quiser lero otexto do programa enquanto o ouve, clique AQUI.

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