José Saramago – “Declaração”

08.07.2018 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
Nem morto está o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadência do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guardará caladamente
O sabor das bocas que beijou.

In Os Poemas Possíveis, 1966, p. 140.

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Rossini – “Abertura da ópera Guilherme Tell”

07.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Música para quem gosta de POP

Hoje vamos ouvir um dos grandes trabalhos de Rossini.
Trata-se da abertura da ópera Guilherme Tell, uma ópera romântica estreada em Paris no ano de 1829.
Rossini foi um apaixonado pela ópera e transpôs para o teatro lírico o seu temperamento de homem alegre que soube aproveitar toda a beleza da vida.
Tinha nove anos quando começou a receber lições de trompa dadas por seu pai trompetista na Academia de Bolonha. Mais tarde, um cónego de grandes conhecimentos também ensinou música ao futuro compositor, nos intervalos das suas obrigações sacerdotais.
E Rossini não se fez rogado com as lições que recebeu; aos 14 anos entrou para a escola de música de Bolonha e compôs a sua primeira ópera, Demetrio e Policio.
Guilherme Tell foi a última grande obra do compositor que lhe requereu mais energia e esforço do que qualquer outro trabalho.
Fiquemos com esta tão conhecida “abertura”.
Ouvimos “Música para quem gosta de POP. Hoje, com Rossini.

Execução da London Festival Orchestra, conduzida por Alfred Scholz.

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Casimiro de Brito – “Quando”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

I
Quando já não se espera nada
a vida, cascata impetuosa, tem outro
sabor: é um grão de luz, uma gota
que nos inunda
e então esse que não esperava nada
abre os olhos e vê e ouve
e tudo em volta são ilhas que se levantam
a brilham.
II
Ando por aqui a ver o mundo
e só vejo buracos e ruínas. Pudesses tu regar
as folhas secas que me invadem o sexo
com o teu mel com as tuas lágrimas.
III
O amor: amêndoa clara
que tu mastigas, primeiro com os olhos,
depois com a boca
insaciável. Fomos tão belos,
tão frágeis e devastados
que os outros da barca nos lançaram
borda fora.
IV
Deuses haverá para quem
um rio e uma abelha
voam um pouco mais perto,
um pouco menos perdidos
na brisa. Deuses haverá.
Que talvez saibam um pouco mais
sobre as abelhas que revivem no sangue
da minha amada. Tal um pé que se aproxima
da sua morada.
V
Envelheci? Bebo a mesma gota de água
de quando mergulhei em ondas que me lembravam
bocas nómadas. Nómada sou eu agora,
descobrindo na minha amada
lagos e abismos e ilhas
que me reconhecem. Sou um deles.
Um cavalo
que pisa as uvas sagradas
que mais ninguém vê: a sede
não espera.
VI
Bebo águas tuas no vaso
que as contém. A gota comovida
vai transformar-se em rio.
Sorvo nas tuas mãos o osso
e a carícia, o cerne mais cru
e a solidão de quem sobrevive
ao sexo ardente. Também eu ardo
onde fui sede e palavras fatigadas.
VII
Eu posso beber um rio
afogar-me nele inundar-me inundá-lo
mas não posso queimá-lo não posso queimar o rio amado
e deixar-me dormir a seu lado —
eu posso beber um rio o teu rio
ou uma lágrima e cantá-la
o que não posso não sei não seria capaz
é afogar-me no rio amado e continuar
em paz.

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SUSPENSO, mas todos os programas disponíveis.

26.08.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

O programa “Lugar ao Outros”, dedicado aos autores que “ainda não chegaram às estrelas” foi suspenso. Por motivos alheios à minha vontade acabou no número 111.
As minhas desculpas a quem havia prometido a leitura e aos que, no futuro, viessem a candidatar o seu trabalho. Agradeço a todos os que colaboraram nesta aventura e a muitos, as palavras amáveis com que brindaram este trabalho.
Note-se que apenas o “Lugar aos Outros” será suspenso. Todos os outros continuarão e com algumas novidades, como é o caso do “Ver Poesia”.
Entretanto, continuam disponíveis para audição e “download” todos os programas produzidos.

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