Popol Vuh – “Mito da Criação (excerto)”

14.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

No idioma quiché: Popol – reunião, comunidade, casa comum, junta a Vuh que significa livro. Popol Vuh é um dos poucos livros que restaram da civilização Maia. Trata-se de uma compilação de diversas lendas provenientes de grupos étnicos da atual Guatemala ao sul da península de Lucatã.

Esta é a história do princípio,
quando não existia nenhum pássaro,
nenhum peixe,
nenhuma montanha.
Apenas o céu.
Apenas o mar.
Não existia mais nada,
nenhum som, ou movimento.
Apenas o céu e o mar.
Apenas o Coração-do–Céu, sozinho.
E este era o seu nome: o modelador e criador,
Kukulkan, e o Tufão.

Todavia não existia ninguém para pronunciar o seu nome.
Não existia ninguém para louvar a sua glória.
Não existia ninguém para alimentar a sua grandeza.
Então, Coração-do-Céu pensava,
«Quem é que existe para me louvar?
como construirei a madrugada?»

Então ele apenas diz a palavra:
«Terra»,
e a terra ergue-se, como uma bruma vinda do oceano.
Ele apenas pensa nisso,
e aí está.
Pensa em montanhas,
e elas surgem, enormes.
Pensa em árvores,
e elas crescem da terra.
Então Coração-do-Céu diz:
«A nossa tarefa está a correr bem.»
Planeja então as criaturas da floresta
pássaros, veados, jaguares e cobras.
A cada um é dada uma casa.
«Tu veado, dormirás aqui ao pé dos rios.
Vocês os pássaros, os vossos ninhos estão nas árvores.
Multipliquem-se e espalhem-se»,
diz-lhes ele.
Depois, diz-lhes também:
«Falem, louvem-me.»
Mas as criaturas só podem grasnar.
Elas só conseguem uivar.
Elas não falam como os humanos
elas não louvam Coração-do-Céu.

Os animais destinam-se a ser submissos.
Eles servirão aqueles que venerarem Coração-do-Céu.
E ele tenta de novo.
Tenta criar alguém que o respeite.
Tenta criar alguém que o louve.
Aqui está a nova criação,
feita de lama e de terra.

Não parece grande coisa.
Ou fica mole, ou esmigalha-se.
Parece retorcido, pendente.
Não diz nada que faça sentido.
Não se consegue multiplicar.
Então Coração-do-Céu dissolve o que acabou de fazer.
Estabelece de novo outros planos.
O nosso Avô e a nossa Avó são convocados.
Eles são os espíritos mais sábios.
«Descubram se devemos esculpir as pessoas da madeira”,
diz Coração-do-Céu.

Eles passam as mãos pelos grãos de milho.
Passam as mãos pelas sementes de coral.
«O que é que podemos fazer que fale e louve?»
pergunta o nosso avô.
«O que é que podemos fazer que nos alimente e estime?»
pergunta a nossa avó.
Contam os dias,
em lotes de quatro,
esperando encontrar uma resposta para o Coração-do-Céu.
Dão então a resposta,
“E bom esculpir as pessoas em madeira.
Eles irão falar o teu nome.
Eles irão caminhar e multiplicar-se-ão.””
«Assim seja», responde Coração-do-Céu. –
E enquanto profere estas palavras,
assim se vai fazendo.
Os homens-bonecos são criados
com os rostos esculpidos em madeira.
Mas não possuem sangue,
nem têm suor.
Não têm nada na cabeça.
Não têm respeito por Coração-do-Céu.
Limitam-se a vaguear pela terra,
mas não realizam nada.
«Não era isto que eu tinha em mente»,
diz Coração-do-Céu.
Então decide destruir
esta gente de madeira.
O Tufão produz um dilúvio.
Chove dia e noite.
Surge uma enorme cheia
a terra fica escurecida.
As criaturas da floresta
abrigam-se nas casas dos homens de madeira.
«Perseguiram-nos nas nossas casas
por isso vamos ficar com as vossas»,
rugem eles.
E os cães e perus dizem,
«Abusaram de nós,
agora vamos comer-vos!»
Até os seus potes e as suas mós falavam,
«Vamos queimar-vos e moer-vos
como nos fizeram a nós!»
Os homens de madeira fogem para a floresta.
Os seus rostos são esmagados
e eles são transformados em macacos.
É por isto que os macacos são parecidos com os homens.
Eles são o que resta do que veio antes,
uma experiência na criação do homem.

(Tradução de Vasco David)
Música de Luís Pedro Fonseca

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