Nota biográfica

Pedro Tamen estudou Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se licenciou. Entre 1958 e 1975 foi director da (extinta) editora Moraes e administrou a Fundação Calouste Gulbenkian de 1975 a 2000. Paralelamente presidiou o P.E.N. Clube Português (1987 - 1990) e foi membro da direcção e presidente da assembleia geral daAssociação Portuguesa de Escritores.

Pedro Tamen – “Arca de Noé”

27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos, 
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
– o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.
 
(Analogia e Dedos, 2006)

Pedro Tamen – “Íamos à Barca”

27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Íamos à Barca. Não que navegasse:
descia lentamente até ao rio
toda milho e marulhar de pássaros.
Lá perto as pedras recebiam
carícias de água fria coruscante
e verde. O sol crescia.
Não que navegasse: era campo
de pão bordado de latadas.
Vamos à Barca, dizia o meu avô.
E o tempo não tinha dimensão,
ou se a tinha não a tem agora:
foto quadrada a preto
e baço. Onde espreita porém
o brilho agudo que me pergunta ainda
se o que não esquece é fogo
quando aquece, mas que se apaga logo.