Maria Teresa Horta – “Modo de Amar”

12.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Maria Teresa Horta (Lisboa, 20 de Maio de 1937) é uma escritora e poetisa portuguesa.
Oriunda, pelo lado materno, de uma família da alta aristocracia portuguesa, conta entre os seus antepassados a célebre poetisa Marquesa de Alorna
Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Modo de amar – I

Lambe-me os seios
desmancha-me a loucura

usa-me as coxas
devasta-me o umbigo

abre-me as pernas põe-nas
nos teus ombros

e lentamente faz o que te digo:

Modo de amar – II

Por-me-ás de borco,
assim inclinada …

a nuca a descoberto,
o corpo em movimento …

a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo …
Por-me-ás de borco; Digo:
ajoelhada …

as pernas longas
firmadas no lençol ..

e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos
como quem consome …

(Por-me-ás de borco,
assim inclinada …
os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)

Modo de amar III

É bom nadar assim
em cima do teu corpo
enquanto tu mergulhas
já dentro do meu

Ambos piscinas que a nado
atravessamos
de costas tu meu amor de bruços eu

Modo de amar – IV

Encostada de costas
ao teu peito
em leque as pernas
abertas
o ventre inclinado

ambos de pé
formando lentos gestos

as sombras brandas
tombadas
no soalho

Modo de amar – V

Docemente amor
ainda docemente

o tacto é pouco
e curvo sob os lábios

e se um anel no corpo é saliente
digamos que é da pedra em que se rasga

Opala enorme e morna
tão fremente

dália suposta
sob o calor da carne

lábios cedidos
de pétalas dormentes

Louca ametista
com odores de tarde

Avidamente amor
com desespero e calma
as mãos subindo
pela cintura dada
aos dedos puros numa aridez de praia
que a curvam loucos até ao chão da sala

Ferozmente amor com torpidez e raiva

as ancas descendo como cabras tão estreitas e duras
que desarmam
a tepidez das minhas que se abrem

E logo os ombros descaem
e os cabelos

desfalecem as coxas que retomam das tuas
o pecado
e o vencê-lo
em cada movimento em que se domam

Suavemente agora velozmente

os rins suspensos os pulsos
e as espáduas

o ventre erecto enquanto vai crescendo
planta viva entre as minhas nádegas

Modo de amar – VI

Inclina os ombros e deixa
que as minhas mãos avancem na branda madeira

Na densa madeixa do teu ventre

Deixa
que te entreabra as pernas docemente

Modo de amar – VII

Secreto o nó na curva do meu espasmo

E o cume mais claro dos joelhos
que desdobrados jorram dos espelhos

ou dos teus ombros os meus: flancos
na luz de maio

Modo de amar – VIII

Que macias as pernas na penumbra

e as ancas subidas
nos dedos que as desviam

Entreabro devagar a fenda – o fundo a febre
dos meus lábios

e a tua língua Vagarosa:
toma – morde lambe
essa humidade esguia

Modo de amar – IX

Enlaçam as pernas as pernas
e as ancas

o ar estagnado que se estende no quarto

As pernas que se deitam ao comprido
sob as pernas

E sobre as pernas vencem o gemido
Flor nascida no vagar do quarto

Modo de amar – X

A praia da memória
a sulcos feita
a partir da cintura:

a boca
os ombros

na tua mansa língua que caminha
a abrir-me devagar
a pouco e pouco
Globo onde a sede
se eterniza
Piscina onde o tempo se desmancha
a anca pousada
que inclinas
as pernas retesadas que levantas

E logo
são os dentes que limitam

mas logo
estão os lábios que adormentam
no quente retomar de uma saliva
que me penetra em vácuo
até ao ventre

o vínculo do vento
a vastidão do tempo

o vício dos dedos
no cabelo

E o rigor dos corpos
que já esquece
na mais lenta maneira de vencê-los

Modo de amar – XI (Teu Baixo Ventre)

Nunca adormece a boca
no teu peito

a minha boca no teu baixo
ventre
a beber devagar o que
é desfeito

Modo de amar – XII (Os Testículos)

Tenho nas mãos
teus testículos
e a boca já tão perto

que deles te sinto
o vício
num gosto de vinho aberto

Modo de amar – XIII
(As Pedras – As Pernas)

São as pedras
meus seios
São as pernas
pele e brandura no interior dos
lábios

rosa de leite
que sobe devagar
na doce pedra
do muco dos meus lábios

São as pedras
meus seios
São as pernas

Pêssegos nus
no corpo
descascados

Saliva acesa
que a língua vai cedendo

o gozo em cima … a pedra dos meus
lábios

Jogo do corpo
a roçar o tempo
que já passado só se de memória,
a mão dolente
como quem masturba entre os joelhos …
uma longa história …

Estrada ocupada
onde se vislumbra
(joelhos desviados na almofada)

assim aberta o fim de que desfruta
fruto do odor
fundo todo
do corpo já fechado.

Modo de amar – XIV (As Rosas nos Joelhos)

São grinaldas de rosas
à roda
dos joelhos

O ambar dos teus dentes
nos sentidos

O templo da boca
no côncavo do espelho
onde o meu corpo espia
os teus gemidos
É o gomo depois …
e em seguida a polpa …

o penetrar do dedo …
punho do punhal

que na carne enterras
docemente
como quem adormenta
o que é fatal

É a urze debaixo
e o lodo que acalenta
o peixe
que desliza no umbigo

piscina funda
na boca mais sedenta
bordada a cuspo
na pele do umbigo

E se desdigo a febre
dos teus olhos
logo me entrego à febre
do teu ventre

que vai vencendo
as rosas — os escolhos
à roda dos joelhos,
docemente.

Modo de amar XV (A Boca — A Rosa)

Entreabre-se a boca
na saliva da rosa

no raso da fenda
na finura das pernas

Entreabre-se a rosa
na boca que descerra
no topo do corpo
a rosa entreaberta

E prolonga-se a haste
a língua na fissura
na boca da rosa
na caverna das pernas

que aí se entre-curva
se afunda
se perde

se entreabre a rosa
entre a boca
das pétalas