Nota biográfica

Manuela Nogueira frequentou os cursos do IADE de Cerâmica, Pintura e Desenho e História da Arte. Escreve, desde 1962, obras para adultos e infanto-juvenis. Colaborou em Diários e Revistas, traduziu textos ingleses de Fernando Pessoa, organizou exposições, palestras e colaborou em programas televisivos e radiofónicos sobre o poeta de quem é sobrinha.

Manuela Nogueira – “Sem tempo para esperar”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

fui encontrando farrapos de alma
em caminhos obscuros
na miragem de espantosos poentes
engravidei de muitas esperanças.
Quase uni pedaços desavindos
quase soltei vivos demónios
com amigos e inimigos fiz alianças.
Travei o precipício do efémero
e nesse instante acordei só.
Sem cordão umbilical à terra
sem âncora e sem religião
– meus olhos já viram demais
meus ouvidos estão cerrados
– o corpo tropeça na gravidade
sou virgem de uma verdade.

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Manuela Nogueira – “Encruzilhada”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

No fim da estrada há uma encruzilhada tremenda.
O passado é um caleidoscópio de interrogações,
o presente, o restrito momento de um pensamento,
o futuro, uma nódoa onde o sangue se transmuda
se volatiliza e sobe ao céu em frágil renda.
Todo o axioma entrou em coma.
A lei agora é escapar, sobreviver.
O casamento deu-se, sem boda.
Faz-se amor como se clica o computador,
só tem fascínio o proibido.
O plantel actua no estádio vibrante,
a banda electriza de gestos e metais.
Esquecem-se os mortos da estrada
das guerras, epidemias, fomes.
Abre-se meia porta ao emigrante
que rasteja pela fresta errada.
Já não há encruzilhada nenhuma
nem pensamento a considerar
nem sentimento de culpa a arder
nem projecto a aquecer
nem raiva a crescer em amor.
Há sim a pressa de viver
num mundo que se dissolve em bruma.

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Manuela Nogueira – “Ilha”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há um oceano de gente a minha
volta um palrar de coisas ditas,
promessas vãs de políticos,
becos, caminhos sem rota.
Paz só no meu jardim
onde oiço o cantar dos pássaros,
vejo a cor das borboletas,
o desabrochar das flores;
mesmo com os olhos cerrados
conheço os sons, as cores,
o cheiro e os limites.
Elegi meu derradeiro refugio:
é o castelo feudal sem gentios,
meu trono é degrau de escada.
Vejo o Sol nascer e pôr-se
a calmaria e a ventania
poupam-me da monotonia.
No ninho dos rouxinóis
há novos bicos famintos,
os melros estão menos tímidos.
Sou apenas uma outra personagem
que chegou de um mundo louco
e parou ou desistiu da viagem.

Casa Belos Ares, Estoril

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Manuela Nogueira – “O amante esbelto”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Queria que o meu amante esbelto
me trouxesse o amor fecundo
antes do caos que criou o mundo
plantando as centelhas do início;
queria o âmago do amor
mesmo fictício.

No abraço do amante esbelto
a promessa da fidelidade sagrada
o começo da explosão e implosão
o nada reduzido à planície primeira
onde a ungida flor abrisse ao Sol.

Esqueçamos o amante esbelto
e a inútil promessa herdada
somos apenas a humana raça
pendurada num imenso estendaI
erguida em fria madrugada.

Fixemos apenas o espasmo visceral
que celebra o que chamam amor
depois do acto, chegue a velha ama
para não mais deixar de nos embalar
o mar acolherá nossas lágrimas de sal.

E na imensidão do mar profundo
a luz penetrada é quilha de prata
antes do caos que criou o mundo
era eu a eleita por ele amada …
do amante esbelto esqueci o nome.

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