Nota biográfica

Maria Leonor Nascimento nasceu em 1957, em Lisboa, de Mãe professora e Pai bancário e mestre de xadrez. Completou o curso de Engenharia Electrotécnica no IST , em 1981. Desde cedo estudou piano e começou a fazer poesia, tendo grande parte desta publicada no seu blogue "O Jardim de Aspásia".

Leonor Nascimento – “Entre Ciência e Paixão”

03.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Espantoso mal me atingiu
um dia, quando não esperava;
tudo o que é Lei infringiu,
toda a Razão me fugiu
e hoje, do Amor sou escrava.

Vou entrar em confidências:
resposta para este Amor
fui procurar nas Ciências;
interrogar sapiências
de físico e pensador.

Ai de mim! Para mal meu,
não explicam esta paixão
nem Freud, nem Galileu,
nem Einstein, nem Ptolomeu,
nem mesmo o próprio Platão!

Corri então os poetas,
li romances com afã;
vidas de heróis e ascetas;
teatro de marionetas,
de Molière e de Rostand…

Continuei, pressurosa;
li Voltaire, li Descartes,
Nietzsche, Cervantes, Espinoza…
Qualquer poesia ou prosa,
filosofia ou arte.

Corri todos os museus,
exposições e concertos.
Vi Picasso, admirei Zeus,
ouvi Wolfgang Amadeus –
obras completas e excertos…

Estudei as religiões,
tantas quantas achar pude;
e fiz peregrinações,
jejuns e meditações…
Li a Bíblia e o Talmude.

O Alcorão li também,
e, para salvar a alma,
dei esmolas, fiz o bem;
mas não pude encontrar quem
me restituísse a calma…

Procurei na Biblioteca,
do Mar Morto, os manuscritos;
mas, mesmo virada a Meca,
não me surgiu um Eureka!
da leitura desses escritos…

Estudo a Pedra de Roseta,
já sei Sânscrito e Latim,
vão correndo a ampulheta
e a clépsidra obsoleta
nesta pesquisa sem fim…

Quer de noite, quer de dia,
devoro, afincadamente,
Matemática, Poesia…
História e Antropologia
leio até ficar doente…

Já ninguém me reconhece,
nem pais, nem primos, nem tias.
O tino já me falece,
já tenho a espinha em s
e subi dez dioptrias!

Ao microscópio analiso
as lágrimas que chorei…
E um relatório conciso
cada noite realizo
das penas que suportei.

E, telescópio na mão,
noite alta, no firmamento,
procuro a constelação
que se encontra em conjunção
com Vénus, nesse momento…

Infelizmente, porém,
não ponho fim neste enigma;
não resolvo esta equação;
e, nem por integração,
acho alfa, gama ou sigma…

Desde a Relatividade
à Teoria do Eu,
procurei com ansiedade
descobrir uma Verdade
que me tirasse do breu.

Já vi no televisor
tudo o que é curso em cassette;
sei operetas de cór;
fui para o computador
e liguei-me à Internet…

Apesar desta procura,
continuei ignorante;
de Amor, o mal não tem cura
e eu, que era tão segura,
vivo hoje periclitante…

E, fartas do turbilhão
que me avassala por dentro,
a Cabeça e a Razão
ordenam ao Coração
que mate este sentimento.

O Coração, no entanto,
responde: “Procurai mais!
Apesar desse quebranto
não me tireis deste encanto
em que também navegais…”

E presa nestes dilemas,
vasculho as Enciclopédias,
equaciono problemas,
demonstro leis, teoremas,
leio farsas e tragédias…

Com tanto estudo, afinal,
tirei três licenciaturas:
Quântica Medieval,
Genética Sideral
E Fisio-Literaturas!!!

E, apesar de não achar
para meu mal solução,
vou, para me graduar,
em breve, tentar tirar
Doutoramento em Paixão…

1994

facebooktwittermailby feather

Leonor Nascimento – “Sonho Egípcio”

15.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Hoje acordei egípcia
e só ando de lado,
função que com perícia,
pratico há um bocado.

Ando de tanga às riscas,
sandálias de bambu,
um colar de ametistas,
o resto… tudo a nu.

Ao meu pequeno-almoço,
sentada num tripé,
bebi chá de tremoço
e papas de rapé.

Enquanto meu abutre
cantava no quintal,
dei banho a Tot-A-Mut,
minha cobra coral.

Sentei-me numa esteira
a estudar hieroglifos,
mas deu-me uma soneira
e sonhei com três grifos.

Chegou o meu amante,
que me trouxe do Nilo
um colar de diamante
e unhas de crocodilo.

Chamámos dois felás
p´ra nos levarem, às costas,
a casa de Al-Faissaz,
comer umas lagostas,

e, para terminar,
e como era Domingo,
salada de nenúfar,
e um bife de flamingo!

Voltámos para a sesta,
até ao pôr-do-sol,
mas foi tamanha a festa,
rasgámos o lençol…

Acordámos, enfim,
e fomos, num repente,
dançar para o jardim,
uma Dança do Ventre!

À hora em que Amon-Rá
se põe lá em Gizé,
degustámos maná,
fumámos narguilé.

Rezámos a Osiris,
cantámos a Horus,
tomámos banho de íris,
tomilho e alcaçuz.

Pusemos os unguentos
que fazem delirar:
ele, sândalo bento,
eu, rosa e almíscar,

enquanto a serva núbia,
nos ia embalando,
uma ária da Aida
numa lira ensaiando…

E assim aperaltados
lá fomos p´ró banquete,
por Cleópatra chamados
– pois fazia dezassete
aninhos, a menina…

E levámos, de prenda,
um escravo, uma ocarina
e um soutien de renda
todo em crepe da China !!!

Aspásia 99

facebooktwittermailby feather

Leonor Nascimento – “Anúncio”

15.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se quiseres dedicar
uma estrofe à namorada,
se quiseres (en)levar
a sogra, o primo, a criada…
não tens mais que encomendar:
sou poetisa encartada,
versifico qualquer tema,
faço trova, ode ou poema,
rimo por tudo e por nada.
 
Faço versos a granel,
ao litro, ao metro, ao quilate,
ternos bolinhos de mel,
bravos galos de combate…
Numa folha de papel,
escrevo tese ou disparate,
em letrinhas de hidromel,
de cicuta ou erva-mate…
 
Peço a Lili p´ró Manel,
trato divórcio ou engate,
do velho faço donzel,
fel transformo em chocolate…
Da choupana faço hotel;
do albardeiro, alfaiate;
o tolo armo em bacharel,
o recruta em coronel,
e ao Rei… dou xeque-mate.
 
(Tenho encomendas a rodos,
não posso fazer mais nada…
Poetas querem ser todos
que é casta mui ilustrada…
E lá lhes mostro bons modos,
para aumentar a mesada
à custa dos meus engodos
de poesia alugada…)
 
Amigo, amiga, não esperes,
deixa o teu nome e morada,
irei ter onde estiveres,
com a caneta afiada…
Se dinheiro não tiveres,
aceito a alma empenhada,
se os versos não entenderes,
faço versão ilustrada…
Ponho em verso o que quiseres,
cativo homens e mulheres,
arranjo empregos, mesteres,…
e não pagas quase nada!…
 
Leonor 1998

facebooktwittermailby feather

Leonor Nascimento – “Sonho”

15.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Estava a sonhar, sabes?,
que éramos dois meninos aí da mesma idade,
de bibes azuis, joelhos esfolados,
e morávamos no mesmo bairro da grande cidade…
Um pouco tontos do sol da manhã,
brincávamos às escondidas e à apanhada
e lanchávamos, a meias, tarte de maçã.

Tu eras para o gorducho e pachorrento,
não eras assim lá muito de pressas…
e eu, magrizela e matreira,
ganhava quase sempre sem grandes chatices.
Então gostava de puxar-te os caracóis
e chamar-te “meu grande paspalhão”,
mas com um certo medo que tu descobrisses
que afinal já eras, entre os meus heróis,
o Principezinho do meu coração.

Às vezes, parecia que me olhavas desconfiado
com uns olhinhos doces por trás duns grandes óculos
e os caracóis colados à testa suada.
Aí, eu disfarçava, tirava o pente do bolso
e penteava-te dizendo: “Então que foi?”
E tu resmungavas: “Não foi nada. É do calor”,
com o teu arzinho sério e atrapalhado.
Então eu derretia, não tanto do calor,
talvez mais, se calhar,
da tua expressão de “homem cheio de azar”…
E murmurava-te ao ouvido, para te consolar,
a mais super-secreta declaração de amor:
“Deixa lá, meu pateta! Amanhã deixo-te ganhar.”

facebooktwittermailby feather