Nota biográfica

José João Craveirinha (Lourenço Marques, 28 de Maio de 1922 — Maputo, 6 de Fevereiro de 2003). É considerado o poeta maior de Moçambique. Em 1991, tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa.

José Craveirinha – “Poema”

14.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

craveirinha

Para Josefa Brito

Por que te fechaste
à clara insinuação de carinho dos teus irmãos?
E a cada apelo respondeste evasivamente
com as belas mãos cerradas numa recusa formal?
Não vês que te queremos
e amamos sinceramente como nossa irmã mais nova
e que nos dói no sangue, na pele e na alma
fundamente
a tua inconcebível indiferença pela nossa voz fraterna?
Irmã de cabelos soltos ondulando
como seara de veludo acariciada pela nortada.
Irmã dos olhos lânguidos, magoados,
escuros como a noite amortalhando nossos destinos
por que te fechaste, Irmã morena
e preferiste deixar-nos de mãos vazias, inertes desiludidas
quando a esmola implorada
era pura e límpida como a verdade mais nua?
Vem! despojada dos erisses que te cegam.
E que foi simples timidez o teu gesto, diz-nos
para que confiemos em ti completamente
como só se confia no mesmo companheiro de cela
e não passemos por ti desconfiados, retraídos
como se fôssemos mutuamente estrangeiros
e não do mesmo sangue gordo de porquês
e não da mesma alma, angra de sofrimentos
e não do mesmo desespero, pão do nosso silêncio
e não da mesma ânsia, sede da nossa vida,
da mesma fome potente
e da mesma febre que nos coalha as veias luminosamente!
(in «O Brado Africano»)

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José Craveirinha – “A nossa casa”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ambição
minha e da Maria
foi termos uma casa nossa
onde nos contarmos os cabelos brancos.

Sonho realizado.
Casa definitiva já temos.
Lote 42.
Talhão 71883.
Fachada pintada a cal.
Clássica arquitectura rectangular.
Uma via asfaltada com um único sentido.
Tudo sito no derradeiro bairrismo
que e’ morar no bairro de Lhanguene.

Pelo menos envelhecer já não é problema.
O resto na altura mais propícia
surgirá por si.

Parece que está por pouco.
Na lista onde eu consto
É injusto que tarde
estarmos juntos.

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José Craveirinha – “Eles foram”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vovó
amanhã não precisa
ir ao hospital.

Ontem eles foram lá
deram maningue tiros
partiram tudo, tudo
mataram doentes
mutilaram o senhor enfermeiro
e violaram a senhora parteira.

Outros doentes privilegiados
foram carregar na cabeça
farinha açucar e arroz
da cooperativa

Foram.”

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José Craveirinha – “Fraternidade das Palavras”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O céu
é uma m´benga
onde todos os braços das mamanas
repisam os bagos de estrelas.

Amigos:
as palavras mesmo estranhas
se têm música verdadeira
só precisam de quem as toque
ao mesmo ritmo para serem
todas irmãs.

E eis que num espasmo
de harmonia como todas as coisas
palavras rongas e algarvias ganguissam
neste satanhoco papel
e recombinam em poema.

In Obra Poética I

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José Craveirinha – “Grito negro”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

malangatana
(Malagantana)

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.

Eu sou carvão!

E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.

Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.

Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.

Eu sou carvão.

Tenho que arder

Queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim!

Eu sou o teu carvão, patrão.

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José Craveirinha – “Canto…”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.
Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.
Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.
Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós.
Karingana ua Karingana

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