George Brassens – “O malandro arrependido”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ela tinha uma cintura bem torneada

cadeiras cheias

e caçava os machos nos arredores da Madeleine.

pelo seu jeito de me dizer:
Meu anjo

te apeteço?

eu vi logo que se tratava de uma debutante.


Ela tinha talento, é verdade, eu o confesso.

Ela tinha gênio,

mas sem técnica um dom não é nada.

Certamente não é tão fácil ser puta como ser freira,

pelo menos é o que se reza em latim na Sorbonne.


Sentindo-me cheio de piedade pela donzela

ensinei-lhe os pequenos truques da sua profissão

e ensinei-lhe os meios para fazer logo fortuna

rebolando o lugar onde as costas se assemelham à lua,


Porque na arte de fazer o trottoir, confesso,

o difícil é saber mexer bem a bunda.

Não se mexe a bunda da mesma maneira

para um farmacêutico, um sacristão, um funcionário.


Rapidamente instruída por meus bons ofícios

ela cedeu-me uma parte de seus benefícios.

Ajudavamo-nos mutuamente, como diz o poeta:

ela era o corpo, naturalmente, e eu a cabeça.


Quando a coitada voltava para casa sem nada

dava-lhe umas porradas mais do que com razão.

Será que ela se lembra ainda do bidê com

que lhe rachei o crânio?


Uma noite, por causa de manobras duvidosas

ela caiu vítima de uma doença vergonhosa,

então, amigavelmente, como uma moça honesta

passou-me a metade de seus micróbios.


Depois de dolorosas injeções de antibióticos

desisti da profissão de cornudo sistemático.

Não adiantou que ela chorasse e gritasse feita louca

e, como eu era apenas um canalha, fiz-me honesto.


Privada logo de minha tutela, minha pobre amiga, 

correu a suportar as infâmias do bordel.

Dizem que ela se vendeu até aos tiras!

Que decadência!

Já não existe mais moralidade pública

na nossa França!
(de “Chansons”)

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