Category Archives: David Mourão-Ferreira

David de Jesus Mourão-Ferreira (24 de Fevereiro de 1927 — 16 de Junho de 1996) foi um escritor e poeta lisboeta licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1951, onde mais tarde, em 1957, foi professor, tendo-se destacado como um dos grandes poetas contemporâneos do Século XX.

David Mourão-Ferreira – “E por vezes”

E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Penélope”

Mais do que um sonho: comoção! Sinto-me tonto, enternecido, quando, de noite, as minhas mãos são o teu único vestido. E recompões com essa veste, que eu, sem saber, tinha tecido, todo o pudor que desfizeste como uma teia sem … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Que louro cabelo”

IV Que louro o cabelo 
 Tão ouro por dentro Azuis olhos verdes de mar de arvoredo Ó branca e vermelha 
 desde os tornozelos 
 até às alturas dos ombros da nuca Nem saia nem manto 
 Só te … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Nádegas”

Entre as duas nádegas 
o pávido sulco tem aroma de áfricas 
 e de uvas de outubro Dirias que fora 
um silvo de morte 
 a penetrar toda a nocturna flora até hoje intacta que ainda aí tinhas 
Respira Não … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Pequenos poemas”

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
 de mais que tua pele ser a pele da minha pele? Cintilação de luas 
assim que te desnudas
 às escuras Diante do teu ventre
 como não dizer “sempre”
 novamente. Ó lâmina … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Sobre mim cavalgas…”

Sobre mim cavalgas 
cingindo-me os flancos 
 Colhes à passagem a luz do instante De dentes cerrados 
ondulas, avanças, 
 retesas os braços, 
comprimes as ancas. Depois para a frente 
 inclinas-te olhando o que entre dois ventres 
ocorre entretanto, … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Prelúdio”

Tudo principiava pela cúmplice neblina que vinha perfumada de lenha e tangerinas   Só depois se rasgava a primeira cortina E dispersa e dourada no palco das vitrinas   a festa começava entre odor a resina e gosto a noz-moscada … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Ternura”

Desvio dos teus ombros o lençol, que é feito de ternura amarrotada, da frescura que vem depois do sol, quando depois do sol não vem mais nada … Olho a roupa no chão: que tempestade! Há restos de ternura pelo … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Presídio”

Nem todo o corpo é carne … Não, nem todo. Que dizer do pescoço, às vezes mármore, às vezes linho, lago, tronco de árvore, nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco … ? E o ventre, inconsistente como o lodo? … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Maria Lisboa”

É varina, usa chinela, 
 tem movimentos de gata. 
 Na canastra, a caravela; 
 no coração, a fragata. Em vez de corvos, no xaile 
gaivotas vêm pousar. Quando o vento a leva ao baile, 
baila no baile coo mar. … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Ladaínha horizontal”

Como se fossem jangadas desmanteladas, vogam no mar da memória as camas da minha vida … Tanta cama! Tanta história! Tanta cama numa vida! Grabatos, leitos, divãs, a tarimba do quartel; e no frio das manhãs lívidas camas de hotel … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Casa”

Tentei fugir da mancha mais escura que existe no teu corpo, e desisti. Era pior que a morte o que antevi: era a dor de ficar sem sepultura. Bebi entre os teus flancos a loucura de não poder viver longe … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Balada”

Depois do sangue misturado, depois dos dentes, dos lamentos, estamos deitados, lado a lado, e desfolhamos sofrimentos. Temos trint’anos, mais trezentos de sofredora exaltação. É este o cabo dos tormentos? Ai, não e não! Ainda não. Saboreamos o passado por … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Natal”

Entremos, apressados, friorentos, Numa gruta, no bojo de um navio, Num presépio, num prédio, num presídio, No prédio que amanhã for demolido… Entremos, inseguros, mas entremos. Entremos, e depressa, em qualquer sítio, Porque esta noite chama se Dezembro, Porque sofremos, … Continue reading

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David Mourão-Ferreira – “Equinócio”

Chega-se a este ponto em que se fica à espera Em que apetece um ombro o pano de um teatro um passeio de noite a sós de bicicleta o riso que ninguém reteve num retrato Folheia-se num bar o horário … Continue reading

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