Nota biográfica

Sexto rei de Portugal. Filho de D. Afonso III a de D. Beatriz de Castela. A doença de seu pai preparou-o bem cedo para governar. Foi aclamado em Lisboa em 1279, para iniciar um longo reinado de 46 anos, inteligente e progressivo. Lutou contra os privilégios que limitavam a sua autoridade. Entre várias medidas tomadas, deve citar-se a Magna Charta Priveligiorum, primeiro estatuto da Universidade, a tradução de muitas obras, etc. A sua corte foi um dos centros literários mais notáveis da Península.

D. Dinis – “João Bolo”

06.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

d.dinis

Português moderno

João Bolo anda muito destroçado
e anda triste e faz muit’ aguisado,
pois perdeu quanto tinha ganhado
e o que lhe deixou a sua mãe.
Um rapaz que era seu criado,
levou-lh’ o cavalo e deixou-lh’ a mula.
Se ele a mula quisesse levar
a João Bolo e o rocim deixar,
não lhe custara tanto, a meu cuidar,
nem também parecera coisa tão cruel;
mas o rapaz, para lhe fazer pesar,
levou-lh’ o cavalo e deixou-lh’ a mula.
Aquele rapaz que Ihe o rocim levou,
se Ihe levass’ a mula que Ihe ficou
a João Bolo, como se queixou,
não se queixaria andando pela rua;
mas o rapaz, por mal que Ihe desejou,
levou-lh’ o cavalo e deixou-lh’ a mula.

Português antigo

Joam Bol’ anda mal desbaratado
e anda trist’ e faz muit’ aguisado,
ca perdeu quant’ avia guaanhado
e o que lhi leixou a madre sua.
Um rapaz que era seu criado,
levou-lh’ o rocim e leixou-lh’ a mua.
Se el a mua quisesse levar
a Joam Bol’ e o rocim leixar,
nom lhi pesára tant’, a meu cuidar,
nem ar semelhára cousa tam crua;
mais o rapaz, por lhi fazer pesar,
levou-lh’ o rocim e leixou-lh’ a mua»
Aquel rapaz que Ih’ o rocim levou,
se Ihi levass’ a mua que Ihi ficou
a Joam Bolo, como se queixou,
non se queixár’ andando pela rua;
mais o rapaz, por mal que Ihi cuidou,
levou-lh’ o rocim e leixou-lh’ a mua.

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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D. Dinis – “Ai, flores”

22.03.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

Captura de ecrã 2016-03-22, às 15.39.31

Português moderno

Ai flores, ai flores do verde pinho,
Se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
Se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo
Aquel que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
Aquel que mentiu do que mi á jurado!
Ai Deus, e u é?
Vós me perguntades polo voss’ amigo,
E eu ben vos digo que é san’e vivo.
Ai Deus, e u é?
Vós me perguntades polo voss’ amado,
E eu ben vos digo que é viv’e sano.
Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo que é san’ e vivo
E será vosso ante o prazo saído.
Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo que é viv’ e sano
E será vosso antes o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

Português antigo

As flores, ay flores, do uerde pinho,
se sabedes nouas do meu amigo!
ay Deus, e hu é?
Ay flores, ay flores do uerde ramo,
se sabedes nouas do meu amado!
ay Deus, e hu é?
Se sabedes nouas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
ay Deus, e hu é?
Se sabedes nouas do meu amado,
aquel que mentiu do que mh-á iurado!
ay Deus, e hu é?
Vós me preguntades polo uoss’ amigo,
e eu ben uos digo que é san’ e uiuo:
ay Deus, e hu é?
Vós me preguntades polo uoss’ amado,
e eu ben uos digo que é uiu’ e sano :
ay Deus, e hu é?
E eu ben uos digo que é san’ e uiuo
e seerá vose’ant o prazo saydo:
ay Deus, e hu é?
B eu ben uos digo que ê uiu’ e sano
e seerá vose’ant’ o prazo passado:
ay Deus, e hu é?

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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