Nota biográfica

Caetano da Costa Alegre (26 de Abril de 1864 - 18 de Abril de 1890) foi um poeta de nacionalidade portuguesa, nascido no seio de uma família crioula cabo-verdiana, na então colónia portuguesa de São Tomé.
 Em 1882 mudou-se para a Metrópole e frequentou as aulas de uma escola de medicina em Lisboa, para formar-se como médico naval. Morreu de tuberculose antes de poder cumprir tal objetivo, com apenas 25 anos.

Costa Alegre – “A Negra”

04.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

almada_negreiros
(Pintura de Almada Negreiros)

Negra gentil, carvão mimoso e lindo
Donde o diamante sai,
Filha do Sol, estrela requeimada,
Pelo calor do Pai.

Encosta o rosto, cândido e formoso,
Aqui no peito meu,
Dorme, donzela, rola abandonada
Porque te velo eu.

Não chores mais, criança, enxuga o pranto
Sorri-te para mim,
Deixa-me ver as pérolas brilhantes,
Os dentes de marfim.

No teu divino seio existe oculta
Mal sabes quanta luz,
Que absorve a tua escurecida pele,
Que tanto me seduz.

Eu gosto de te ver a negra e meiga
E acetinada cor,
Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada
Pelas chamas do amor;

Que outrora foste neve e amaste o lírio,
Pálida flor do vale,
Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te
O seio virginal.

Não chores mais, criança, a quem eu amo,
Ó lindo querubim,
O amor é como a rosa, porque vive
No campo ou no jardim.

Tu tens o amor ardente, e basta
Para ser feliz;
Ama a violeta que a violeta adora-te
Esquece a flor de lis.

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Caetano da Costa Alegre – “Visão”

15.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

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(Pintura de Norberto Geraldes)

Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante;
Ias de luto, doce toutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(O teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.

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