Nota biográfica

Eugen Berthold Friedrich Brecht (Augsburg, 10 de Fevereiro de 1898 — Berlim, 14 de Agosto de 1956) foi um destacado dramaturgo, poeta e encenador alemão do século XX. Seus trabalhos artísticos e teóricos influenciaram profundamente o teatro contemporâneo.

Bertolt Brecht – “Dificuldades de governar”

25.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

É também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
É se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

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Bertolt Brecht – “Canção da Inocência Perdida”

26.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

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O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
       Se isto não vale pra a roupa
       Também não vale pra mim.
       Que o rio lhe passe por cima
       Breve fica branca, assim.

Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
       A roupa já estava parda,
       No rio a fui mergulhar.
       No cesto está virginal
       C’mo sem ninguém lhe tocar.

Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
       A roupa branca no rio
       Enxaguada à roda, à roda,
       Sente que as ondas a beijam:
       «Volta-me a brancura toda».

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
      
Assim acontece à roupa
       E a mim acontecerá.
       A água corre depressa,
       Sujidade diz: Vem cá!

Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
       Com poupanças e jejuns
       Nenhuma mulher se acalma.
       Roupa guardada na arca,
       Na arca se não faz alva.

E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
       Mete-a na água e sacode-a!
       Há sol, cloreto e vento!
       Usa-a, dá-a de presente:
       Fica fresquinha a contento.

Bem sei: Muito pode vir
Até que nada por fim, fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
       E uma vez que apodreça
       Nenhum rio a embranquece.
       Leva-a consigo em farrapos.
       Um dia assim te acontece.

Bertold Brecht, in “Canções e Baladas”

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Bertold Brecht – “Canção da inocência”

29.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
       Se isto não vale pra a roupa
       Também não vale pra mim.
       Que o rio lhe passe por cima
       Breve fica branca, assim.

Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
       A roupa já estava parda,
       No rio a fui mergulhar.
       No cesto está virginal
       C’mo sem ninguém lhe tocar.

Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
       A roupa branca no rio
       Enxaguada à roda, à roda,
       Sente que as ondas a beijam:
       «Volta-me a brancura toda».

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
      
Assim acontece à roupa
       E a mim acontecerá.
       A água corre depressa,
       Sujidade diz: Vem cá!

Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
       Com poupanças e jejuns
       Nenhuma mulher se acalma.
       Roupa guardada na arca,
       Na arca se não faz alva.

E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
       Mete-a na água e sacode-a!
       Há sol, cloreto e vento!
       Usa-a, dá-a de presente:
       Fica fresquinha a contento.

Bem sei: Muito pode vir
‘Té que nada por fim, fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
       E uma vez que apodreça
       Nenhum rio a embranquece.
       Leva-a consigo em farrapos.
       Um dia assim te acontece.

(in “Canções e Baladas”)

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Bertold Brecht – “O tanque”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O Vosso tanque general
É um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
Precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
Precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
Sabe pensar.

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