Nota biográfica

Bernardim Ribeiro (Torrão, 1482? — 1552?) foi um escritor e poeta português renascentista. A sua principal obra é a novela Saudades, mais conhecida porém como Menina e Moça. Teria frequentado a corte de Lisboa, colaborou no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, que assim como Bernardim pertenceu à roda dos poetas palacianos juntamente com Sá de Miranda, Gil Vicente e outros. Foi o introdutor do bucolismo em Portugal.

Bernardim Ribeiro – “Écloga de Jano e Franco” (Excerto)

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dizem que havia um pastor
antre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per uma moça Joana.
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo,
seu pai acerca morava,
e o pastor, de Alentejo
era, e Jano se chamava.
Quando as fomes grandes foram,
que Alentejo foi perdido,
da aldea que chamam Terrão
foi este pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
que lhe ficou doutro muito
que lhe morreu de cansado:
que Alentejo era enxuito d’ágoa
e mui seco de prado.
Toda a terra foi perdida;
no campo do Tejo só
achava o gado guarida:
ver Alentejo era um dó!
E Jano, para salvar
o gado que lhe ficou,
foi esta terra buscar;
e se um cuidado levou,
outro foi ele lá achar.

O dia que ali chegou
com seu gado e com seu fato,
com tudo se agasalhou
em uma bicada de um mato.
E levando-o a pascer,
o outro dia, à ribeira,
Joana acertou de ir ver
que se andava pela beira
do Tejo a flores colher.
Vestido branco trazia,
um pouco afrontada andava,
fermosa bem parecia
aos olhos de quem na olhava.
Jano, em vendo-a, foi pasmado;
mas, por ver que ela fazia,
escondeu-se antre um prado:
Joana flores colhia,
Jano colhia cuidado.
Despois que ela teve as flores
já colhidas e escolhidas
as desvairadas cores,
com rosas entremetidas,
fez delas uma capela,
e soltou os seus cabelos,
que eram tam longos como ela:
e de cada um a Jano em vê-los
lhe nascia uma querela.
E em quanto aquisto fazia
Joana, o seu gado andava
por dentro da água fria,
todo após quem o guiava.
Um pato grande era a guia,
e todo junto em carreira,
ora no a cima ia,
ora, em a mesma maneira,
o rio abaixo descia.

Joana como assentou
a capela, foi com a mão
à cabeça, e atentou
se estava em boa feição.
Não ficando satisfeita
do que da mão presumia,
partiu-se dali direita
para onde o rio fazia d’água
uma mansa colheita.
Chegando à beira do rio,
as patas logo vierom
todas uma e uma, em fio,
que toda a água moverom.
De quanto ela já folgou
com aquestes gasalhados
tanto entonces lhe pesou,
e com pedras e com brados
dali longe as enxotou.
Despois que elas foram idas
e que a água assossegou,
Joana, as abas erguidas,
entrar pel’água ordenou;
e assentando-se, então,
as sapatas descalçou,
e, pondo-as sobre o chão,
por dentro d’ água entrou
e a Jano pelo coração.
Em quanto, com passos quedos.
Joana pela água ia,
antre uns desejos e medos,
Jano, onde estava, ardia:
não sabia se falasse,
se saísse, se estivesse;
que o amor mandava que ousasse,
e, por que a não perdesse,
fazia que arreceasse.