Nota biográfica

Armando da Silva Carvalho (Olho Marinho, Óbidos, 1938) é um poeta e tradutor português.

Armando Silva Carvalho – “Também as pedras morrem”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Também as pedras morrem, disse Vieira
a pensar na eternidade do ser.
Aqui são mais humanas as pedras
no seu rosto inclinado para o sofisma
da água.

Miram-se nela mas não são seduzidas
pela sua passagem;
uma passagem volúvel de quem tem o mar à espera
como um sonho previsto
na loucura encrespada de algum barco.

Os homens servem-se delas para os seus aparatos;
não as deixam limpas no seu pensar
– terrível – e que obrigou Vieira
a dar-lhes sangue
para que nada faltasse ao sacrifício.

Trago de cor a sua vermelha companhia.
E obedeço.
Pisei-as como convém ao meu destino
de pequena coisa transumante.
Não me baixei para elas num beijo
de suborno.

Agora descrevo-as como posso e quero.
Pedras mortais
que se tornam mentais
e são a substância de um panorama surdo,
espessa melancolia,
a solidez da ausência que esmaga
o desespero.