Nota biográfica

António Feliciano de Castilho, primeiro visconde de Castilho, (Lisboa, 28 de Janeiro de 1800 — Lisboa, 18 de Junho de 1875) foi um escritor romântico português, polemista e pedagogo, inventor do Método Castilho de leitura. Perdeu a visão quase completamente aos 6 anos de idade. Licenciou-se em direito na Universidade de Coimbra.

Antonio Feliciano Castilho – “Os treze anos” (Cantilena)

27.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Já tenho treze anos, 

que os fiz por Janeiro:

madrinha, casai-me 

com Pedro Gaiteiro.

Já sou mulherzinha; 

já trago sombreiro; 

já bailo ao domingo

Com as mais no terreiro.

Já não sou Anita, 

como era primeiro, 

sou a senhora Ana, 

que mora no outeiro.

Nos serões já canto,

nas feiras já feiro, 

já não me dá beijos

qualquer passageiro.

Quando levo as patas,

e as deito ao ribeiro,

olho tudo à roda

de cima do outeiro;

E só se não vejo 

ninguém pelo arneiro, 

me banho com as patas

ao pé do salgueiro.

Miro-me nas águas 

rostinho trigueiro,

que mata de amores

a muito vaqueiro.

Miro-me, olhos pretos

e um riso fagueiro, 

que diz a cantiga

que são cativeiro.

Em tudo, madrinha, 

já por derradeiro, 

me vejo mui outra 

da que era primeiro.

O meu gibão largo 

de arminho e cordeiro, 

já o dei à neta
do Brás 
cabaneiro,

Dizendo-lhe: “Toma

gibão domingueiro, 

de ilhoses de prata, 

de arminho e cordeiro.

“A mim já me aperta,

e a ti te é laceiro; 

tu brincas com as outras 

e eu danço em terreiro.”

Já sou mulherzinha; 

já trago sombreiro; 

já tenho treze anos, 

que os fiz por Janeiro.

Já não sou Anita, 

sou a Ana do outeiro; 

madrinha, casai-me 

com Pedro Gaiteiro.

Não quero o sargento,

que é muito guerreiro, 

de barbas mui feras, 

e olhar sobranceiro.

O mineiro é velho; 

não quero o mineiro; 

mais valem treze anos

que todo o dinheiro.

Tão pouco me agrado 

do pobre moleiro,

que vive na azenha 

como um prisioneiro.

Marido pretendo de

humor galhofeiro, 

que viva por festas, 

que brilhe em terreiro;

Que em ele assomando

Com o tamborileiro,

logo se alvorote 

o lugar inteiro;

Que todos acorram 

por vê-lo primeiro, 

e todas perguntem 

se ainda é solteiro.

E eu sempre com ele,

romeira e romeiro,

vivendo de bodas, 

bailando ao pandeiro.

Ai, vida de gostos! 

ai, céu verdadeiro! 

ai, Páscoa florida,
que 
dura ano inteiro!

Da parte, madrinha, 

de Deus vos requeiro: 

casai-me hoje mesmo 

com Pedro Gaiteiro.

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