Nota biográfica

Alberto Silva nasceu em Angola e chega a Portugal com poucos dias de vida, fixando-se a família em Braga. Reside em Setúbal. Cedo revela o gosto pela palavra. Acaba de publicar "Labirinto de nós", poesia, editada pela Alfarroba.

Alberto Silva – “La petite mort”

01.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pincelava-te o corpo com o meu beijo. Ao de leve, suave.
Percorria-te o peito com o olhar.
Deixava deslizar, lentamente, a ponta dos meus dedos.
A pele que estendias húmida, ardente, indefesa, arrepiava-se
a cada toque, a cada brisa, a cada beijo.
Sentias suavemente as carícias dos meus lábios em teu
manto. Percorriam cada espaço descoberto.
Lentamente, sentias o corpo acendendo-se. Começavam os
suores, os gemidos, os olhares furtivos. O corpo começava-
-se-te a contorcer, sem controlo, sem regra, sem caminho.
A medida que ias sentindo a pele na pele, o som com
som, o ritmo com movimento, ias perdendo o sentido, ias
deixando-te fugir. Partias.
As coxas apertavam-se-te em conjunto, sufocavas-me as
mãos, não permitias que saísse.
A força do teu sufoco deixava antecipar a rápida chegada.
Apertavas-me as mãos, como quem não permitia que
partisse. Agora não era tempo de voltar atrás.
Deixavas-te chegar com a força de um suspiro.

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Alberto Silva – “Fome”

01.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vejo-te em fragmentos soltos de peças quebradas
em derrotas de batalhas nunca ganhas
nem vontades de lutas diferentes
ou construções de verdadeiras vontades.
Sei-te ainda dentro dos teus ais
por eles fui-te dando o meu ter
enquanto desistias e perdias mais de ti.
Medos de passados já quebrados
despedaçaram-te vontades e quereres
navegando-te em sonhos desfeitos e moribundos
em pedaços mortos de futuros risonhos.
Ergue-te hoje em bases sólidas
de fome e vontade de viver
a vida que com quem deves saber viver
e dá-te à vontade de querer.

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Alberto Silva – “Vielas”

01.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Afagam-se incertezas em viagens matinais
por ruas e avenidas de alcatrão posto
em ritmos despertos de sonhos brandos
enquanto se espera o infinito
além da dor da tua espera.
Colam-se retalhos velhos a novos rumos
na esperança de novos horizontes
mas a esquina que vem dobrando
não acompanha o que é preciso.
Fogem-se as vielas por nossas solas
gastas e rotas das calçadas
em breves passos já cansados
até ao próximo pouso na estrada.

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