Nota biográfica >>

Jorge Cândido de Sena (Lisboa, 2 de Novembro de 1919 — Santa Barbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978) foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português.

Jorge de Sena – “Envelhecer”

18.11.2013

I
Nesta claridade silenciosa e pálida os vultos

deslizam como sombras no entanto nítidos e 

contornados por um brilho que entontece o 

olhar.

Há uma distância incomensurável entre nós. E 

dir-se-ia que nenhum gesto é bastante para os 

atingir. O tempo se fez distância.

Paralisado em transparência gélida eu não

mudei porém. Pelo contrário é como se

contido o ardor fosse maior.

E doloroso mais. Porque de antigamente o

não-ter e o perder ainda eram certeza de 

atingir, senão de amor.
II
De amor eu nunca amei senão desejo visto ou 

pressentido. Um corpo. Um rosto. Um gesto. E

nunca de paixão sujei o meu prazer ou o de 

alguém. Por isso posso

mesmo as audácias recordar sem culpa. 

Tudo o que fiz ou quis que me fizessem o

paguei comigo ou com dinheiro. E só 

lamento as vezes que perdi

retido por algum respeito. Errei

por certo — mas foi nisso. O que me dói

não é tristeza de quem dissipou

no puro estéril quanto esperma pôde gastar
assim. O que me mata agora é este frio que

não está em mim.

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