Nota biográfica >>

Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas (Póvoa de Atalaia, 19 de Janeiro de 1923 — Porto, 13 de Junho de 2005). Apesar do seu enorme prestígio nacional e internacional, Eugénio de Andrade sempre viveu distanciado da chamada vida social, literária ou mundana, tendo o próprio justificado as suas raras aparições públicas com «essa debilidade do coração que é a amizade».

António Ramos Rosa – “A Eugénio de Andrade”

18.10.2015

eugenio_carlos_carneiro

Conheces as palavras que amanhecem
na sombra quase lancinantes
e vegetais brancas com um leve rumor
de pulso tão próximas do mar
Doem-te as estrelas nas obscuras portas
ou na garganta da terra ou ainda nos ombros
do dia limpo Quase preciosas
têm a elegância da água e um segredo de espuma
Há nelas sempre o perfume que desce do crepúsculo das colinas
Têm o torso leve o peito aéreo e um branco aroma
e sabem a cal e a limão e a madeira verde
Não são sonhos mas é sempre a sede ou o amor
que rompe a pedra
ou ainda a solidão que busca a última estrela
Procuras sempre a luz e no sonho te acendes
e na luz germina a tua sombra
No fulgor das vogais ou já no seio da terra
encontras a alegria e o abandono das águas
Onde a chama canta paciente e alta
é o leve círculo o último e o primeiro
onde a luz desenha a inocência da nudez

Poema de António Ramos Rosa e ilustração de Carlos Carneiro retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, das Edições ASA. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves. Patrocínio da BIAL.

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