Palavras 163 – “Sétimo aniversário”

Nem sempre os aniversários do Estúdio Raposa foram comemorados, vá lá saber-se porquê. Alguns foram esquecidos, outros, quase que famosos, especialmente aquele em que se ouviu uma entrevista com o Pai Natal. Ou teria sido no Natal…bem, já não sei.
Pois, no dia 17 de Julho de 2005, três meses depois de aparecerem nos EUA, tinha de ser nos EUA, os áudio blogues, podcast ou podcasting, como quiserem, o Estúdio Raposa nasceu e estou em crer que foi o segundo em língua portuguesa. Falhou o primeiro lugar por dias.
Dezassete de Julho de 2005, 17 de Julho de 2012, sete anos, o que, em termos de Internet, já se pode considerar uma bela idade, durante os quais foi lida ou declamada uma quantidade de páginas de literatura e poesia, impossível de calcular.

Vou comemorar este 7º aniversário – atenção à simbologia do sete – em duas vertentes: confissões e gostos. Eu explico. Por confissões entendo meia dúzia de palavras que não têm sido ditas até agora. Como sabem, chegados a certa idade não se tem tanta necessidade de representar no palco da vida. Daí que, nesta idade, algumas das nossas facetas possam ser exibidas sem constrangimentos. Não, não vou chamar o padre. Vou, apenas responder a duas ou três questões importantes que me foram postas ao longo dos sete anos e às quais não respondi de peito aberto.
A outra vertente, a dos gostos, vai incluir a leitura de quatro textos, três poemas e um de prosa, que com a dificuldade que não podem imaginar, escolhi para reler, neste programa. Todos eles já estão disponíveis no Estúdio Raposa, mas vou lê-los de novo em homenagem aos autores.
Sairá melhor? Pior? Não sei. Será certamente, uma leitura diferente. Ouviremos dois poemas e um texto em prosa de Eugénio de Andrade e um poema de Fernando Pessoa.

Uma das questões que me foram colocadas e às quais não respondi, digamos, abertamente, foi de que forma escolho os textos que leio.
Então aqui vai:
Não tenho um critério para a escolha da poesia que leio e divulgo no Estúdio Raposa. Se há estratégia ela resume-se à estratégia do acaso.
Às vezes respondo a pedidos dos autores, outras às sugestões de amigos cujo bom gosto e competência reconheço, mas na maior parte das vezes, a escolha deve-se ao acaso, a um encontro não previsto com um livro, um jornal, um blogue, no Facebook…
Há poesia que não entendo. Tal como alguma pintura e música, entre outras artes. Às vezes, o não entender certa poesia, não é motivo para a não ler, mas prefiro perceber o que estou a dizer. Outras vezes percebo bem de mais e não gosto. Palavras como “peles que se tocam”, “suores partilhados”, “ávidas bocas”, “desejos insaciáveis”, “rios que correm para a foz”, “vento que sopra”, “bocas sorrindo”, “calor de verão”, “coração ardente”, “amo-te muito”, “só a ti enchergo”, “mãos que acariciam”, “sonos perdidos”, “auroras de luz”, “dedos atrevidos”, “suspiros profundos”, “seios altaneiros”, “afinal foi um sonho”, uff, chega – não me seduzem.
Alguns amigos, entendidos em poesia, acusam-me de dois pecados: leio, vezes de mais, poesia de baixa qualidade ou uso música de fundo que na opinião deles, “desvia” a atenção da palavra do poeta.
Quando leio poesia de autores já desaparecidos, não espero opiniões ou agradecimentos. Consta que, à nuvem onde residem, não chega a rede a que damos o nome de Internet. 
Quando leio poesia de autores vivos, alguns contactam-me com a tradicional “não tenho palavras…”, outros encontram algumas para manifestarem a sua satisfação e há os que “nem água vai”. Um obrigado não ficava mal.
Resumindo: na escolha dos textos que leio, não há critérios, há acasos.

E então, não tem colaboradores? – perguntam várias vezes.
Claro que tenho colaboradores. E os primeiros são aqueles que me escrevem a oferecer palavras de apreço pelo meu trabalho.
Não destaco entre estes, ninguém em particular porque vão do cidadão chinês que gostou de me ouvir apesar de, no início, não perceber que língua era aquela, só porque gostou da sua musicalidade, até ao desconhecido que diz apenas: obrigado pelo seu trabalho. Ainda uma referência a muitos outros colaboradores que usam o Estúdio Raposa para ensinarem os seus alunos a gostarem da sua língua.

Outra coisa são as três pessoa que tiveram grande importância no nascimento e desenvolvimento do Estúdio Raposa e que, talvez, eu nunca tenha destacado com o ênfase merecido.
Por ordem, no tempo, em primeiro lugar o João Rola, técnico de som, atualmente no estúdio Dizplay, que de há muito me vem construindo a estrutura técnica de que hoje disponho, conjunto de equipamentos que não receia meças com os estúdios profissionais. Já a utilização que faço das ferramentas de que disponho, é outra história. Pobre sonorizador e …pronto!
André Toscano o guru de informática que colocou on line a primeira edição do Estúdio Raposa e me apoiou nas seguintes, num tempo em que o podcasting estava a dar os primeiros passos.
Finalmente, Otília Martel, na altura conhecida como Menina Marota no apoio literário e procura dos novos valores surgidos na blogosfera. A sua ajuda só se reduziu quando o Estúdio Raposa deixou de divulgar os poetas que “ainda não tinham chegado às estrelas”, programa denominado “Lugar aos Outros” e que está suspenso há cerca de dois anos.
Muitos outros amigos me têm prestado uma ajuda preciosa e quase sempre sem cobrarem um tostão o que é de assinalar nos tempos que correm. Não os menciono porque são muitos e porque corria o risco de me esquecer de alguns. Talvez um dia, noutras circunstâncias venha a referi-los.

Mas, vamos à poesia.
Eugénio de Andrade e Fernando Pessoa. O primeiro porque é o poeta cuja escrita melhor se adapta á minha voz e também, porque foi um dos grandes poetas que tiveram a amabilidade de me ouvir e de apoiarem na declamação das suas palavras.
Começo com Fernando Pessoa porque o poema que vou ler, “O Menino de sua Mãe”, foi um dos primeiros que gravei e em condições técnicas muito diferentes das de agora. Vale por ser Fernando Pessoa e pela comparação técnica.
Depois, de Eugénio de Andrade, “Adeus”, divulgado em inúmeros vídeos, “Mãe”, um dos seus poemas mais conhecidos e “As mães”, um dos mais belos textos em língua portuguesa, na opinião de quem sabe, no caso Manuel Hermínio Monteiro.
Ouviremos estes quatro fascinantes e faiscantes diamantes da língua portuguesa, sem interrupção.

No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas trespassado

Duas de lado a lado

Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos

Alvo, louro, exangue,

Fita com olhar langue

e cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

“o menino da sua mãe”

Caiu-lhe da algibeira

A cigarreira breve.

Dera-lha a mãe.

Está inteira

E boa a cigarreira.

Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,

A brancura embaínhada

De um lenço…

Dera-lho a criada

Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há prece:
“Que volte cedo e bem!”

(Malhas que o Império tece!)

Jaz morto, e apodrece,

O menino da sua mãe.

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquina
s
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras

e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!

Era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos seio peixes verdes!

E eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.

Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.

Era no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor…,

já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

Não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

No mais fundo de ti.

eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou

o retrato adormecido

no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras

que há leitos onde o frio não se demora

e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo

são duras, mãe,

e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas

que apertava junto ao coração

no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,

talvez não enchesses as horas de pesadelos…

Mas tu esqueceste muita coisa!

Esqueceste que as minhas pernas cresceram,

que todo o meu corpo cresceu,

e até o meu coração

ficou enorme, mãe!

Olha, queres ouvir-me?:

às vezes ainda sou o menino

que adormeceu nos teus olhos…

ainda aperto contra o coração

rosas tão brancas

como as que tens na moldura..

ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa

no meio de um laranjal…

Mas – tu sabes! – a noite é enorme

e todo o meu corpo cresceu…

Eu saí da moldura,

dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.

Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo-te as rosas…

Boa noite. Eu vou com as aves!

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto – não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em roda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento.
Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na rua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz.

Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo?
Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar.* E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês – e que só ela, só ela vê.
Elas são as Mães, ignorantes da morte, mas certas da sua ressurreição.

Terminou o programa comemorativo do 7º aniversário do Estúdio Raposa. Nele ouvimos algumas palavras necessárias e poemas de Eugénio de Andrade e Fernando Pessoa pelos motivos já referidos. As minhas desculpas pelo tamanho do programa. Mandam as regras que deveria ser mais curto.
Mas, antes de terminar, uma palavra para o facto do Estúdio Raposa de há uns tempos a esta parte, ter passado a exibir um botão com o nome “Donativo”. Causou alguma estranheza, mas está lá não tanto à espera de contribuições financeiras, mas para lembrar que a ideia de que tudo o que está disponível na Internet deve ser de graça, é uma ideia, no mínimo…injusta e perigosa.
Obrigado por me ouvirem.

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