Nota biográfica >>

Rómulo Vasco da Gama de Carvalho (Lisboa, 24 de Novembro de 1906 - Lisboa, 19 de Fevereiro de 1997), português, foi um químico, professor de Físico-Química do ensino secundário no Liceu Pedro Nunes e Liceu Camões, pedagogo, investigador de História da ciência em Portugal, divulgador da ciência, e poeta sob o pseudónimo de António Gedeão. Pedra Filosofal e Lágrima de Preta são dois dos seus mais célebres poemas.

António Gedeão – “Poema do homem só”

09.01.2012

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece. 

Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros não se explicam:
arrefecem.

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de dentro se refracta,

nenhum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços, 
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas 
breves das carnes macias; 
dão-se os nervos, dá-se a vida, 
dá-se o sangue gota a gota, 
como uma braçada rota 
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concentro, 
este oferecer-se de dentro 
num esgotamento completo, 
Este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem, 
este dar-se, este entregar-se, 
descobrir-se e desflorar-se, 
é nosso, de mais ninguém.

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