Antero de Quental – “O palácio da ventura”
08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Antero Tarquínio de Quental (Ponta Delgada, 18 de abril de 1842 — Ponta Delgada, 11 de setembro de 1891) foi um escritor e poeta de Portugal que teve um papel importante no movimento da Geração de 70.
08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d’ouro com fragor
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Entre os filhos dum século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
Duma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza
Mas um dia abalou-se-me a firmeza,
Deu-me um rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para Deus minha alma triste!
Amortalhei na Fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento
Só me falta saber se Deus existe!
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos
E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos
Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,
Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
(surge et ambula)
Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.
Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno
Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções
Mas de guerra e são vozes de rebate!
Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Introdução de Helena Domingues a quem este poema foi dedicado pelo Poeta.
“Ao homem, ao poeta, ao mestre, ao amigo que diz e põe em prática “Para um amigo tenho sempre um relógio no fundo da algibeira”.
Quantas vezes, esse relógio foi posto à minha disposição.
E que belas palavras me dedicou neste MOMENTO”
Momento
Nenhum sopro de ausência. Só a paixão
suave
de um sol íntimo
no seu ninho verde e alaranjado.
Simplicidade de substância volátil,
desejo no seu silêncio,
luxo indolente, frescura de vértebras solares.
intimidade perfeita
e que demora numa cândida estância.
Tudo se tornou interno neste espaço interior,
na delícia extrema de um sossego de folhas.
O que era fugaz converteu-se em tempo enamorado
e em tranquila doçura de hábitos.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não me apetece dizer o que penso,
o que sinto, o que sou.
Não me apetece dizer-te
para onde vou, onde estou
o que senti.
Não me apetece manifestar meus afectos,
meus carinhos, pedir um beijo,
roçar teu corpo em mil desejos …
Não me apetece dizer
quantos orgasmos tive,
quando me possuías loucamente.
Não me apetece dizer o que sinto
quando o frenesim da tua boca
roça as minhas coxas
e me deixas louca de tesão.
Não me apetece!
E apetece-me tudo …
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Fecho os olhos e
ousadamente
os meus lábios
tecem o teu corpo
na volúpia da tua pele.
As minhas mãos percorrem
calmamente,
sem pressa,
em carícias incontidas
em desejos refreados
de mulher-fêmea que
se solta nos teus braços.
Um instante abrasador
de loucura.
Nossas peles colam-se
suadas,
frementes
num amor arrebatado
que já não conseguimos conter.
Chuva fina de amor em exaustão –
limites para além da nossa paixão –
eu me dou no teu corpo vivido
bebes-me
sugas-me
a alma dentro do sentimento
em lençóis vermelhos para lá da imaginação.
Sem medos nem pudor
nossos corpos conhecem o caminho …
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Como dizer-te
que povoas
o meu sono
ao cair da noite,
quando o dia termina,
despertando sensações
há muito escondidas em mim.
Como dizer-te
que em sonhos
as tuas mãos afagam meus cabelos
e percorrem-me ondas de emoção.
Como dizer-te
que a tua voz
me possui, entrando
no meu ouvido, como seta
directa ao coração.
Como dizer-te
das sensações primeiras
coração aberto
sorriso franco
em sangue quente
que me inunda
e dá alento.
Como dizer-te
que és maré-alta
em noite de lua cheia.
Como dizer-te…
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas,. creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede me a febre, olha me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe me a Santinha à cabeceira,
Compõe me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisasna e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
o melhor da minha vida
é estar aqui na muralha
com uma cana estendida
para o negrume do rio
as vigias de um navio
e as ondas de fina talha.
Quando chega sexta-feira
despeço-me da mulher
beijo a criança na esteira
ponho um capuz de oleado’
e venho para este lado
no barquinho da carreira.
Vejo as luzes de Belém
reflectidas no alcatrão
milagres que a noite tem
namorados que se beijam
altas árvores que bocejam
e o búzio que as casas são.
Ó minha colcha de estrelas
neste mar cor de basalto
minhas loiras caravelas
navios de especiarias
vogando em ondas macias
num céu tão puro e tão alto.
Saltam infantes barbudos
das naus que vêm de Almada
grumetes frades miúdos
com gengivas de escorbuto
donzelas de triste luto
dançam na luz irisada.
Salta el-rei com seus alões
e as aias da princesa
bobos jograis e anões
escrivães e cardeais
saltam santas de vitrais
e o cronista à sua mesa.
D. João chegou de Diu
D. Pedro de Timor vem
e eu na muralha do rio
a ver os dois enforcados
que os corvos comem em estrados
junto à Torre de Belém.
Convosco esqueço o emprego
quando chega sexta-feira
fico surdo fico cego
não ligo à renda de casa
parado a ouvir uma asa
que me voa à cabeceira.
Meu rio tão negro e tão fundo
bacia do mar da Palha
quero lá saber do mundo
quero lá saber do peixe
quem me ama que me deixe
ficar aqui na muralha.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Porque me beijou Perico,
porque me beijou o traidor.
Enquanto, mãe, eu dormia,
do que muito me arrependo,
senti a mão dele que ia
a camisola me erguendo;
se bem que agora me ria,
lembrá-lo me dá temor,
porque me beijou Perico,
porque me beijou o traidor.
Tão logo, como vos digo,
adormecida me viu,
pôs-se a apalpar, sob o umbigo,
o com que Deus me supriu;
quereis que, por meu castigo,
ainda lhe tenha amor?
Porque me beijou Perico,
porque me beijou o traidor.
E pouco depois lá vinha
a sua perna atrevida
introduzir-se entre as minhas
para me abrir a guarida;
juro que nunca na vida
padeci tamanha dor
porque me beijou Perico
porque me beijou o traidor
E quanto mais se agitava,
mais ficavam deleitosos,
dois mil gozos que me dava
como açúcares cremosos.
Deu-me beijos tão gostosos
que deles guardo o sabor,
porque me beijou Perico,
porque me beijou o traidor.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Consentiu certa dama na porfia
insistente do seu enamorado.
Julgou, por seu nariz, estar provado
que ele outro tanto alhures possuía.
Mas enganou-se nessa profecia:
bem pouco o dele, e o dela demasiado,
de sorte que ele, em sítio tão folgado,
não sabia se entrava ou se saía.
Disse-lhe a dama perturbada e triste:
“Vosso nariz pregou-me uma partida.”
Ao que ele respondeu com brejeirice:
“Que um defeito que tal não vos contriste;
se pelo nariz meu fostes traída,
o vosso, dama, só verdade disse.”
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
À beira d’água estando certo dia,
descuidada, uma dama primorosa,
de mirar seu inferno desejosa
e vendo-se ali só, sem companhia,
a saia ergueu, que vê-lo lhe impedia
e, feliz de ver coisa tão preciosa,
disse, com doce voz de quem se goza,
e que de dentro d’alma lhe saía:
“Por vós eu sou de tantos requestada,
por vós me dão colares e pulseira,
sapatos, saia e manto para o frio.
“Um beijo quero dar-vos” e baixada
para o dar escorregou na beira
e de cabeça despencou no rio.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Entre delgada e gorda é a figura
que a dama deve ter quando formosa;
e a meio da negrura e da brancura
se põe a cor de todas mais graciosa;
a meio da dureza e da brandura
faz-se a carne da fêmea mais gostosa.
Enfim há de ter tudo pelo meio,
pois o melhor de tudo está no meio.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Por terem argolas,
me pediu Teresa
sacar com presteza
meu cajado e bolas.
Tirei de bom grado
cajado e gabão.
Se me vissem, João,
jogar com cajado!
Libertou-se Inês
da roupa e do afogo,
começou o Jogo
de um e dois e três.
Dois pontos então fiz,
de enamorado.
Se me vissem,
João, jogar com cajado!
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.
Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.
A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?
Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.
(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de te querer tanto
Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim um castigo
Não te quero
Eu digo que não te quero
E de noite
De noite sonho contigo
Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer
Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Silêncio
Do silêncio faço um grito
E o corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco
De sombra a sombra
Há um céu tão recolhido
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido
Ó céu
Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais
Quando se vive atrás d’ ela
E eu
A quem o céu esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora
Solidão
Que nem mesmo essa é inteira
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura
Ai solidão
Quem fora escorpião
Ai solidão
E se mordera a cabeça
Adeus
Já fui p’r’além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada a uma parede
Adeus
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai como dói
A solidão quase loucura
08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha a saudade
Foi por vontade de Deus
Que estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vive de vida perdida
Quem lhe daria o condão
Que estranha forma de vida
Coração independente
Coração que não comando Vives perdido entre a gente Teimosamente sangrando Coração independente
Eu não te acompanho mais Pára deixa de bater
Se não sabes onde vais Porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Sei agora que o gato tem espírito,
um dom poético, uma expressão
reveladora, perante o fogo
é um brilho, sobre a água
uma forma de ser que subtilmente
usa os sentidos alerta para falar
o idioma principal, esse mistério
de prevalecer na crença
da invocação egípcia, uma presença
divina entre o silêncio, a vertigem
e a intensidade que emerge do espaço
e avassala as colunas, a impressiva
modulação dos arcos, os blocos
inclinados para dentro
para que a rapidez inclua nos testículos
uma parte devoradora e outra felina,
uma parte excessiva e outra ágil
nas sete mortes
que antecedem o admirável suicídio.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
A palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
Enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.
Quase todas as palavras
Precisam de ser limpas e acariciadas:
A palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é Preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
E do mau uso.
Muitas chegam doentes,
Outras simplesmente gastas, estafadas,
Dobradas pelo peso das coisas
Que trazem às costas.
A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papéis no ar
E é preciso fechá-la na arrecadação.
No fim de tudo voltam os olhos para a luz
E vão para longe, leves palavras voadoras
Sem nada que as prenda à terra,
Outra vez nascidas pela minha mão:
A palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.
A palavra obrigado agradece-me.
As outras, não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
E lavadas como seixos do rio:
A palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.
Vão à procura de quem as queira dizer,
De mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes um braço para apanhares
A palavra barco ou a palavra amor.
Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu gosto tanto, tanto ,tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.
Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.
Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim .
E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Álvares de Azevedo [Brasil,1831-1852.]
Ai, Jesus! Não vês que gemo,
Que desmaio de paixão
Pelos teus olhos azuis?
Que empalideço, que tremo,
Que me expira o coração?
Ai, Jesus!
Que por um olhar, donzela,
Eu poderia morrer
Dos teus olhos pela luz?
Que morte! Que morte bela!
Antes seria viver!
Ai, Jesus!
Que por um beijo perdido
Eu de gozo morreria
Em teus níveos seios nus?
Que no oceano dum gemido
Minh’ alma se
afogaria?
Ai, Jesus!
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia,as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co’as as grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam,me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia,as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas …
Vi, entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou,me essa luz funesta
De enfeitiçados amores …
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena, me caíram …
Nunca mais voei ao céu.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não foi por acaso que o meu sangue veio do sul
se cruzou com o meu sangue que veio do norte
não foi por acaso que o meu sangue que veio do oriente
encontrou o meu sangue que estava no ocidente
não foi por acaso nada do que hoje sou
desde há muitos séculos se sabia
que eu havia de ser aquele onde se juntariam todos os sangues da terra
e por isso me estimaram através da História
ansiosos por este meu resultado que até hoje foi sempre futuro.
E aqui me tendes hoje
incapaz de não amar a todos
um por um
que todos são meus e me pertencem
e por isso mesmo lhes não perdoo faltas de amor!
Mas porque maldição me não entendem
se eu os entendo a todos?
Eu sei, eu sei porquê:
Falta-lhes a eles terem, como eu, a correr-lhes pelas veias todos os sangues da terra.
A lei é clara: ninguém ama senão os seus.
E os meus são os de todos os sangues da terra
mas, ó maldição que pesa sobre mim,
cada um dos sangues da terra não me inclui entre os seus!
Não pertenço a nenhum sangue de raça
sou da raça de todos os sangues,
o meu amor não tem condições que excluam criaturas
não é amor natural
é amor buscado por boas mãos
desde o primeiro dia das boas mãos
através de tempos desiguais e de estilos que se contradizem
com os olhos no futuro melhor
e a esperança convicta de que se ainda hoje não são todos como eu
é questão apenas de a humanidade viver outra vez
tanto como viveu até hoje,
ou de mais ainda,
é questão de mais tempo,
ainda mais tempo,
é o tempo que há-de fazer
o que apenas se pode atrasar,
Entretanto deixai que se convençam
aquelas experiências que ainda não se tinham feito
e ainda tão longe do realismo da redondeza da terra!
Entretanto deixai que os números se espantem
de que a totalidade seja sempre ainda mais pr’além!
Deixai os números instruir-se da verdadeira capacidade do infinito
deixai que a ciência prossiga em sua loucura galopante
explicando todas as suas falhas com desculpas geniais
enquanto não esgota a sua especialidade,
a especialidade de nos meter a todos nela,
o que é um estilo
um estilo mais
e não o último
porque nenhum estilo é o último senão a liberdade!
Deixai que milhões se juntem para formar uma força
enquanto outros isolados se reconheçam o bastante para ter a liberdade,
deixai-os a ambos que nada os deterá,
eles são duas metamorfoses minhas
das quais mais conservo uma vaga memória.
Tal qual eles agora, eu já estive num e noutros antigamente,
quando na História
nos altos e baixos da minha ascendência
tomei também cada metamorfose minha
por minha definitiva realidade.
Deixai primeiro que o sangue deles
leve tanto tempo a dar a volta ao mundo
como o que levou o meu sangue ou a História do Homem.
Deixai que a natureza consinta ainda em parcialidades que o tempo consente temporariamente.
Deixai que o ardente desejo de totalidade, não possa ainda funciona
senão pelo meio ou pelas pontas.
Deixai que cada especialidade acabe de vez com a sua impertinência Deixai que os sangues mais intactos morram por isolamento
ou espalhem morte e terror com o verdadeiro medo a certeza de acabar.
Deixai que a Democracia e a Aristocracia
se cansem de não caber isoladas em parte nenhuma
já que não cabem juntas no nosso entendimento.
Deixai que Uma e Outra esgotem todos os quadriláteros onde a Democracia não cabe
e, por conseguinte, a Aristocracia não sai.
Deixai sumir-se até ao fim a confusão de Nobreza e Fidalguia com
Aristocracia.
Deixai que a Democracia repare que é um corpo sem cabeça
e que a Aristocracia uma cabeça sem corpo.
E é o corpo que há-de buscar a cabeça
ou a cabeça que há-de buscar o corpo?
Esperai que venha esta resposta.
Entretanto deixai que a liberdade também esteja à espera desta resposta.
Deixai que se expliquem por si coisas terrenas que nada mais ultrapassem do que o nosso entendimento
condenado a acreditar nos sentidos
mais do que em todo o trajecto desde o princípio do mundo até hoje.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p’lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ela vivia num palácio mouro…
Nas harpas, os seus dedos a espreitarem
como pajens curiosos, a afastarem
os cortinados todos fios de ouro.
As suas mãos, tão leves como as aves,
ora fugiam volitando, frias,
ora pousando, trêmulas, frias,
nas cordas, a sonharem melodias…
E os sons que ela tangia, aos seus ouvidos
chegavam, receosos de senti-la,
voltavam a não ser nunca tangidos.
É que ela, as suas mãos, as harpas de ouro,
não eram mais do que um supor ouvi-la
e o meu julgá-la num palácio mouro.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ela. Seus braços vencidos,
Naus em procura do mar,
Caminhos brancos, compridos,
Que conduzem ao luar.
Se ao meu pescoço os enrola
Eu julgo, com alegria,
Que trago ao pescoço o dia
Como se fosse uma gola.
O Luar, lâmpada acesa
Pra alumiar à princesa
Que em meus olhos causa alarde.
E o dia, longe, esquecido,
É um lençol estendido
Numa janela da Tarde.
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08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Os meus olhos são Índias de segredos.
É Portugal seu Corpo esguio e brando.
E as cinco quinas, seus compridos dedos
Em suas mãos, bandeiras tremulando.
Seus gestos lembram lanças. E ela passa…
Seu perfil de princesa faz lembrar
Batalhas que travaram ao luar,
Epopeia-marfim da minha Raça.
O seu olhar é tão doente e triste
Que me parece bem que não existe
Maior mistério do que o de prendê-lo.
Nos meus sentidos vive o seu sentir
E, às vezes, quando chora, põe-se a ouvir
Seu coração, velhinho do Restelo.
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