Nota biográfica

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8 de Dezembro de 1894 — Matosinhos, 8 de Dezembro de 1930), batizada como Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, é uma conhecida e popular poetisa portuguesa. A sua vida, de apenas trinta e seis anos, foi tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotismo, feminilidade e panteísmo.

“Os meus versos” poema de Florbela Espanca.

22.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente..

Rasgas os meus versos… Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…

In: “A Mensageira das Violetas”

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“Elegia”, poema de Alberto Pimenta.

21.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou em cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja

Alberto Pimenta, in ‘Ascensão de Dez Gostos à Boca’

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“Orgulho” de Fernanda de Castro.

20.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nada quero da vida ambicionada
por quantos me rodeiam nesta vida
Nem riqueza, nem glória desmedida
Perguntam-me o que tenho: estou cansada.

Vencida de cabeça levantada,
orgulho sem limites de vencida.
Eu sou bem criada, a bem nascida,
a que deu tudo e nunca pediu nada.

Nada espero da vida nem da morte.
Vergada ao peso de uma alma forte,
cá vou calando angústias e cansaços,

mas que longos, às vezes, são os dias
e como pesam duas mãos vazias
e que desertos cabem nos meus braços!

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“Flor Preservada”, poema de Miguel Torga.

19.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Colho, maravilhado,
A flor do teu sorriso;
E tudo à minha volta
Se transfigura:
O céu é um mar azul onde navegam aves;
E as montanhas, suaves
Ondulações
Do grande berço maternal do mundo.
Perturbado,
Confundo
As sensações;
E apenas sei que a vara de condão
É o sol de pétalas que me aquece a mão.
Filha:
Os poetas são loucos.
E poucos
Acreditam
Que a loucura
É um dom do eterno em cada criatura.
Mas neste testemunho comovido,
Neste poema erguido
Sobre a campa das horas
Como um facho de luz inconformada,
Terás, intacta, pela vida fora
A rosa da inocência que és agora.

Diário VIII

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(Lágrimas, não), poema de Mário Castrim.

15.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Lágrimas, não. Lágrimas, não. A sério.
Enfim, não digo que. É natural.
Mas pronto. Adeus, prazer em conhecer-vos.
Filhos, sejamos práticos, sadios.
Nada de flores. Rigorosamente.
Nem as velas, está bem? Se as acenderem,
sou homem para me levantar e vir
soprá-las, e cantar os “parabéns”.
Não falem baixo : é tarde para segredos.
Conversem, mas de modo que eu também
oiça, e melhor a grande noite passe.
Peço pouco na hora desprendida :
fique eu em vós apenas como se
tudo não fosse mais que um sonho bom.

8/ 10/2002

(Poema escrito para os filhos 8 dias antes de falecer. Publicado no Facebook
por Alice Vieira viúva do poeta há 18 anos.)

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“Poeta”, poema de Joaquim Namorado

14.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

A poesia é uma máquina
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..

Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.

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“O Eterno Feminino” poema de João Penha.

13.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ninguém vive sem amor,
Neste mundo sub-lunar.
Cada pomba tem seu par,
Cada zagala um pastor.

O doirado pica-flor
Ama a rosa-de-toucar;
Enfim, na terra e no mar,
É Ele o rei, o senhor.

Pois que amar é lei sem metas,
Amemos, cantando aos ventos
As nossas musas dilectas.

Até os próprios jumentos
Têm, como nós os poetas,
Burras dos seus pensamentos.

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“Sobre os poemas”, de Egito Gonçalves.

12.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há poetas que constroem o mundo nos cafés,
outros que o fazem no claro-escuro
entre as prisões e os intervalos.

Há poetas que aguardam cartas de apresentação
nem eles sabem para onde:
para a vida que falhou?, para a manteiga
que lhes foi negada?

Mas todos têm um sonho, todos
se esforçam por valer o pão que amassam
— lançam seu delicado peso na balança.

Eles sabem, esses poetas,
que nada é eterno e imutável.

2
Tal a “Cadeia de Santo Onofre:
Copie o texto: envie a cinco amigos”…
há poetas que se multiplicam, fendem
a vaga limite, impedem o suicídio,
explicam a vida, argamassam
dedicação e raiva.

Girassóis, rodam sobre si mesmos,
indicam o ponto onde a luz se abre.


3
Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
uma canção à cidade, martela
os que dormem alheios, move-se
silenciosamente ao jeito das estátuas.


Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
rosto impreciso solidificando breve;
ténue tinta azul no papel claro …

Os poetas têm
como os peles-vermelhas do cinema
o seu fumo e os seus cobertores.

4
Há poetas que renegam cartas
de apresentação para o arrivismo;
recusam a mão ao salário da trampa;
não enfeixam o nome e a desonra
nos telegramas do medo.

Enquanto bebem o café um histrião noturno
arenga; executa o seu número; recebe
por nova pirueta uma ajuda de custo.

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“Poema lido pelo poeta em Nápoles” de Casimiro de Brito.

11.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ama-me, diz ela, crucifica-me
de amor. No chão da cama a crucifico.
Deito-a de costas, abro-lhe os braços
e prego-a até eu próprio desfalecer. Na boca
a prego, nas mãos a prego e ela agita-se
e ela sorri e ela chora e as suas lágrimas
confundem-se com a sua saliva. E ela começa
a mastigar-me. E depois
viro o seu corpo e prego-a ao centro
e então é ela que, pregada,
me devora e concilia com a Via Láctea
que a ambos submerge. E depois
deita-se de bruços e pede-me
que a sacrifique um pouco mais, na sua flor
sombria, mas eu já não tenho forças e então
sou eu quem, humildemente, se deixa
crucificar.

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“Senhor da asma” de Al Berto.

08.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

deitado há muito tempo – o cigarro luzindo
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se percebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo de vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão.

mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível – aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e de sedução

mas nada é perfeito – nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido
e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados

ando há uma semana arrumando livros – comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma

por hoje é tudo

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“Vinham rosas na bruma florescida” de Fernando Echevarría.

07.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vinham rosas na bruma florescidas
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra da sua transparência.

Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.

E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
em bruma a brisa em que se aviva a rosa.

Fernando Echevarría, in “Poesia 1956-1979”

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“Amor à vida” de Fernando Echevarría.

06.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Entras como um punhal
até à minha vida.
Rasgas de estrelas e de sal
a carne da ferida.

Instala-te nas minas.
Dinamita e devora.
Porque quem assassinas
é um monstro de lágrimas que adora.

Dá-me um beijo ou a morte.
Anda. Avança.
Deixa lá a esperança
para quem a suporte.

Mas o mar e os montes…
isso, sim.
Não te amedrontes.
Atira-os sobre mim.

Atira-os de espada.
Porque ficas vencida
ou desta minha vida
não fica nada.

Mar e montes teus beijos, meu amor,
sobre os meus férreos dentes.
Mar e montes esperados com terror
de que te ausentes.

Mar e montes teus beijos, meu amor!…

Fernando Echevarría, in “Poesia 1956-1979”

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“Amar” de Carlos Drummond de Andrade.

05.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer, amar e malamar,

amar, desamar, amar?

sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal,

senão rodar também, e amar?

amar o que o mar traz à praia,

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,

e o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o cru,

um vaso sem flor, um chão de ferro,

e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e

uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura
medrosa,

paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,

e na secura nossa amar a água implícita,

e o beijo tácito, e a sede infinita.

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“Eu” de Florbela Espanca.

04.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca!-
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

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“Despedida” de Cecília Meireles.

01.10.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Por mim, e por vós, e por mais aquilo

que está onde as outras coisas nunca estão,

deixo o mar bravo e o céu tranquilo:

quero solidão.



Meu caminho é sem marcos nem paisagens.

E como o conheces? – me perguntarão.

– Por não ter palavras, por não ter imagens.

Nenhum inimigo e nenhum irmão.



Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.

Viajo sozinha com o meu coração.

Não ando perdida, mas desencontrada.

Levo o meu rumo na minha mão.



A memória voou da minha fronte.

Voou meu amor, minha imaginação…

Talvez eu morra antes do horizonte.

Memória, amor e o resto onde estarão?



Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.

(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!

Estandarte triste de uma estranha guerra…)



Quero solidão.

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“As pulgas sonham…” de Eduardo Galeano.

30.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

As pulgas sonham em comprar um cão, e os
ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia
mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas
a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem
amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do
céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a
chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou
se levantem com o pé direito, ou comecem o ano
mudando de vassoura.



Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.

Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo
a vida, fodidos e mal pagos:

Que não são embora sejam.

Que não falam idiomas, falam dialetos.

Que não praticam religiões, praticam superstições.

Que não fazem arte, fazem artesanato.

Que não são seres humanos, são recursos humanos.

Que não tem cultura, têm folclore.

Que não têm cara, têm braços.

Que não têm nome, têm número.

Que não aparecem na história universal, aparecem
nas páginas policiais da imprensa local.

Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

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“Soneto do Cativo” de David Mourão-Ferreira.

29.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

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“O veneno” de Cruzeiro Seixas.

28.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

O veneno existe ao meu lado
diz-me que é feliz
e subitamente tira a mascarilha.
Canta na sua voz rouca
o barroco ou a essência de um cometa
de infinitas mutações.
Palavras incandescentes
que deixo à guarda dos teus silêncios
logo ali lançam raízes
e na primavera
florescem em mil bocas sequiosas.
Sete óvulos
passaram por este leito
tinto de sangue
e de vinho.
Mas quando a noite por fim me visita
vem exausta.
Então olho-te como a luz me olha
como uma ininterrupta jogada com o tinteiro seco
como o momento preciso
em que o espelho encontra a árvore,
perdida no labirinto.

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“Idílio” de Antero de Quental.

27.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos de um fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou vendo o mar, das ermas cumeadas,
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longe no horizonte amontoadas;

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão, e empalideces…

O vento e o mar murmuram orações
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.

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“O que uma criança tem de gramar” de Bertolt Brecht.

24.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os olhos de Deus vêem todas as vias
Faz as tuas economias para o pior dos dias
O mandrião nada de bom deixa em herança
Muito ler os olhos cansa
Carregar carvão desenvolve a musculatura
O belo tempo da infância que tão pouco dura
Não te rias dos enfermos
Com os adultos não se discute e têm-se termos
Quando à mesa te fores sentar nunca te sirvas
em primeiro lugar
Passear ao domingo é muito salutar
Um velho, respeito merece
Não é com bombons que um menino cresce
Mais são do que as batatas não há nada
Criança educada deve saber estar calada.

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“Poema melancólico a não sei que mulher” de Miguel Torga.

23.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão…

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“O amor é uma companhia”, poema de Alberto Caeiro.

22.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais
depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de
ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está
comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as
árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que
sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol
com a cara dela no meio.

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(Sem título) Fernando Pessoa

21.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os críticos podem dizer que determinado
poema, longamente ritmado, não quer, afinal,
dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que
o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele
mesmo, passa. Temos pois que conservar o
dia bom em memória florida e prolixa, e assim
constelar de novas flores ou de novos astros
os campos ou os céus da exterioridade vazia e
passageira.

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“Soneto” de António Gedeão.

20.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.

Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
não pode ser Amor com tal virtude.

Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a expressão maior do meu anseio.

E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde.

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“Acusam-me de Mágoa e Desalento” poema de Carlos de Oliveira

17.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira, in ‘Mãe Pobre’

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“Poema (sem título) de Egito Gonçalves.

16.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Recebo-te em cada manhã com o mesmo espanto, deixo-me

banhar por essas folhas dobradas onde me entregas a

serenidade e a alegria.

Decoro a lenta sedimentação do teu passado, dores 

fos­silizadas, estrato acumulado em anos de que estou
ausente,

caminhos sem aberturas.

Outros em que me reconheço nos marcos que limitam 

a paisagem, nos rápidos sorrisos que os olhos velavam,

na mudez de interrogações não formuladas.

Leira onde se expõem momentos fugidios hoje
inflorescentes, 

grão intacto onde a inocência se mantinha à espera 

do solo.

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“Relatório em forma fechada” de Gastão Cruz.

15.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os estragos da noite foram vastos,
inversos ao pulsar da primavera:
há tempo em que se luta pelos gastos
rastos da vida e o tempo novo gera
desilusão somente, esse viscoso
correr da insónia como se já água
as lágrimas não fossem e no fosso
há pouco aberto qualquer outra água
de natureza opaca suspendesse
a sua interminável queda; voltas
por fim à noite espessa que já tece
a madrugada com as linhas soltas
da minha vida, versos que transformam
em realidade as sílabas que os formam


– Gastão Cruz, em “A moeda do tempo”.
Lisboa: Assírio & Alvim, 2006.

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“Vinha dizer adeus” de Rosa Lobato Faria.

14.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vinha dizer adeus, mas reparei
Que na faia do pátio era Setembro
Vinha dizer adeus, mas encontrei
Um livro na cadeira do alpendre

Vinha dizer adeus, mas as maçãs
Estavam no forno a assar e esse cheiro
Fez-me parar na porta das manhãs
A relembrar o nosso amor inteiro

Vinha dizer adeus, mas o teu cão
Veio lamber-me os dedos hesitantes
Vinha dizer adeus, mas vi no chão
A manta, ao pé do lume, como dantes

Vinha dizer adeus, mas senti fome
Ao ver a mesa posta para dois
Dálias e o guardanapo com o meu nome
Sem ter havido antes nem depois

Vinha dizer adeus, mas que surpresa
Apassionata… o último andamento
Como se tu tivesses a certeza
Que eu ia chegar nesse momento

Vinha dizer adeus, mas nesse olhar
Vi tanta solidão, tantos abraços
Tantas amendoeiras ao luar
Que me escondi, chorando nos teus braços

Vinha dizer que já não estou contigo
Que este amor singular já não é nosso
Vinha dizer adeus, mas já não digo
Vinha dizer adeus, mas já não posso!

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“De Amor nada Mais Resta que um Outubro” de Natália Correia

13.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia, in “Poesia Completa”

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“Gozo e Dor” de Almeida Garrett.

11.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se estou contente, querida,

Com esta imensa ternura

De que me enche o teu amor?

— Não, ai, não! Falta-me a vida, 

Sucumbe-me a alma à ventura:

O excesso de gozo é dor.
Dói-me a alma, sim, e a tristeza 

Vaga, inerte e sem motivo,

No coração me poisou.

Não sei se morro ou se vivo, 

Porque a vida me parou.
É que não há ser bastante

Para este gozar sem fim 

Que me inunda o coração. 

Tremo dele, e delirante 

Sinto que se exaure em mim

Ou a vida ou a razão.

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