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	<title>Estúdio Raposa</title>
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	<itunes:author>Luis Gaspar</itunes:author>
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	<managingEditor>estudioraposa@gmail.com (Luis Gaspar)</managingEditor>
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		<title>Estúdio Raposa</title>
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		<title>&#8220;A Mulher que criou a Terra&#8221;</title>
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		<pubDate>Wed, 16 May 2012 17:17:35 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[América do Norte &#8211; Iroqueses (Mito da criação) No início não existia terra para se viver, mas lá em cima, no grande azul, habitava uma mulher sonhadora. Uma noite sonhou com uma árvore coberta de rebentos brancos, que iluminava o céu quando as suas flores se abriam, mas que trazia uma terrível escuridão quando elas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>América do Norte &#8211; Iroqueses<br />
(Mito da criação)<br />
</em><br />
No início não existia terra para se viver, mas lá em cima, no grande azul, habitava uma mulher sonhadora. Uma noite sonhou com uma árvore coberta de rebentos brancos, que iluminava o céu quando as suas flores se abriam, mas que trazia uma terrível escuridão quando elas se voltavam a fechar. O sonho assustou-a, de modo que foi ter com os sábios homens velhos que viviam com ela, na sua aldeia no céu, e contou-lhes.<br />
«Puxem esta árvore mais para cima», implorou-lhes, mas eles não entendiam. Tudo o que faziam era escavar à volta das raízes, tentando arranjar espaço para haver mais luz. Então a árvore caiu no buraco que eles fizeram e desapareceu. Depois disso, deixou de haver luz, apenas escuridão.<br />
Os homens velhos começaram a ter medo das mulheres e dos seus sonhos. Era dela a culpa da luz se ter ido para sempre.<br />
Então puxaram-na até ao buraco e empurraram-na. Sentiu-se a cair, para o fundo, em direcção ao grande vazio. Debaixo dela não existia nada para além de uma terrível quantidade de água. Esta estranha mulher sonhadora do grande azul, certamente teria ficado desfeita em mil bocados, não fosse um peixe-águia que veio em seu socorro. As suas penas formaram uma almofada que permitiu à mulher uma aterragem suave por cima das ondas.<br />
Entretanto, o peixe-águia não conseguia sozinho mantê-la. Ele precisava de ajuda. Chamou pelas criaturas das profundidades. «Temos que encontrar alguma coisa sólida onde esta mulher possa descansar», disse ansiosamente. Só que não existia nenhum pedaço sólido, apenas as águas tormentosas e sem fim.<br />
Um mergulhão desceu na água, para baixo, até ao fundo do mar e trouxe de lá um pouco de lama no seu bico. Encontrou uma tartaruga, espalhou a lama no seu casco e mergulhou outra vez para trazer mais lama.<br />
Então os patos juntaram-se-lhe. Eles gostavam de se sujar com lama e portanto ajudaram a trazer mais alguma nos seus bicos, espalhando-a por cima da tartaruga. Os castores também ajudaram &#8211; eles eram grandes construtores &#8211; e trabalharam muito, tornando a carapaça da tartaruga cada vez maior.<br />
Agora toda a gente estava muito ocupada e entusiasmada. Este mundo que eles estavam a construir começava a ficar enorme! Os pássaros e os animais apressavam-se, construindo países, continentes, até que por fim tinham construído toda a terra. Durante todo esse tempo, a mulher do céu esteve sempre calmamente sentada nas costas da tartaruga.<br />
Ela ainda aguenta a terra até hoje.</p>
<p><em>Trad.: Vasco David</em></p>
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		<title>&#8220;As Mulheres dos Astros&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 15 May 2012 20:53:42 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Canadá &#8211; Povo Snuqualmi Quando a terra era ainda jovem e com poucas plantas, não existia nem sol nem lua: reinava um claro-escuro eterno, e os homens e animais falavam a mesma língua. Duas mulheres, ocupadas a extrair do solo raízes comestíveis, discutiram certa vez para decidir se era melhor casar com pescadores ou com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Canadá &#8211; Povo Snuqualmi</em></p>
<p>Quando a terra era ainda jovem e com poucas plantas, não existia nem sol nem lua: reinava um claro-escuro eterno, e os homens e animais falavam a mesma língua. Duas mulheres, ocupadas a extrair do solo raízes comestíveis, discutiram certa vez para decidir se era melhor casar com pescadores ou com caçadores, e se as raízes que colhiam ficariam mais apetitosas com carne ou com peixe. Finalmente, desejaram casar com estrelas. Assim fizeram; mudaram-se para o céu com os seus novos maridos; estes traziam-lhes muita caça.<br />
O mundo celeste assemelhava-se à terra, excepto no facto de o vento, a tempestade e a chuva serem aí desconhecidos. Os homens-estrelas permitiram às suas esposas continuar a extrair raízes com a condição de elas não cavarem muito fundo. A mais velha deu à luz um filho a que chamou Lua. Como as duas mulheres se aborreciam, decidiram violar a interdição e fizeram um buraco no manto celeste: o vento entrou no mundo celeste pelo orifício, e elas viram a sua terra natal em baixo.<br />
As mulheres confeccionaram uma longa escada de corda e fugiram. Quando chegaram à aldeia, os aldeãos saudaram-nas, e todos<br />
quiseram ir ver a escada celeste. Por brincadeira, fizeram um baloiço monumental que oscilava de uma montanha a outra, do norte ao sul, e do sul ao norte. Arrastando-se pelo chão, a extremidade da escada cavou as ravinas que existem hoje.<br />
No meio da festa, a mulher que tinha tido o filho confiou-o à guarda de um sapo fêmea velha e cega. Mas as mulheres-salmão raptaram-no. Quando os aldeãos se aperceberam do rapto, deixaram imediatamente a brincadeira do baloiço para procurarem a criança. O rato ficou sozinho junto ao baloiço; roeu a corda e o baloiço caiu, formando um grande rochedo, que ainda hoje existe no vale do rio Snuqualmi.<br />
Depois de diversas tentativas, o gaio-azul conseguiu voar sobre uma enorme muralha, cortada horizontalmente em dois, e cujas metades quase batiam uma na outra; esta muralha impedia o acesso à terra dos mortos, onde vivia a criança Lua, que entretanto tinha crescido. Lua prometeu regressar para junto dos seus; tornou-se célebre devido aos prodígios que realizava, tais como a criação de rios e de montanhas, a diferenciação dos animais, a invenção do fogo, a destruição dos monstros&#8230; Por fim, tornou-se na lua.</p>
<p><em>Trad.: Manuel João Ramos</em></p>
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		<title>A Visita ao Céu</title>
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		<pubDate>Mon, 14 May 2012 20:06:46 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Canadá &#8211; Povo Klallan Nos primeiros tempos, não havia na terra senão uma única mulher, que vivia completamente só. Fez um marido a partir de um bloco de resina; mas, como nessa altura o sol era muito mais quente que actualmente, o homem acabou por fundir-se. Por isso, os seus filhos odiavam o sol; um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Canadá &#8211; Povo Klallan</em></p>
<p>Nos primeiros tempos, não havia na terra senão uma única mulher, que vivia completamente só. Fez um marido a partir de um bloco de resina; mas, como nessa altura o sol era muito mais quente que actualmente, o homem acabou por fundir-se.<br />
Por isso, os seus filhos odiavam o sol; um deles atirou uma flecha que se cravou no céu, e depois atirou um grande número de flechas que se encravavam umas nas outras, e com as quais construiu uma grande escada, que ele e os seus irmãos subiram até chegarem ao mundo celeste, o qual tinha o aspecto de uma grande pradaria.<br />
Alguns gansos, que nessa altura ainda falavam, indicaram-lhes o caminho da morada do sol. Encontraram depois duas mulheres cegas. Um dos jovens roubou-lhes comida quando uma delas a estendia à outra. Perguntaram-lhes pela morada do sol; elas indicaram-lhes o caminho a seguir e deram-lhes um pequeno cesto contendo seis bagas silvestres.<br />
Os irmãos chegaram à morada do sol, que era um velho que amontoava madeira resinosa num enorme braseiro &#8211; tão ardente que os jovens julgaram morrer, e de onde emanava o calor intenso que reinava então na terra.<br />
Deram ao sol as seis bagas, que as comeu; estas multiplicaram-se no seu corpo de tal modo que o velho morreu. A violência do fogo começou a diminuir e, desde então, já não há tanto calor na terra.</p>
<p><em>Trad.: Manuel João Ramos</em></p>
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		<title>Almada Negreiros &#8211; &#8220;Manifesto anti-Dantas e por extenso&#8221;</title>
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		<pubDate>Sun, 13 May 2012 23:39:03 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Manifesto anti-Dantas e por extenso. Manifesto anti-Dantas]]></category>
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		<description><![CDATA[Este texto virulento do jovem Almada (que contava 23 anos) terá sido escrito entre Abril e Setembro de 1916, sendo, portanto, anterior à conferência de 1917, início oficial do movimento futurista em Portugal. Saiu este folheto de 8 páginas impresso em papel de embrulho, ao preço de 100 reis, todo grafado em maiúsculas e utilizando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Este texto virulento do jovem Almada (que contava 23 anos) terá sido escrito entre Abril e Setembro de 1916, sendo, portanto, anterior à conferência de 1917, início oficial do movimento futurista em Portugal.<br />
Saiu este folheto de 8 páginas impresso em papel de embrulho, ao preço de 100 reis, todo grafado em maiúsculas e utilizando aqui e além, para sublinhar a onomatopeia &#8211; PIM!-, uns ícones representando uma mão no gesto de apontar. Segundo se diz, terá esgotado nos primeiros dias, por obra do açambarcamento do próprio visado. Apesar disso, ou graças a isso, o escândalo rapidamente se propalou e a polémica causada teve uma grande intensidade. É que, no fundo, não é só a pessoa de Dantas que é atacada, mas toda uma geração de literatos, actores, escritores, jornalistas, etc, que ele personificava: &#8220;Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi&#8221;. Através da ironia e do sarcasmo, utilizando uma linguagem iconoclasta e insultuosa, abusando de exclamações, repetições e enumerações, Almada zurze o academismo instalado e os valores tradicionais que pretendia abalar.<br />
Em suma, trata-se de um ataque implacável ao edifício cultural e artístico vigente que impedia a entrada e frutificação das novas correntes estéticas em Portugal. É Almada a abrir caminho ao Futurismo e a si próprio. A declamação é Almada.<br />
</em><br />
Manifesto anti-Dantas e por extenso por José de Alamada-Negreiros, Poeta d’Orpheu, futurista e tudo!<br />
Todos os meus livros devem ser lido pelo menos duas vezes para os muito inteligentes e daqui para baixo é sempre a dobrar.<br />
Basta pum basta!!!<br />
Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d&#8217;indigentes, d&#8217;indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir a baixo de zero.<br />
Abaixo a geração!<br />
Morra o Dantas, morra! Pim!<br />
Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!<br />
Uma geração com um Dantas à proa é uma canoa em seco!<br />
O Dantas é um cigano!<br />
O Dantas é meio cigano!<br />
O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!<br />
O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!<br />
O Dantas é um habilidoso!<br />
O Dantas veste-se mal!<br />
O Dantas usa ceroulas de malha!<br />
O Dantas especula e inocula os concubinos!<br />
O Dantas é Dantas!<br />
O Dantas é Júlio!<br />
Morra o Dantas, morra! Pim!<br />
O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d&#8217;Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!<br />
E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!<br />
O Dantas é um ciganão!<br />
Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!<br />
Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!<br />
Morra o Dantas, morra! Pim!<br />
O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!<br />
O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair&#8230; Mas é preciso deitar dinheiro!<br />
O Dantas é um soneto dele-próprio!<br />
O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.<br />
O Dantas nu é horroroso!<br />
O Dantas cheira mal da boca!<br />
Morra o Dantas, morra! Pim!<br />
O Dantas é o escárnio da consciência!<br />
Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!<br />
O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!<br />
O Dantas é a meta da decadência mental!<br />
E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!<br />
E ainda há quem lhe estenda a mão!<br />
E quem lhe lave a roupa!<br />
E quem tenha dó do Dantas!<br />
E ainda há quem duvide de que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que não é inteligente, nem decente, nem zero!<br />
Vocês não sabem quem é a soror Mariana do Dantas? Eu vou-lhes contar:<br />
A princípio, por cartazes, entrevistas e outras preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se de soror Mariana Alcoforado a pseudo autora daquelas cartas francesas que dois ilustres senhores desta terra não descansaram enquanto não estragaram pra português, quando subiu o pano também não fui capaz de distinguir porque era noite muito escura e só depois de meio acto é que descobri que era de madrugada porque o bispo de Beja disse que tinha estado à espera do nascer do Sol!<br />
A Mariana vem descendo uma escada estreitíssima mas não vem só, traz também o Chamilly que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas uma voz muito conhecida aqui na Brasileira do Chiado. Pouco depois o bispo de Beja é que me disse que ele trazia calções vermelhos.<br />
A Mariana e o Chamilly estão sozinhos em cena, e às escuras, dando a entender perfeitamente que fizeram indecências no quarto. Depois o Chamilly, completamente satisfeito, despede-se e salta pela janela com grande mágoa da freira lacrimosa. E ainda hoje os turistas têm ocasião de observar as grades arrombadas da janela do quinto andar do Convento da Conceição de Beja na Rua do Touro, por onde se diz que fugiu o célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa.<br />
A Mariana que é histérica começa a chorar desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau de cabeleira soror Inês.<br />
Vêm descendo pla dita estreitíssima escada, várias Marianas, todas iguais e de candeias acesas, menos uma que usa óculos e bengala e ainda toda curvada prá frente o que quer dizer que é abadessa.<br />
E seria até uma excelente personificação das bruxas de Goya se quando falasse não tivesse aquela voz tão fresca e maviosa da Tia Felicidade da vizinha do lado. E reparando nos dois vultos interroga espaçadamente com cadência, austeridade e imensa falta de corda&#8230; Quem está aí?&#8230; E de candeias apagadas?<br />
- Foi o vento, dizem as pobres inocentes varadas de terror&#8230; E a abadessa que só é velha nos óculos, na bengala e em andar curvada prá frente manda tocar a sineta que é um dó d&#8217;alma o ouvi-la assim tão debilitada. Vão todas pró coro, mas eis que, de repente, batem no portão e sem se anunciar nem limpar-se da poeira, sobe a escada e entra plo salão um bispo de Beja que quando era novo fez brejeirices com a menina do chocolate.<br />
Agora completamente emendado revela à abadessa que sabe por cartas que há homens que vão às mulheres do convento e que ainda há pouco vira um de cavalos a saltar pla janela. A abadessa diz que efectivamente já há tempos que vinha dando pela falta de galinhas e tão inocentinha, coitada, que naqueles oitenta anos ainda não teve tempo pra descobrir a razão da humanidade estar dividida em homens e mulheres. Depois de sérios embaraços do bispo é que ela deu com o atrevimento e mandou chamar as duas freiras de há pouco com as candeias apagadas. Nesta altura esta peça policial toma uma pedaço d&#8217;interesse porque o bispo ora parece um polícia da investigação disfarçado em bispo, ora um bispo com a falta de delicadeza de um polícia d&#8217;investigação, e tão perspicaz que descobre em menos de meio minuto o que o povo já está farto de saber &#8211; que a Mariana dormiu com o Noel. O pior é que a Mariana foi à serra com as indiscrições do bispo e desata a berrar, a berrar como quem se estava marimbando pra tudo aquilo. Esteve mesmo muito perto de se estrear com um par de murros na coroa do bispo no que se mostrou de um atrevimento, de uma insolência e de uma decisão refilona que excedeu todas as expectativas.<br />
Ouve-se uma corneta tocar uma marcha de clarins e Mariana sentindo nas patas dos cavalos toda a alma do seu preferido foi qual pardalito engaiolado a correr até às grades da janela gritar desalmadamente plo seu Noel. Grita, assobia e rodopia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de costas com um acidente, do que já previamente tinha avisado o público e o pano também cai e o espectador também cai da paciência abaixo e desata numa destas pateadas tão enormes e tão monumentais que todos os jornais de Lisboa no dia seguinte foram unânimes naquele êxito teatral do Dantas.<br />
A única consolação que os espectadores decentes tiveram foi a certeza de que aquilo não era a soror Mariana Alcoforado mas sim uma merdariana-aldantascufurado que tinha cheliques e exageros sexuais.<br />
Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do &#8220;Século&#8221; a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade plos aniversários, e sabonetes em conta &#8220;Júlio Dantas&#8221; e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas&#8230; E limonadas Dantas- Magnésia.<br />
E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.<br />
E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.<br />
Mas julgais que nisto se resume a literatura portuguesa? Não Mil vezes não!<br />
Temos, além disto o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do Chianca.<br />
E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avózinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimos excelentíssimo senhor Mello Barreto!  Embaixador de Portugal em Madrid. E o frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecelidades de Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa Pintos hu hi e os burros de Cacilhas e os menos do Alfredo Guisado! E o raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Arte(s)! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!!<br />
E as convicções urgentes do homem Cristo Pai e as convicções catitas do homem Cristo Filho!&#8230;<br />
E os concertos do Blanch! E as estátuas ao leme, ao Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja arte em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Dantas!<br />
Morra o Dantas, morra! Pim!<br />
Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mas atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia &#8211; se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!<br />
Morra o Dantas, morra! Pim!<br />
José de Almada-Negreiros<br />
Poeta d’Orpheu<br />
Futurista e tudo!</p>
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		<title>&#8220;Origem das Estações e dos Orifícios&#8221;</title>
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		<pubDate>Sun, 13 May 2012 19:19:06 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Nova Guiné. Baruya No princípio, Sol e Lua confundiam-se com a Terra. Tudo era pardo e cinzento. Homens, espíritos, animais e plantas viviam juntos e falavam a mesma língua. Mas os homens não eram como hoje os conhecemos; o pénis do homem não tinha qualquer orifício e a vagina da mulher estava completamente fechada. Certa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Nova Guiné. Baruya</em></p>
<p>No princípio, Sol e Lua confundiam-se com a Terra. Tudo era pardo e cinzento. Homens, espíritos, animais e plantas viviam juntos e falavam a mesma língua. Mas os homens não eram como hoje os conhecemos; o pénis do homem não tinha qualquer orifício e a vagina da mulher estava completamente fechada.<br />
Certa vez, Sol e Lua decidiram afastar-se da Terra e tomarem o céu como lar. Olhando os homens lá do alto, Sol decidiu que havia alguma coisa a fazer pelo ser humano. Combinou então com Lua que, enquanto estivesse no céu, esta teria de descer à Terra. Quando Sol desejasse repousar, Lua tomaria o seu lugar e governaria os céus. Conseguiram assim alternar o dia e a noite, a chuva e o calor e pouco tardou para que criassem as estações. Na Terra, os animais separaram-se dos humanos para irem viver na floresta e com eles levaram os espíritos que, para sempre, se tornariam inimigos do homem. A língua comum desapareceu e não mais os homens comunicaram com os animais, excepto com os cães.<br />
Sempre observador e perspicaz, Sol apercebeu-se então que o homem e a mulher ainda se encontravam desprovidos de quaisquer orifícios: não poderiam multiplicar-se e construir uma sociedade suficientemente grande para que pudessem sobreviver sem a ajudados espíritos e dos animais. Lançou então uma pedra, «como a lua», sobre uma fogueira. A pedra explodiu e as lascas acabaram por perfurar o homem e a mulher que agora podiam copular e reproduzir-se. Os primeiros Baruya obedeceram assim à vontade de Sol, multiplicando-se e povoando a Terra. Ainda por perfurar, não tardou para que os cães começassem a dizer mal dos homens. Enfurecidos, os Baruya organizaram-se, perseguiram os cães e alvejaram-nos com flechas que acabaram por lhes perfurar o sexo. Desde então, os cães deixaram de falar e hoje apenas uivam à Lua.</p>
<p><em>Trad.: Manuel João Magalhães</em></p>
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		<title>&#8220;A Criação&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 12 May 2012 15:59:25 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[(América do Norte &#8211; Povo Diguenhos) Quando Tu-chai-pai criou o mundo, a terra era a mulher e o céu o homem. Um dia, tomado pelo desejo, o céu desceu sobre a terra e não mais quis voltar. Sentados junto ao lago que era a terra, Tu-chai-pai e o seu irmão sentiam-se a sufocar com o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>(América do Norte &#8211; Povo Diguenhos)</em></p>
<p>Quando Tu-chai-pai criou o mundo, a terra era a mulher e o céu o homem. Um dia, tomado pelo desejo, o céu desceu sobre a terra e não mais quis voltar. Sentados junto ao lago que era a terra, Tu-chai-pai e o seu irmão sentiam-se a sufocar com o peso do céu que lhes caía sobre a cabeça. «E agora, o que fazemos?», perguntou o demiurgo. «Não faço ideia», respondeu de imediato o irmão. «Vamos dar um passeio», sugeriu Tu-chai-pai.<br />
Passearam por uns momentos e sentaram-se a descansar. «E agora, que fazemos nós?», perguntou de novo o Criador. O seu irmão voltou a responder que não sabia. Então Tu-chai-pai sussurrou a palavra mágica we-hicht por três vezes, pegou em tabaco, enrolou-o e fumou três vezes. A cada trago de fumo, o céu erguia-se sobre as suas cabeças. O irmão também fumou e o céu distanciava-se cada vez mais. Quando fumaram juntos, mandaram o céu para tão longe que este tomou a forma côncava que hoje se lhe conhece.<br />
De seguida, os irmãos resolveram colocar Norte, Sul, Levante e Poente nos seus respectivos pousos e desenharam sobre a terra duas linhas perpendiculares. Tu-chai-pai explicou então ao seu irmão que viriam de cada um destes pontos três ou quatro homens e disse-lhe que era hora de partir e criar rios, vales e montanhas. «Mas porque te dás tu a todo este trabalho?», perguntou o irmão ao Criador. Tu-chai-pai explicou então que, quando chegassem os homens, estes procurariam em vão comida e água bebível; o oceano estava já feito, mas faltavam ainda os rios. Foi depois fazer as florestas e o irmão voltou a perguntar: «Mas que fazes tu, grande tolo?» Infinitamente paciente, Tu-chai-pai respondeu que não tardaria que os homens sentissem frio e que era necessário criar algo que os pudesse aquecer.<br />
Tu-chai-pai voltou a perguntar: «E o que fazemos agora?» O irmão voltou a responder que não sabia e que estava já a ficar cansado da Criação. O demiurgo disse-lhe então que era já hora de fazerem o homem. Tomou um pouco de lama nas mãos e fez os primeiros homens, os índios. De seguida, fez os Mexicanos. Foi fácil fazer o homem mas, quando chegou à altura de desenhar a mulher, Tu-chai-pai achou que deveria empenhar-se um pouco mais; demorou mais tempo a moldar a mulher do que a erguer os vales e as montanhas do mundo. Ordenou aos homens que viajassem para o Levante, de onde nascia, pela primeira vez, o sol. Os índios procuraram luz e, quando a encontraram, ficaram tão felizes e emocionados com a sua beleza que prometeram prestar culto a Tu-chai-pai por tão maravilhosa criação. O demiurgo avisou o seu irmão de que o sol não poderia ficar só e que era já hora de criar a lua. Esta, avisou, deveria partilhar o céu com o sol mas morreria regularmente. Quando a lua começasse a decrescer e a decrescer, os homens deveriam fazer corridas para tentar manter a lua viva. Os homens cumpriram a sua parte e os irmãos criadores, cansados de tanto trabalho, não voltaram a criar nada. Hoje, mais não fazem do que fumar tabaco enquanto se divertem com as mesquinhices do homem.</p>
<p><em>Trad.: Manuel João Magalhãe</em>s<br />
<em>(As &#8220;gralhas&#8221; na leitura não foram corrigidas)</em></p>
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		<title>História 168 &#8211; &#8220;A Raposa e o Camponês&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 10 May 2012 20:49:02 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Algum tempo depois a Sra Raposa viu-se nos mesmos trabalhos: uma matilha de cães de caça perseguia-a e desta vez, nem uma moita de espinheiro lhe aparecia para se esconder. Sentia-se já a cair de cansada por ter corrido tanto, quando teve a sorte de ver um camponês à porta de sua casa: Bom homem! [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Algum tempo depois a Sra Raposa viu-se nos mesmos trabalhos: uma matilha de cães de caça perseguia-a e desta vez, nem uma moita de espinheiro lhe aparecia para se esconder. Sentia-se já a cair de cansada por ter corrido tanto, quando teve a sorte de ver um camponês à porta de sua casa:<br />
Bom homem! &#8211; pediu ela aflita &#8211; tenha pena de mim, que venho a correr há tanto tempo, perseguida por uns cães. Deixe-me esconder no seu celeiro!<br />
Esconde-te à vontade, Raposa! &#8211; consentiu o camponês.<br />
A Raposa entrou logo no celeiro e ocultou-se bem, debaixo de uns sacos, atrás dos montes de trigo. Os cães vieram a ladrar e atrás deles os caçadores, que perguntaram ao dono do celeiro:<br />
- Não viu passar por aqui a Raposa?<br />
Ouvindo a pergunta, a Sra. Raposa pôs-se a espreitar para ver o que eles faziam. E ouviu o Camponês responder: &#8211; Ná, não senhor, não vi passar nenhuma raposa por aqui.<br />
Mas ao mesmo tempo indicava o celeiro com a mão, fazendo um gesto que significava:<br />
- Está ali dentro do celeiro. Se quiserem vão lá apanhá-la.<br />
Os caçadores é que não entenderam ou não repararam no gesto e seguiram para diante. A Raposa, então, saiu do seu esconderijo e pôs-se a andar a caminho da mata.<br />
- Pst! Pst! ó Sra. Raposa — chamou o Camponês.- Que uso é esse de receber um favor tão grande como o que eu lhe fiz agora e pôr-se a andar sem ao menos dizer obrigada?!<br />
A Raposa pôs-se a rir.<br />
- Boa ideia, amigo! Tenho a agradecer-lhe as palavras que disse, é certo, mas como nada lhe devo pelo gesto que fez, estamos pagos!<br />
E a Raposa, espertalhona, lá foi a correr para a mata, onde se escondeu.</p>
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		<title>Daniel D. Dias &#8211; &#8220;Glória ao mundo digital&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 10 May 2012 17:24:50 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Estou aqui, sentado, nesta cave obscura, no centro do mundo Lá fora há cheias, nevões, secas, corrupções, golpes de estado, burlas, revoluções mas nada se agita no meu corpo, nada perturba a minha mente Existirá mesmo alguma coisa lá fora? Estou aqui sentado em pleno mundo digital e posso decidir o que existe o que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou aqui,<br />
sentado,<br />
nesta cave obscura,<br />
no centro do mundo<br />
Lá fora<br />
há cheias, nevões, secas, corrupções, golpes de estado, burlas, revoluções<br />
mas nada se agita no meu corpo,<br />
nada perturba a minha mente<br />
Existirá mesmo alguma coisa lá fora?<br />
Estou aqui sentado em pleno mundo digital<br />
e posso decidir<br />
o que existe<br />
o que é verdadeiro<br />
o que é importante<br />
Agora<br />
neste fascinante mundo<br />
fratalizado, bip-mapizado, pixelizado<br />
posso apagar ou guardar<br />
num qualquer limbo impoluto e reservado,<br />
sem risco de castigo ou penitencia<br />
tudo o que quero&#8230;<br />
Até o inferno, agora, está ao alcance dum clique<br />
Ah como é fácil comunicar<br />
reunir todos os amigos numa só página da internet<br />
confraternizar com eles<br />
sem ter de lhes abrir a porta<br />
ou oferecer-lhes um copo de vinho<br />
O que não é digital pode ignorar-se:<br />
a realidade tornou-se matéria negra<br />
que nem o scâner e os telescópios podem detetar<br />
Salvé!<br />
Bem hajas abençoada tecnologia!<br />
Finalmente posso ser um deus verdadeiro<br />
e abandonar a realidade analógica do meu corpo<br />
ao cuidado desses senhores de bata branca<br />
que na ponta dos seus dedos fininhos<br />
reduzem tudo a nomes estranhos<br />
(Sei que eles tudo farão para que o meu traseiro sensível<br />
não fique dormente de estar sentado.<br />
Sei que se for necessário,<br />
digitalizarão as minhas nádegas<br />
para que se tornem virtuais e não me incomodem…)<br />
Salvé!<br />
Bem hajas, mundo digital!<br />
Finalmente posso tratar a minha vida desfocada e triste<br />
Num qualquer programa de Photoshop<br />
E melhorá-la, dar-lhe brilho, acrescentar-lhe fantasia<br />
O meu passado<br />
revisto e melhorado<br />
ficará depositado para memória futura<br />
para que todos possam consultá-lo<br />
e prestar-me a homenagem há muito devida<br />
Salvé!<br />
Posso finalmente correr mundo<br />
Percorrer as rotas de migração das aves e das baleias<br />
Viajar no espaço cósmico ou no tempo<br />
e tudo isso sem asas nem motores<br />
e posso entrar onde quiser,<br />
sem nada pagar, sem correr riscos<br />
nos templos da arte e da ciência,<br />
nos teatros de guerra e fóruns mundiais<br />
nos hospícios e lupanares,<br />
nos lugares mais sagrados do bem e do mal…<br />
Agora<br />
posso ser benemérito sem limites,<br />
e corajoso e intrépido como sempre sonhei<br />
Posso proteger as espécies ameaçadas<br />
combater a desertificação, o trabalho infantil<br />
lutar contra ditaduras, a exploração capitalista e a violência doméstica<br />
fazer companhia a doentes, velhos e sem abrigo…<br />
Posso contribuir até para derrubar ditaduras…<br />
E, tudo isto, sem sair daqui<br />
Sentado,<br />
nesta cave obscura<br />
no centro do mundo!<br />
(Só há uma coisa que me está interdito fazer<br />
deixar de pagar a electricidade…) </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Daniel D. Dias &#8211; &#8220;Eu sou tu&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 10 May 2012 17:19:49 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Palavras de Ouro]]></category>
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		<description><![CDATA[Eu sou tu, desconchavado mas sou Talvez não te pareça, porque agora uso óculos de aro fino Mas acredita, sou tu Tenho estado aqui parado À espera que eu próprio me reconheça Mas os olhos e as pernas que se atravessam no caminho Não me dão um minuto de concentração Sei que sou tu Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sou tu,<br />
desconchavado mas sou<br />
Talvez não te pareça, porque agora uso óculos de aro fino<br />
Mas acredita, sou tu<br />
Tenho estado aqui parado<br />
À espera que eu próprio me reconheça<br />
Mas os olhos e as pernas que se atravessam no caminho<br />
Não me dão um minuto de concentração<br />
Sei que sou tu<br />
Não porque alguém me dissesse<br />
(Afinal sempre tive a genética do teu nariz, o pénis curvado<br />
A maçã de adão dorida da angústia)<br />
Mas porque não é matematicamente possível ser eu<br />
Porque não tenho arcaboiço para ser eu próprio<br />
Esta porra de viver a teogonia dos outros<br />
E cavalgar projetos herdados há tantas gerações<br />
Não é própria para quem está aqui de passagem<br />
O sideral espaço da minha mente está vazio<br />
E as minhas mãos estão crispadas<br />
de tanto agarrar essa solidão grotesca<br />
que o relojoeiro louco a quem chamam deus<br />
espalhou por aí </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Daniel D. Dias &#8211; &#8220;Marinheiro&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 10 May 2012 17:16:06 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Percorro a vida como um barco sem rumo Oiço o vento, as gaivotas e o marulhar das ondas e gosto da música que compõem E nunca tenho medo porque sinto o olhar do pai por perto, mesmo não estando lá Acosto em qualquer porto ignoto sem receio porque ganho coragem no regaço doce da minha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Percorro a vida como um barco sem rumo<br />
Oiço o vento, as gaivotas e o marulhar das ondas e gosto da música que compõem<br />
E nunca tenho medo porque sinto o olhar do pai por perto, mesmo não estando lá<br />
Acosto em qualquer porto ignoto sem receio<br />
porque ganho coragem no regaço doce da minha mãe água<br />
Estou só, mas a solidão não me aflige<br />
porque um canto de sereias amigas me acompanha<br />
E nem me importo de ficar triste porque gosto da minha tristeza que não é triste<br />
Sei que a minha viagem não terminará e não me aflige que seja eterna<br />
O que receio é nada ter que fazer ou parar de pensar,<br />
Ou que os golfinhos e os peixes voadores me abandonem </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Daniel Dias &#8211; &#8220;Os melhores poemas&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 10 May 2012 17:12:53 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Daniel Dias]]></category>
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		<category><![CDATA[Os melhores poemas]]></category>
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		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Os melhores poemas? Não cheguei a escrever Podia tê-lo feito, mas não fiz Alguns perdi Outros não cheguei a encontrar Que importância tem isso? Para que servem afinal os poemas mesmo quando são os melhores poemas? Vale a pena perder tempo com coisas óbvias? memorizar pensamentos que ganham asas? Decorar o canto das aves esquivas? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os melhores poemas?<br />
Não cheguei a escrever<br />
Podia tê-lo feito, mas não fiz<br />
Alguns perdi<br />
Outros não cheguei a encontrar<br />
Que importância tem isso?<br />
Para que servem afinal os poemas<br />
mesmo quando são os melhores poemas?<br />
Vale a pena perder tempo com coisas óbvias?<br />
memorizar pensamentos que ganham asas?<br />
Decorar o canto das aves esquivas?<br />
coleccionar as cores da natureza?<br />
Porque se insiste em acender velas<br />
tendo à mão a abundante luz do sol? </p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Cardenal Martinez &#8211; &#8220;Salmo do homem&#8230;&#8221;</title>
		<link>http://www.estudioraposa.com/index.php/03/05/2012/cardenal-martinez-salmo-do-homem/</link>
		<comments>http://www.estudioraposa.com/index.php/03/05/2012/cardenal-martinez-salmo-do-homem/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 03 May 2012 16:51:34 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Cardenal Martinez]]></category>
		<category><![CDATA[estudio raposa]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Luis Gaspar]]></category>
		<category><![CDATA[Palavras de Ouro]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Salmo do homem]]></category>

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		<description><![CDATA[Salmo do homem que vê a realidade e não se cala. Ouve, Senhor, estes versos que te rezo  Ao contemplar a realidade em que vivo.  Maldito seja o sistema que não deixa sonhar os poetas  Nem permite dizer a verdade a quem pensa.  Serão seus dias de luto e de lamento,  Porque matou no Homem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Salmo do homem que vê a realidade e não se cala.</strong></p>
<p>Ouve, Senhor, estes versos que te rezo <br />
Ao contemplar a realidade em que vivo. <br />
Maldito seja o sistema que não deixa sonhar os poetas <br />
Nem permite dizer a verdade a quem pensa. <br />
Serão seus dias de luto e de lamento, <br />
Porque matou no Homem o mais digno.  </p>
<p>Maldito o sistema que não pratica a justiça <br />
E persegue e tortura e encarcera a quem anuncia. <br />
Terá que justificar sua conduta ante a história <br />
E não encontrará nenhuma palavra de defesa.  </p>
<p>Maldito seja o sistema que só procura a aparência de grandeza <br />
Quando estão morrendo de fome os homens nas suas fronteiras; <br />
Do mesmo modo que progrediu cairá,<br />
 Porque construiu seus alicerces <br />
Sobre corpos vivos e sangues inocentes.  </p>
<p>Maldito o sistema que tenta matar no homem a dimensão de transcendência <br />
E coloca no seu lugar o “deus dinheiro” , o “deus sexo”, e “deus progresso”, <br />
Destruir-se-á por dentro irremissivelmente, <br />
Porque o coração do homem foi bem feito <br />
E ninguém pode matar em nós <br />
Esta sede de infinito que nos queima.</p>
<p>  Feliz será, porém, <br />
O homem que bebe água na fonte da praça junto ao povo,<br />
 Não terá motivos para se envergonhar de nada, <br />
Nem terá que baixar os olhos <br />
 Ante qualquer homem honesto.  </p>
<p>Feliz o homem que à força de interiorizar  <br />
Se fez livre por dentro <br />
E não se importa já com a denúncia dos fortes, <br />
Serão seus dias como o trigo da terra. <br />
Cheios de sol e esperança partilhada <br />
E o seguirão os povos da terra.  </p>
<p>Feliz o homem que não assiste a reuniões importantes <br />
Nem acredita nos discursos do governo; <br />
Feliz o homem que assim pensa, <br />
Porque terá sempre tranquila a sua consciência.<br />
 Mesmo que sofra a incompreensão e até o desprezo.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Alzira Guedes &#8211; &#8220;Não há dia nenhum&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 21:14:38 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Quantos segundos contados pelo marcar do pulso ora apressados, ora descontentes no vagar que todas as memórias têm e na dor que muitas arrastam     Não há dia nenhum que detenha a memória viva nem leis nem regras que afinem e encaixem sentimentos no politicamente correcto   Não há dia nenhum em que o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quantos segundos contados pelo marcar do pulso<br />
ora apressados, ora descontentes<br />
no vagar que todas as memórias têm e na dor<br />
que muitas arrastam<br />
 <br />
 <br />
Não há dia nenhum que detenha a memória viva<br />
nem leis nem regras<br />
que afinem e encaixem sentimentos<br />
no politicamente correcto<br />
 <br />
Não há dia nenhum em que o teu rosto não surja do nada<br />
pra me sacrificar ou as tuas palavras mordazes pra me sangrar<br />
 <br />
Não há e nem vai haver forma de conter o rio<br />
de dor que ficou quando decidiste esconder e mentir<br />
omitir ou devassar sentidos e vidas<br />
 <br />
Sabes, não sabes?<br />
Que dia nenhum passará<br />
sem que estejas presente neste rio!<br />
Não haverá dia nenhum e nem isso podes impedir.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Alzira Guedes &#8211; &#8220;Aqui jaz: saudade&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 21:10:56 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Aqui jaz: saudade]]></category>
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		<description><![CDATA[Antigamente era fácil  falar de rotinas ou de cansaços,  de olheiras e de corpos partidos,  porque nada disso me deixava mal.  Na segurança do amor ou no escaldar  da paixão não cabem queixas ou indagações.  É um quebrar de corpos sem dor,  um esgotar de horas nocturnas  onde a rotina do teu suor na minha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Antigamente era fácil <br />
falar de rotinas ou de cansaços, <br />
de olheiras e de corpos partidos, <br />
porque nada disso me deixava mal. <br />
Na segurança do amor ou no escaldar <br />
da paixão não cabem queixas ou indagações. </p>
<p>É um quebrar de corpos sem dor, <br />
um esgotar de horas nocturnas <br />
onde a rotina do teu suor na minha pele <br />
causava dependência do prazer, <br />
mamilos espetados furando a palma das tuas mãos, <br />
ancas viciadas no samba dos teus quadris, <br />
num ir e vir, beijos que caíam, <br />
desabavam por pescoços e bocas por coxas e olhos. </p>
<p>Equiparava as tuas palavras sussurradas e <br />
sedutoras aos murmurios de fundo das conchas do mar, <br />
á brisa redentora do final da tarde na colina, <br />
antigamente eras o mel que me adoçava os dias.<br />
 <br />
É por isto que escrevo, com receio <br />
de que as minhas memórias se percam <br />
no fundo do mar que já não somos, <br />
numa demência de rituais e febres, <br />
num transladar de novas direcções e objectivos. <br />
Sou eu a praguejar, ainda viva, ainda presente <br />
nos meus deslumbramentos acerca de ti. <br />
Ainda presa a momentos de luxo <br />
nesse tal planeta de afectos onde o teu nome <br />
em neon ilumina corredores e salões, <br />
esquinas e ruas convexas. <br />
Se te doer o presente, grava-me editada em mp3, <br />
pra que possas continuar a viver do passado que já fomos, tu e eu. <br />
Mas nesse dia jorra-me pétalas em cima <br />
e beija o rosto já manchado de humidade, <br />
logo abaixo onde diz : Aqui jaz Saudade.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Alzira Guedes &#8211; &#8220;Coroação&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 21:07:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Coroação]]></category>
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		<description><![CDATA[Nas tuas mãos, o corpo nu, embriagado bebe sequioso a poção que para mim houveras preparado,  e a valsa dos teus dedos continua, na minha alma ganhando trono depois de me beberes inteira, branca e nua&#8230;   Qual semen desmaiado, ensaias novo tango, passo doble e o meu sexo corresponde ritmado, ás danças tântricas fazendo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nas tuas mãos, o corpo nu, embriagado<br />
bebe sequioso a poção que para mim<br />
houveras preparado, <br />
e a valsa dos teus dedos continua,<br />
na minha alma ganhando trono<br />
depois de me beberes inteira,<br />
branca e nua&#8230;<br />
 <br />
Qual semen desmaiado, ensaias novo tango,<br />
passo doble e o meu sexo corresponde<br />
ritmado, ás danças tântricas fazendo lei.<br />
 <br />
E a manhã nasce com a tua coroação,<br />
clitóris e glande cansados,<br />
poros e moléculas gritando:<br />
- já és meu senhor, meu rei!</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Alzira Guedes &#8211; &#8220;No Carnaval dos teus braços&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 21:05:19 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[No Carnaval dos teus braços]]></category>
		<category><![CDATA[Palavras de Ouro]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[abrir a boca ao beijo abrir as pernas ao segredo que me vais contar com a mão abrir o sexo á palavra quente abrir-me em copas, ardente deitar as pálpebras no cobertor da tua pele e beber mel vou sentir-te distante dentro de mim abrir-te o desejo guardado e provar de ti a noite, o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>abrir a boca ao beijo<br />
abrir as pernas ao segredo<br />
que me vais contar com a mão<br />
abrir o sexo á palavra quente<br />
abrir-me em copas, ardente<br />
deitar as pálpebras no cobertor<br />
da tua pele e beber mel</p>
<p>vou sentir-te distante<br />
dentro de mim<br />
abrir-te o desejo guardado<br />
e provar de ti a noite,<br />
o nosso ardor de tempo cozinhado<br />
vou bordar um sem-nexo,<br />
mastigar o poema revelado,<br />
esgrimir esse teu sexo<br />
Virás pedir-me pela manhã<br />
o café e a nicotina<br />
sussurrar o amor em surdina<br />
espreguiçar-me ei no teu abraço e<br />
sem grande estardalhaço<br />
enroscar-me novamente</p>
<p>fazer do breve eternamente<br />
e oferecer-me ao diálogo carnal<br />
das nossas mãos urgentes<br />
deslumbrar-me ás<br />
com os mistérios do Sabugal e,<br />
no teu sexo, eu, mascaro-me de gueixa<br />
e serves-me uma e outra vez (até esgotar),<br />
o Carnaval&#8230;</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Alzira Guedes &#8211; &#8220;A conjugação limitada&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 21:02:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Alzira Guedes]]></category>
		<category><![CDATA[A conjugação limitada]]></category>
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		<description><![CDATA[Amas e dizes exijo e mostras intolerância. Amar assim sai caro Com juros, impostos e lucros, que só o fazes até ao sinal vermelho que depois deles já só odeias e dizê-lo é feio. E desfeias o acto Amar, verbo transitivo conjugado no avesso em que te esqueço ou te possuo. Eu que te não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Amas e dizes exijo e mostras intolerância.<br />
Amar assim sai caro<br />
Com juros, impostos e lucros,<br />
que só o fazes até ao sinal vermelho<br />
que depois deles já só odeias<br />
e dizê-lo é feio. E desfeias o acto<br />
Amar, verbo transitivo conjugado<br />
no avesso em que te esqueço ou te possuo.<br />
Eu que te não sei possuir mais do que amar é<br />
não ser incondicional mas voluntário.<br />
Já é bom sem magoar<br />
este verbo, afinal<br />
conjugado no singular.<br />
Eu amo-te com reticências.</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Pedro Barão de Campos &#8211; &#8220;O Sonho&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Apr 2012 22:17:20 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[o sonho]]></category>
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		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Às vezes, tenho um sonho   Que de noite surge na minha   almofada Como se fosse   trazido por uma brisa doce Ou   um beijo quente que me aconchega. Ali acontece  Que de um instante ao outro, tudo  muda e fico sonho  Entre a realidade de estar a dormir e a   ilusão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Às vezes, tenho um sonho  <br />
Que de noite surge na minha  <br />
almofada Como se fosse  <br />
trazido por uma brisa doce Ou  <br />
um beijo quente que me aconchega.</p>
<p>Ali acontece<br />
 Que de um instante ao outro, tudo<br />
 muda e fico sonho <br />
Entre a realidade de estar a dormir e a  <br />
ilusão do sonho que me<br />
invade e me transforma <br />
E há uma linha ténue onde tudo se<br />
 mistura e cresce… <br />
E eu sou turista breve entre um e outro<br />
 Mundo<br />
 No transcendente instante que se  <br />
demora em mim.</p>
<p>De repente, sou todo sonho! <br />
E o que era a cama é agora uma fresca<br />
 erva verde que me <br />
cerca até ao arvoredo <br />
E eu estou estendido nesse prado de<br />
 Encanto<br />
 Onde os sonhos são a forma das  <br />
gaivotas e as copas das<br />
 árvores a dançar ao som de uma<br />
 melodia inconcebível&#8230;</p>
<p>Debaixo de um céu azul profundo <br />
Sinto o vento a passar por mim e pelas<br />
 minhas mãos <br />
quando as ergo em direcção ao Sol <br />
Escuto a voz de um som que sopra por<br />
 entre a folhagem e<br />
 produz música&#8230;</p>
<p>Como um piano em que as teclas são  <br />
as folhas e o pianista <br />
é o pensamento <br />
E vejo&#8230; a exaltação plena de uma  <br />
tranquilidade nova <br />
Vejo a natureza&#8230; e sou feliz.</p>
<p>De um lado há vacas a pastar <br />
E as suas manchas que são pingos de  <br />
tinta, deixados cair <br />
por algum artista que conheci <br />
Levam-me a subir a encosta até ao <br />
topo do monte.</p>
<p>Pelo caminho, conheço aves de cores<br />
 Vivas <br />
E revejo pedras que me falam ao  <br />
passar.<br />
 Uma cabra da montanha fita-me<br />
ao  Longe <br />
E um texugo do bosque ri-se da minha  <br />
dificuldade em <br />
caminhar.</p>
<p>Chego, finalmente, até um cipreste <br />
E cumprimento-o ao chegar. <br />
Do interior da casca, sinto um espírito<br />
 Pulsante<br />
 Que me responde sem falar.</p>
<p>Olho de relance… <br />
Talvez tenha cem anos ou mais. <br />
Falou-me do tempo e das coisas que  <br />
Vira <br />
Disse-me que ali, há mil anos atrás,  <br />
havia um vulcão <br />
Uma boca cheia de vento, fogo e  <br />
Erupção<br />
 Onde a Terra se abria<br />
 Para extravasar a sua solidão.</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Pedro Barão de Campos &#8211; &#8220;Prisioneiro&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Apr 2012 22:02:11 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[Palavras de Ouro]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Prisioneiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Vem, vem comigo  0 peito é quente  A madrugada é fria  E a saudade que tenho de um sonho  É toda a vida que me resta. Sou apenas as mãos pintadas Sim,   assim, estas mãos pintadas  Numa cor que tu não vês Sou apenas o horizonte longe  Essa estonteante montanha   De ilusões em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vem, vem comigo <br />
0 peito é quente <br />
A madrugada é fria <br />
E a saudade que tenho de um sonho <br />
É toda a vida que me resta.</p>
<p>Sou apenas as mãos pintadas Sim,  <br />
assim, estas mãos pintadas<br />
 Numa cor que tu não vês</p>
<p>Sou apenas o horizonte longe<br />
 Essa estonteante montanha  <br />
De ilusões em neve fina Onde  <br />
nunca irás</p>
<p>Sou esse firmamento de estrelas apagadas E<br />
 na verdade, a minha perdição é a liberdade<br />
 Que por querer ser livre  <br />
Refém me torno em  <br />
cada instante&#8230;!</p>
<p>Sou um prisioneiro faminto  <br />
Num país feito de saudade.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Pedro Barão de Campos &#8211; &#8220;Sou um pássaro&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Apr 2012 21:57:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pedro Barão de Campos]]></category>
		<category><![CDATA[estudio raposa]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>
		<category><![CDATA[Luis Gaspar]]></category>
		<category><![CDATA[Palavras de Ouro]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Sou um pássaro]]></category>

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		<description><![CDATA[Sabes,  Sou um pássaro.   Só hoje descobri  Por entre as arcadas do monumento alado em tua honra  Quando esticava os braços que eram asas à sombra  Olhei de relance para um espelho fixo  No outro lado da rua E vi um corpo de pássaro…  Uma memória de pássaro…  Um levitar&#8230; de pássaro  Que não se escondia&#8230; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sabes, <br />
Sou um pássaro.  <br />
Só hoje descobri<br />
 Por entre as arcadas do monumento alado em tua honra <br />
Quando esticava os braços que eram asas à sombra<br />
 Olhei de relance para um espelho fixo <br />
No outro lado da rua E vi um corpo de pássaro… <br />
Uma memória de pássaro… <br />
Um levitar&#8230; de pássaro <br />
Que não se escondia&#8230; nem calava.</p>
<p>Vi uma alma de pássaro… <br />
Que não fugia nem se camuflava <br />
No denso arvoredo que ainda haveria de existir <br />
Junto ao lago sagrado do artista genuíno Que compõe melodias feitas de si próprio E se transforma&#8230; em breves instantes Em instantes de si mesmo… <br />
Nos pedaços da obra que inventa <br />
Da escultura que molda <br />
Do poema que escreve…</p>
<p>E ele a sua métrica&#8230; a sua regra&#8230;a sua forma&#8230; o seu<br />
 Sentido… <br />
De sonhador… <br />
De apaixonado… <br />
De amante… E crepita&#8230; luz! Crepita!<br />
 Cintila firmamento suave! Eu espero por ti&#8230; pela tua voz! <br />
Espero&#8230; pelo teu sabor sumptuoso&#8230; febril&#8230; Quente… <br />
Pelo teu silvo ardente… <br />
Essa melodia divinamente harmoniosa <br />
Que estipula&#8230; todos os limites do céu… <br />
Aqui… <br />
Ali… <br />
No infinito… </p>
<p>Por dentro do vácuo ermo e sorridente <br />
Desse lampejo de liberdade que é voar… <br />
Assim… <br />
Com as asas&#8230; Abanando… <br />
Assim.… <br />
Porque, sabes?</p>
<p>Sabes&#8230; meu bom amigo..  <br />
Hoje descobri&#8230;<br />
 Sou um pássaro!</p>
]]></content:encoded>
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	</channel>
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