Rimance – “Donzela que vai à guerra”
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
- “Já se apregoam as guerras
Entre França e Aragão:
Ai de mim que já sou velho,
Não nas posso brigar, não!
De sete filhas que tenho
Sem nenhuma ser varão! …
” Responde a filha mais velha
Com toda a resolução:
- “Venham armas e cavalo
Que eu serei filho varão.”
- “Tendes los olhos mui vivos,
Filha, conhecer-vos-ão.”
- “Quando passar pela armada
Porei os olhos no chão.”
- “Tendes los ombros mui altos
Filha, conhecer-vos-ão.”
- “Venham armas bem pesadas,
Os ombros abaterão.”
- “Tendes los peitos mui altos
Filha, conhecer-vos-ão.”
- “Venha gibão apertado,
Os peitos encolherão.”
- “Tendes las mãos pequeninas
Filha, conhecer-vos-ão.”
- “Venham já guantes de ferro,
E compridas ficarão.”
- “Tendes los pés delicados,
Filha, conhecer-vos-ão.”
- “Calçarei botas e esporas,
Nunca delas sairão.”
- “Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.”
- “Convidai-o vós, meu filho,
Para ir convosco ao pomar,
Que se ele mulher for,
À maçã se há-de pegar.”
A donzela por discreta,
O camoês foi apanhar,
- “Oh que belos camoeses
Para um homem cheirar!
Lindas maçãs para damas
Quem lhas pudera levar!”
- “Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher de homem não.”
- “Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco jantar;
Que, se ele mulher for
No estrado se há-de encruzar.”
A donzela, por discreta,
Nos altos se foi sentar.
- “Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.”
- “Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco feirar;
Que, se ele mulher for,
Às fitas se há-de pegar.”
A donzela, por discreta,
Uma adaga foi comprar.
- “Oh que bela adaga esta
Para com homens brigar!
Lindas fitas para damas:
Quem lhas pudera levar!”
- “Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.”
- “Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco nadar;
Que, se ele mulher for,
O convite há-de escusar.”
A donzela por discreta,
Começou-se a desnudar…
Traz-lhe o seu paje uma carta,
Pôs-se a ler, pôs-se a chorar;
- “Novas me chegam agora,
Novas de grande pesar;
De que minha mãe é morta,
Meu pai se está a finar.
Os sinos da minha terra
Os estou a ouvir dobrar;
E duas irmãs que eu tenho,
Daqui as oiço chorar.
Monta, monta, cavaleiro!
Se me quer acompanhar.”
Chegavam a uns altos paços
Foram-se logo apear.
- “Senhor pai. trago-lhe um genro,
Se o quiser aceitar;
Foi meu capitão na guerra,
De amores me quis contar…
Se ainda me quer agora,
Com meu pai há-de falar.”
Sete anos andei na guerra
E fiz de filho varão.
Ninguém me conheceu nunca
Senão o meu capitão;
Conheceu-me pelos olhos,
Que por outra coisa não.
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