Nota biográfica

Álvaro de Campos (Tavira ou Lisboa, 13 ou 15 de Outubro de 1890 — ?) é um dos heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa. Era um engenheiro de educação inglesa e origem inglesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte da África.

Álvaro de Campos – “Lembro-me bem do seu olhar.”

25.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto…
Sim o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
Onde sofrer seja uma coisa mais suave.
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,


Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

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Eugénio Andrade – “Pequena Elegia…”

23.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

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José Saramago – “Retrato do Poeta Quando Jovem”

17.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do Sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

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Sophia de Mello B. Andresen – “Porque”

16.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

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António Botto – “Quando me queres…”

15.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quanto, quanto me queres? – perguntaste

Numa voz de lamento diluída;

E quando nos meus olhos demoraste

A luz dos teus senti a luz da vida.

Nas tuas mãos as minhas apertaste;

Lá fora da luz do Sol já combalida

Era um sorriso aberto num contraste

Com a sombra da posse proibida…

Beijámo-nos, então, a latejar

No infinito e pálido vaivém

Dos corpos que se entregam sem pensar…

Não perguntes, não sei – não sei dizer:

Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.

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Alexandre O’Neill – “A Internacional Negra”

14.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

«A INTERNACIONAL NEGRA»
OU «OS MAUS PASTORES»
(Uma amostra pastichada do anticlericalismo oportunista de Arthur Corvelo, o poeta criado por Eça de Queiroz.)

Negros serventes de um estéril dogma, 

Que formigais por toda a parte, a esmo,

Que entrais no palácio e na choupana 

E que comeis faisão, trincais torresmo;

Que ouvis as confidências da viúva

E os anseios da virgem inocente.

Que sois cúmplices de tanta sinecura,

Lúbrico o olho e aguçado o dente.

Que jamais recusais vossos favores 

À herdeira rica que vos presenteia,

Que tendes na mão tantos poderes 

E atraiçoais a Ele em cada ceia;

Que rebolais, glutões, a vossa pança,

Arrotando suficiência e despautério;

Que chuchais da Filosofia e da Ciência 

E dais aso — triste vezo! — ao adultério;

Que ao púlpito subis e, com voz mansa, 

Pregais a Moral só p’ra os demais;

Que recebeis d’esmolas gorda tença 

E o melro, crudelíssimos, matais;

Ó vós que sois, batina roçagante,

Os melífluos falsários da Verdade,

Os Povos hão-de dar-vos recompensa

E enxotar-vos, qual corvos, da Cidade!

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João de Deus – “O Avarento”

13.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Puxando um avarento de um pataco

Para pagar a tampa de um buraco

Que tinha já nas abas do casaco.

Levanta os olhos, vê o céu opaco,

Revira-os fulo e dá com um macaco

Defronte, numa loja de tabaco 

(Que lhe fazia muito mal ao caco…).

Diz ele então

Na força da paixão:

Há casaco melhor que aquela pele? 

Trocava o meu casaco por aquele…
E até a mim… por ele.

Tinha razão,

Quanto a mim.

Quem não tem coração.

Quem não tem alma de satisfazer 

As niquices da civilização 

Homem não deve ser;

Seja saguim,

Que escusa tanga, escusa langotim: 

Vá para os matos,

Já não sofre tratos 

A calçar botas, a comprar sapatos; 

Viva nas tocas como os nossos ratos, 

E coma cocos, que são mais baratos.

(in “Campo de Flores”, Edição de Jardins-Escola João de Deus.
Nota introdutória de António Ponces de Carvalho, bisneto do Poeta)

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Almeida Garrett – “Não te amo”

08.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.
E eu n’alma – tenho a calma, 


A calma – do jazigo. 


Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror…
Mas amar!… não te amo, não.

(in Folhas Caídas)

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Rosa Lobato Faria – “Primeiro a tua mão…”

06.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Primeiro a tua mão sobre o meu seio.

Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.

Logo o roçar urgente do joelho

e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala

É a linha do dorso que se inscreve.

A mão agora impõe, já não embala

mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.

A boca exige: quer mais sal, mais morno.

Já não há gesto que se não invente,

ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.

É todo o mar que inunda a nossa cama.

Afogados de amor e de nudez

Somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é

senão ternura, intimidade, enleio:

o meu pé descansando no teu pé,

a tua mão dormindo no meu seio.


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Carlos de Oliveira – Leitura”

05.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando por fim as árvores
se tornam luminosas; e ardem
por dentro pressentindo;
folha a folha; as chamas
ávidas de frio:
nimbos e cúmulos coroam
a tarde, o horizonte,
com a sua auréola incandescente
de gás sobre os rebanhos.

Assim se movem
as nuvens comovidas
no anoitecer
dos grandes textos clássicos.

Perdem mais densidade;
ascendem na pálida aleluia
de que fulgor ainda?
e são agora
cumes de colinas rarefeitas
policopiando à pressa
a demora das outras
feita de peso e sombra.

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António Gedeão – “Estrela da Manhã”

03.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.
Vai.
Como se cumprisse um dever.
Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.
Abre os olhos e vai.
Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece o linho,
a espuma roxa dos vinhos,
incêndio na face jovem.
Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressuma-lhe à flor da pele.
Vai, belo monstro.
Arranca
as florestas com os teus dentes.
Imprime na areia branca
teus voluntariosos pés incandescentes.
Vai
Segue o teu meridiano, esse,
o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;
o plano de barro que nunca endurece,
onde a memória da espécie
grava os sonos imortais.
Vai
Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
Desdobra-te e beija
em ti mesmo a carne sã.
Vai
À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
“tem que ser”.
O mar que rola e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
“tem que ser”.
Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
“Tem que ser .”

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Aldous Huxley – “O Admirável Mundo Novo”

03.10.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

Aldous Leonard Huxley foi um escritor inglês e um dos mais proeminentes membros da família Huxley. Passou parte da sua vida nos Estados Unidos, e viveu em Los Angeles de 1937 até a sua morte, em 1963. Uma das suas obras mais famosas é “O Admirável Mundo Novo”.

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Um edifício cinzento e atarracado, de apenas trinta e quatro andares, tendo por cima da entrada principal as palavras:
CENTRO DE INCUBAÇÃO E DE CONDICIONAMENTO DE LONDRES-CENTRAL
e, num escudo, a divisa do Estado Mundial:
COMUNIDADE, IDENTIDADE, ESTABILIDADE
A enorme sala do andar térreo estava virada ao norte. Apesar do Verão que reinava no exterior, apesar do calor tropical da própria sala, apenas fracos raios de uma luz crua e fria entravam pelas janelas. As blusas dos trabalhadores eram brancas, e as suas mãos, enluvadas de borracha pálida, de aspecto cadavérico. A luz era gelada, morta, espectral. Apenas dos cilindros amarelos dos microscópios ela recebia um pouco de substância rica e viva, que se espalhava ao longo dos tubos como manteiga.
—Isto—disse o Director, abrindo a porta—é a Sala da Fecundação.
No momento em que o Director da Incubação e do Condicionamento entrou na sala, trezentos fecundadores, curvados sobre os seus instrumentos, estavam mergulhados naquele silêncio em que apenas se ousa respirar, naquela cantilena ou assobio inconsciente com que se traduz a mais profunda concentração. Um grupo de estudantes recém-chegados, muito novos, rosados e imberbes, comprimiam-se, possuídos de uma certa apreensão e talvez de alguma humildade, atrás do Director. Cada um deles levava um caderno de notas, no qual, cada vez que o grande homem falava, rabiscavam desesperadamente. Bebiam a sua sabedoria na própria fonte, o que era um raro privilégio, O D. I. C. de Londres-Central empenhava-se sempre em conduzir pessoalmente a visita dos seus novos alunos aos diversos serviços.
«Unicamente para lhes dar uma ideia de conjunto», explicava-lhes ele, pois era necessário, evidentemente, que possuíssem um simulacro de ideia de conjunto, já que se desejava que fizessem inteligentemente o seu trabalho.
Era conveniente, porém, que essa ideia fosse o mais resumida possível se se quisesse que, mais tarde, eles fossem membros disciplinados e felizes da sociedade, dado que os pormenores, como se sabe, conduzem à virtude e à felicidade, e as generalidades são, sob o ponto de vista intelectual, males inevitáveis. Não são os. filósofos, mas sim aqueles que se entregam às construções de madeira e às colecções de selos, que constiíuem a estrutura da sociedade.
—Amanhã — acrescentou, dirigindo-lhes um sorriso cheio de bonomia, mas ligeiramente ameaçador — começarão a trabalhar seriamente e não terão tempo para perder com generalidades. Daqui até lá…
Daqui até lá era um privilégio. Da própria fonte para o caderno de apontamentos. Os rapazes rabiscavam febrilmente.

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Ricardo Vercesi – “Quero-te”

28.09.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

ricardo

Quero-te.
A cada dia,
A cada segundo.
Só para mim.
Quero ouvir
Cada palavra tua,
Cada sussuro.
E por fim,
Quero cada gesto,
Cada sorriso,
Cada lamento,
Cada “amo-te”,
Cada lágrima.
Quero-te a cada momento.
Cada gemido.
Quero o teu peito,
Batendo forte
No meu.
Em síncope,
E eu,
Depois de tanto te querer,
Nada mais serei que não teu.

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Mário de Sá Carneiro – “Álcool”

15.09.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

pesadelo

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas d’auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo –
Luto, estrebucho… Em vão! Silvo pra além…

Corro em volta de mim sem me encontrar…
Tudo oscila e se abate como espuma…
Um disco de ouro surge a voltear…
Fecho os meus olhos com pavor da bruma…

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio d’inferno em vez de paraíso?…
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que eu ando delirante –
Manhã tão forte que me anoiteceu.

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Montagne, Michel – “Esquece o futuro”

12.09.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

futuro

Esquece o futuro… ele não te pertence!
O presente te basta!
Mas é preciso ser rápido, quando ele é mau presente
E andar devagar quando se trata de saboreá-lo.
Expressões como: “passar o tempo” espelham bem a maneira
de viver dessa gente prudente…. que imagina não haver coisa melhor
para fazer da vida.
Deixam passar o presente, esquivam-se, ignoram o presente…
Como se estar vivo fosse uma coisa desprezível…
Porque a natureza nos deu a vida em condições tão favoráveis…
que só mesmo por nossa culpa ela poderia se tornar pesada e inútil.

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Fernando Reis Luis – “Fechei os olhos”

25.07.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

fechei

Fechei os olhos ao ritmo dum tambor volátil
Batendo como um coração sem rédeas Nos anéis da
noite insondável

Senti o frio do areal e segui em caravanas
Atravessando os atalhos da seda
E outros lugares trívios nas rotas dos desertos
Senti o pó e o vento quente
Em trilhos nas ampulhetas das dunas
E segui sem medo das miragens
Em azimutes incertos de astros tremeluzentes
Remarcando os silêncios do cosmos na algidez das noites

Senti as horas alucinadas nas pulsações suspensas
Em tempestades de areia marcando o tempo
E segui itinerante em frente calejando os pés vagabundos
Na distância nómada de roteiros
Em horizontes perdidos nos olhos

Senti a voz em delírio
Antevendo versos bolinados no ar
E segui as imagens esparsas
Das miragens encantatórias do deserto
Multiplicando as palavras dos poemas
E os gestos do magma da escrita
Por todos os oásis que existem na pele

(Poema do livro “Ipsis Verbis”. Ed. “arandis”. Ilustrações de José Maria Oliveira)

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Fernando Reis Luís – “Cavalo de Vento”

25.07.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

cavalo

A matéria do lenho do amor
É o instante latente do corpo
No espaço dos túneis do barro moldável

Cavalos de ventos difusos Criando os silvos
da distância Levada no sopro do pó
transparente Em flor pendular do tempo
incerto

Primaveras dormentes em canções
Renovando o sangue e a linfa Para fazer as
correntes dos rios Abrindo abrigos nas
margens Em gestos de gente em abordagem

(Poema do livro “Ipsis Verbis, Ed. “arandis”. Ilustrações de José Maria Oliveira)

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António Nobre – “Quando Chegar a Hora”

22.07.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

aguia

Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abade,
Oiça isto que lhe peço:
Mande-me abrir, ali, uma cova á vontade,


Olhe: eu mesmo lh’a meço…
O coveiro é podão, fa-las sempre tão baixas…
O cão pode lá ir:
Diga ao moço, que tem a prática das sachas,
Que m’a venha ele abrir.
E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
Que toque a Aleluia!
Não me diga orações, que eu não tenho pecados:
A minha alma é dia!
Será meu confessor o vento, e a luz do raio
A minha Extrema-Unção!
E as carvalhas (chorai o poeta, encomendai-o!)
De padres farão.
Mas as águias, um dia, em bando como astros,
Virão devagarinho,
E hão-de exumar-me o corpo e levá-lo-ão de rastros,
Em tiras, para o ninho!
E ha-de ser um deboche, um pagode, o demónio,
N’aquele dia, ai!
Águias! sugai o sangue a vosso filho Antonio,
Sugai! sugai! sugai!
Raro têm de comer. A pobreza consome
As águias, coitadinhas!
Ao menos, n’esse dia, eu matarei a fome
A essas desgraçadinhas…
De que serve, Sr. Abade! o nosso pacto:
Não me lembrei, não vi
Que tinha feito com as águias um contrato,
No dia em que nasci.

(Da obra “Só”)

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Alberto Pimenta – “Morreram todos…”

22.07.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

morte

artur hipólito morreu com 62 anos, 20 anos após ter feito 42, mas na altura quem diria?
heitor fragoso morreu atropelado. foi levado para o hospital, mas esqueceram-se duma parte do corpo no local do acidente.
manuel testa morreu sem se ter conseguido habituar a este modo
de mal-estar no mundo.
arnaldo rodrigues caiu a um buraco da canalização e nunca mais
foi visto.
jeremias cabral pôs termo à existência por motivos desconhecidos.
zeca gomes morreu em defesa da pátria mas a pensar noutra coisa.
antónio de oliveira morreu igual a si mesmo: triste sinal dos tempos!
bernardo leite pôs-se a pensar na morte e não conseguiu voltar a
trás.
ivo gouveia tinha uma agência funerária e escolheu para si um
caixão representativo.
guilherme silva fechou-se no sótão, para morrer num lugar elevado.
luís dimas respirava saúde, agora respira um hálito de eternidade.
antónio garcia, o coveiro, teve uma síncope e caiu dentro da cova que estava a abrir.
bento nogueira engasgou-se com um pedaço de carne e desapareceu do nosso convívio.
paiva de jesus enforcou-se.
joão baptista viu o cunhado levantar-se do caixão e teve uma síncope.
lourenço pinheiro estava a ver a trovoada e um relâmpago entrou lhe por um olho e saiu-lhe pelo outro.
jorge velez de castro finou-se após uma longa vida de sacrifícios, toda dedicada ao bem-comum. e foi assim: depois de ter ingerido o seu sumo de laranja, foi conduzido para a cadeira de repouso pelo enfermeiro de confiança. nela se conservou, de boca entreaberta e olhos fechados, atéàs onze horas. às onze horas, o enfermeiro de confiança aproximou-se com a intenção de o conduzir ao banho. pondo delicadamente a mão nas costas da cadeira, disse: são horas do banho, senhor director. como este não desse sinal de ter ouvido, o enfermeiro de confiança, com a costumada jovialidade, debruçou-se e repetiu:são horas do banho, senhor director. posto isto, empurrou a cadeira até ao balneário, passou um braço pelos rins outro por baixo dos joelhos do director, e assim o levou para a água, só então se dando conta de que ele já não vivia.
zé maria, o peidolas, foi expulso da vida pela autoridade competente.
joão gaspar foi um nobre e valoroso homem que morreu heroicamente no campo da honra. paz à sua alma.
raul santos deitou-se um dia e por mais que o sacudissem nunca mais se levantou.
alfredo penha caiu tão desastradamente da cama que nem é possível dar pormenores da sua morte.
joaquim perestrelo morreu no meio da missa, qual quê! ainda a missa não ia a metade!
sousa dias morreu de pé, mas enterraram-no deitado, como toda a gente.

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Pedro Garcia Burgalês – “Rui Queimado”

27.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

guilhade

Português moderno

Rui Queimado morreu de amor
nos seus cantares, por Santa Maria,
por uma dona a quem muito queria:
e, para se mostrar melhor trovador,
porque ela não lhe quis bem fazer,
fez-s’ele em seus cantares morrer,
mas ressuscitou ao terceiro dia!

Isto fez ele pela sua senhora
a que quer grande bem, e mais vos diria:
como cuida que é mestre em trovar,
e nos cantares que faz, tem prazer
em morrer e logo voltar a viver;
isto faz ele que o pode fazer,
mas outro homem por nada o faria.

E não tem já de sua morte pavor,
senão a sua morte mais temeria,
mas sabe bem, por sua sabedoria,
que viverá, depois que morto for,
e faz em seu cantar prender a morte,
voltando logo à vida: vedes que poder
Deus lhe deu, mais do que se podia crer.

E, se me Deus a mim desse o poder
que ele hoje tem, de viver após morrer,
jamais a morte eu temeria.

Português antigo

Roi Queimado morreu con amor
en seus cantares, par Sancta Maria,
por ūa dona que gran ben queria:
e, por se meter por mais trobador,
porque lhe ela non quis ben fazer,
feze-s’el en seus cantares morrer,
mais resurgiu depois ao tercer dia!

Esto fez el por ūa sa senhor
que quer gran ben, e mais vos en diria:
por que cuida que faz i maestria,
enos cantares que faz, á sabor
de morrer i e des i d’ar viver;
esto faz el que x’o pode fazer,
mais outr’omem per ren’ nono faria.

E non á já de sa morte pavor,
senon sa morte mais la temeria,
mais sabe ben, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for,
e faz-[s’] en seu cantar morte prender,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, mais que non cuidaria.

E, se mi Deus a mim desse poder
qual oj’el á, pois morrer, de viver,
já mais morte nunca temeria.

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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Otília Martel – “Sonho-te”

26.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

loira_dorme

Sonho-te
que sonhando-me
sonhas-me,
em teus braços,
mil beijos sussurrados

Sonho-te
e sonhando-me
amo-te
no rasgar da pele
buscando
carícias longas
entregando-me

Sonho-te
no abraço incontido
corpo entregue
vencido
em noites de vendaval

E esse perfume errante
– seiva quente –
dá vida, dá alento
mesmo não passando
de ilusão,
que se desfaz em nada,
tal qual nuvem
em tarde de Verão.

Sonho-te
que sonhando-me
sonhas-me …
amando-te …

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Pero da Ponte – “Senhora do corpo esbelto”

25.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno:

Senhora do corpo
esbelto, em má hora fui nascido!
que nunca perdi cuidado
nem afã desde que vos vi.
Em má hora fui nascido,
senhora, por vós e por mim!

Com est’ afã tão alongado
em má hora fui nascido!
que vos amo contra vontade
e vos causo mágoa.

Em má hora fui nascido,
senhora, por vós e por mim!

Ai eu, cativ’ e coitado,
Em má hora fui nascido!
que servi sempr’ em vão
onde bem nunca consegui.

Em má hora fui nascido,
senhora, por vós e por mim!

Português antigo

Senhor do corpo delgado,
en forte pont’ eu fuy nado!
que nunca perdi cuydado
nem afan des que uos ui.
En forte pont’ eu fuy nado,
senhor, por uós e por mi!

Con est’ afan tan longado
en forte pont’ eu fuy nado!
que uos amo sen meu grado
e faço a uós pesar y.

En forte pont’ eu fuy nado,
senhor, por uós e por mi!

Ay eu, cativ’ e coytado,
en forte pont’ eu fuy nado!
que serui sempr’ endõado
ond’ un ben nunca prendi.

En forte pont’ eu fuy nado,
senhor, por uós e por mi!

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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António Botto – “Se duvidas…”

24.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

homem

Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo –
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
– desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha –
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.

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Paio Soares Taveirós – “Ribeirinha”

23.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno

No mundo não conheço
ninguém igual a mim,
enquanto acontecer o
que me aconteceu,
pois eu morro por vós e ai!
Minha senhora alva e rosada,
quereis que vos lembre
que já vos vi na intimidade!
Em mau dia eu me levantei
Pois vi que não sois feia!

E, minha senhora
desde aquele dia, ai!
Venho sofrendo de um grande mal
enquanto vós, filha de dom Paio
Muniz, a julgar forçoso
que eu lhe cubra com o manto
pois eu, minha senhora
nunca recebi de vós
a coisa mais insignificante.

Português antigo

No mundo non me sei parelha,
mentre me for’ como me uay,
ca iá moiro por uos – e ay!
mia senhor branca e vermelha,
queredes que uos retraya
quando us eu ui en saya!
Mao dia me leuantei,
que uus enton non ui fez!

E, mia senhor, des aquel di’ay!
me foi a mi muyn mal,
e uos, filha de don Paay
Moniz, e ben uus semelha
d’auer eu por uos guaruaya,
pois eu, mia senhor, d’alfaya
nunca de uos ouue nen ei
valia d’ua correr…

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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Casimiro de Brito – “Entro…”

18.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

foder

Entro paciente e afundo-me no reino
da mãe. O barro mais antigo
brilha no teu sexo que se abre escuro
ao meu desejo — à ternura, ao furor que busca
o caos. Só em ti, que não temes a noite nem a saudade,
me encontro. Abres a húmida concha
e salto para dentro do lume
da primeira casa. Deixo à entrada
a angústia de quem vai morrer.

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Nuno Fernandes Torneol – “Vi eu, minha mãe…”

17.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

cogomilho

Português moderno

Vi eu, minha mãe, andar
as barcas no mar,
e morro d’amor!

Fui eu, mãe, ver
as barcas nas ondas,
e morro d’amor!

As barcas no mar,
e fui-as aguardar,
e morro d’amor!

As barcas nas ondas,
e fui-as esperar,
e morro d’amor!

E fui-as aguardar,
e não o pude achar,
e morro d’amor!

E fui-as esperar,
e non o pude aí ver,
e morro d’amor!

E non o achei aí,
o que por meu mal vi,
e morro d’amor!

E non o achei lá
o que vi por meu mal,
e morro d’amor!

Português antigo

Vy eu, mha madr’, andar
as barcas eno mar,
e moyro-me d’amor!

Foy eu, madre, veer
as barcas eno ler,
e moyro-me d’amor!

As barcas eno mar,
e foi-las aguardar,
e moyro-me d’amor!

As barcas eno ler,
e foi-las atender,
e moyro-me d’amor!

E foi-las aguardar,
e non o pud’achar,
e moyro-me d’amor!

E foi-las atender,
e non o pudi ueer,
e moyro-me d’amor!

E non o achey hy,
o que por meu mal ui,
e moyro-me d’amor!

E non o achey lá
o que ui por meu mal,
e moyro-me d’amor!

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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Florbela Espanca – “Tardinha…”

16.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

fim_do_dia

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços …

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca … o eco dos teus passos
O teu riso de fonte … os teus abraços
Os teus beijos … a tua mão na minha .

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca …
Quando os olhos se me cerram de desejo
E os meus braços se estendem para ti.

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Martin Suarez – “Foi um dia…”

13.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

poesia

Português moderno

Foi um dia o jogral Lopo
a casa de um infanção cantar,
e mandou-lh’ ele em pago dar
três coices na garganta;
e foram escassos, cuido eu,
pelo modo como canta.

Escasso foi o infanção
em repartir os seus coices,
pois não deu a Lopo então
mais de três na garganta,
e mais merece o jogralão,
pelo modo como canta.

Português antigo

Foy um dia Lopo jograr
a casa duū infançon cantar,
e mandou-lh’ ele por don dar
três couces na garganta,
e foi-lhe escasso, a meu cuidar,
segundo como el canta

Escasso foi o infançon
en seus couces partir’ enton,
ca non deu a Lopo enton
mais de três na garganta,
e mais merece o jograron,
segundo como el canta.

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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David Mourão-Ferreira – “Curtas”

12.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

ventre

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel

de mais que tua pele ser a pele da minha pele?

Cintilação de luas

assim que te desnudas

às escuras

Diante do teu ventre

como não dizer “sempre”

novamente.

Ó lâmina e bainha

de outra espada ainda

Tua língua

Ruge. Reprende. Arrasa

Desde que sempre o faças

com as asas

Vem dos arcanos de outro tempo

ou dos anéis de outra galáxia
esta espessura transparente

que só na cama as almas ganham

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Martin de Grijó – “Se me aprazer…”

11.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno:

Se vos aprazer, mãe, hoje este dia
irei hoje eu fazer oração,
e chorar muito em Santa Cecília
destes meus olhos e de coração
pois morro eu, mãe, por meu amigo,
e ele morre por falar comigo.

Se vos aprouver, mãe, deste modo
irei lá minhas candeias queimar
e com o meu manto e a minha camisa
a Santa Cecília ante o seu altar,
pois morro eu, mãe, por meu amigo,
e ele morre por falar comigo.

Se me deixardes, minha mãe, lá ir,
dir-vos-ei agora o que vos farei:
prometo sempre já de vos servir
e desta ida mui alegre virei,
pois morro eu, mãe, por meu amigo,
e ele morre por falar comigo

Português antigo

Se uos prouguer, madr’, oj’ este dia
hirey oj’ eu fazer oraçon,
e chorar muit’en Saneta Ceçília
destes meus olhos e de coraçon
ca moyr’eu, madre, por meu amigo,
e el morre por falar comigo.

Se uos prouguer, madre, desta guisa
hirei alá mhas candeas queimar
eno meu mant’ e na mha camisa
a Saneta Ceçilia ant’ o seu altar,
ca moyr’eu, madre, por meu amigo,
e el morre por falar comigo.

Se me leixardes, mha madr’, ala’ hir,
direi-uos ora o que uos farey:
punharey sempre já de uos seruir
e desta hida mui leda uerrey,
ca moyr’eu, madre, por meu amigo,
e el morre por falar comigo.

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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