Nota biográfica

Alcaide-mor da fortaleza de Zagala, por carta de nomeação de 14/03/1478, Jorge de Aguiar foi capitão de uma armada que partiu para a Índia, em 1508, e se perdeu nas ilhas Tristão da Cunha. Teófilo Braga, di-lo filho de Pedro de Aguiar e de Mécia Sequeira, ama da princesa Joana (filha de D. Afonso VI, e marido de D. Violante de Vasconcelos, filha de João Rodrigues de Vasconcelos. Jorge de Aguiar participa no “Processo do Cuidar e Suspirar” que abre o Cancioneiro de Resende, alinhando nas fileiras a favor do “Cuidar”.

Jorge Aguiar – “Coração já repousavas”

05.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno

Coração já repousavas,
Já não tinhas sujeição,
Já vivias, já folgavas;
Pois porque te subjugavas
Outra vez, meu coração?
Sofre, pois te não sofreste
Na vida que já vivias;
Sofre, pois te tu perdeste,
Sofre, pois não conheceste
Como outra vez te perdias;
Sofre, pois já livre estavas
E quiseste sujeição;
Sofre, pois te não lembravas
Das dores de que escapavas:
Sofre, sofre, coração!

Português antigo

Coraçam já repousavas,
Já não tinhas sujeiçam,
Já vivias, já folgavas;
Pois porque te sojigavas
Outra vez, meu coraçam?
Sofre, pois te não sofreste
Na vida que já vivias;
Sofre, pois te tu perdeste,
Sofre, pois não conheceste
Como te outra vez perdias;
Sofre, pois já livre estavas
E quiseste sujeiçam;
Sofre, pois te não lembravas
Das dores de que escapavas:
Sofre, sofre, coraçam!

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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Jorge Aguiar – “Esforça meu coração…”

03.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno

Esforça meu coração,
não te mates, se quiseres:
lembra-te que são mulheres.

Lembra-te qu’está por nascer
uma que não errasse;
lembra-te que seu prazer,
por bondade e merecer,
não vi quem dele gostasse.
Pois não te dês a paixão,
toma prazer, se puderes
lembra-te que são mulheres.

Descansa, triste, descansa,
que seus males são vinganças;
tuas lágrimas amansa,
deix’ as suas esperanças;
porque, pois nascem sem razão,
nunca por ela lh’ esperes;
lembra-te que são mulheres.

Tuas mui grandes firmezas,
tuas grandes perdições,
suas desleais naturezas
causaram tuas tristezas,
Pois não te mates em vão,
que, quanto mais as quiseres,
lembra-te que são mulheres.

Que te presta padecer,
que t’ aproveita chorar,
pois nunc’ outras hão de ser,
nem são nunca de mudar?
Deixa-as com sua natureza,
seu amor nunca lho esperes:
lembra-te que são mulheres.

Não te mates cruamente
por quem fez tão grande falta,
que quem de si não sente,
por ti não lhe dará nada.
Vive, lançando pregão
por onde fores e vieres
que são mulheres, mulheres!

Português antigo

Esforça meu coraçam,
nom te mates, se quiseres:
lembre-te que sam mulheres.

Lembre-te qu’é por nacer
nenhua que nam errasse;
lembre-te que seu prazer,
por bondade e merecer,
nam vi quem dele gostasse.
Pois nam te dês a paixam,
toma prazer, se puderes
lembre-te que sam mulheres
.
Descansa, triste, descansa,
que seus males sam vinganças;
tuas lágrimas amansa,
leix’ as suas esperanças;
ca, pois nacem sem rezam,
nunca por ela lh’ esperes;
lembre-te que sam mulheres.

Tuas mui grandes firmezas,
tuas grandes perdições,
suas desleais nações
causaram tuas tristezas,
Pois nam te mates em vão,
que, quanto mais as quiseres,
verás que sam as mulheres.

Que te presta padecer,
que t’ aproveita chorar,
pois nunc’ outras ham de ser,
nem sam nunca de mudar?
Deyx’ as com sua naçam,
seu bem nunca lho esperes:
lembre-te que sam mulheres.

Nam te mates cruamente
por quem fêz tam grande errada,
que quem de si nam sente,
por ti nam lhe dará nada.
Vive, lançando pregam
por u fores e vieres
que sam molheres, mulheres!

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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