Nota biográfica

A primeira página de grandes obras da literatura.

Aldous Huxley – “O Admirável Mundo Novo”

03.10.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

Aldous Leonard Huxley foi um escritor inglês e um dos mais proeminentes membros da família Huxley. Passou parte da sua vida nos Estados Unidos, e viveu em Los Angeles de 1937 até a sua morte, em 1963. Uma das suas obras mais famosas é “O Admirável Mundo Novo”.

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Um edifício cinzento e atarracado, de apenas trinta e quatro andares, tendo por cima da entrada principal as palavras:
CENTRO DE INCUBAÇÃO E DE CONDICIONAMENTO DE LONDRES-CENTRAL
e, num escudo, a divisa do Estado Mundial:
COMUNIDADE, IDENTIDADE, ESTABILIDADE
A enorme sala do andar térreo estava virada ao norte. Apesar do Verão que reinava no exterior, apesar do calor tropical da própria sala, apenas fracos raios de uma luz crua e fria entravam pelas janelas. As blusas dos trabalhadores eram brancas, e as suas mãos, enluvadas de borracha pálida, de aspecto cadavérico. A luz era gelada, morta, espectral. Apenas dos cilindros amarelos dos microscópios ela recebia um pouco de substância rica e viva, que se espalhava ao longo dos tubos como manteiga.
—Isto—disse o Director, abrindo a porta—é a Sala da Fecundação.
No momento em que o Director da Incubação e do Condicionamento entrou na sala, trezentos fecundadores, curvados sobre os seus instrumentos, estavam mergulhados naquele silêncio em que apenas se ousa respirar, naquela cantilena ou assobio inconsciente com que se traduz a mais profunda concentração. Um grupo de estudantes recém-chegados, muito novos, rosados e imberbes, comprimiam-se, possuídos de uma certa apreensão e talvez de alguma humildade, atrás do Director. Cada um deles levava um caderno de notas, no qual, cada vez que o grande homem falava, rabiscavam desesperadamente. Bebiam a sua sabedoria na própria fonte, o que era um raro privilégio, O D. I. C. de Londres-Central empenhava-se sempre em conduzir pessoalmente a visita dos seus novos alunos aos diversos serviços.
«Unicamente para lhes dar uma ideia de conjunto», explicava-lhes ele, pois era necessário, evidentemente, que possuíssem um simulacro de ideia de conjunto, já que se desejava que fizessem inteligentemente o seu trabalho.
Era conveniente, porém, que essa ideia fosse o mais resumida possível se se quisesse que, mais tarde, eles fossem membros disciplinados e felizes da sociedade, dado que os pormenores, como se sabe, conduzem à virtude e à felicidade, e as generalidades são, sob o ponto de vista intelectual, males inevitáveis. Não são os. filósofos, mas sim aqueles que se entregam às construções de madeira e às colecções de selos, que constiíuem a estrutura da sociedade.
—Amanhã — acrescentou, dirigindo-lhes um sorriso cheio de bonomia, mas ligeiramente ameaçador — começarão a trabalhar seriamente e não terão tempo para perder com generalidades. Daqui até lá…
Daqui até lá era um privilégio. Da própria fonte para o caderno de apontamentos. Os rapazes rabiscavam febrilmente.

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“1984”, de George Orwell

14.08.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

1984

Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico.

Era um dia frio e ensolarado de Abril, e os relógios batiam treze horas. Winston Smith, com o queixo fincado no peito numa tentativa de fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro do Edifício Vitória; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero.
O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a capacho de trapos. Na parede do fundo fora pregado um cartaz colorido, grande demais para exibição interna. Representava apenas uma cara enorme, de mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, com espesso bigode preto e traços rústicos mas atraentes. Winston encaminhou-se para a escada. Era inútil experimentar o elevador. Raramente funcionava, mesmo no tempo das vacas gordas, e agora a electricidade era desligada durante o dia. Fazia parte da campanha da economia, preparatória da Semana do Ódio. A casa dele ficava no sétimo andar, e Winston, que tinha trinta e nove anos e uma variz ulcerada no tornozelo direito, subiu devagar, descansando várias vezes no caminho. Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme fitava-o da parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda a parte. «O Grande Irmão vela por ti», dizia a legenda.
Dentro de casa uma voz sonora lia uma lista de números relacionados com a produção de ferro gusa. A voz saía de uma placa metálica rectangular, semelhante a um espelho fosco, embutida na parede direita. Winston torceu um comutador e o som da voz diminuiu um pouco, embora as palavras ainda fossem audíveis. O aparelho (chamava-se teletela) podia ter o volume do som reduzido, mas era impossível desligá-lo de vez. Winston foi até à janela. Ele era uma figura miúda, frágil, a magreza do corpo ainda realçada pelo macacão azul que era o uniforme do Partido. O cabelo era muito louro, a face naturalmente sanguínea e a pele irritada pelo sabão ordinário, as gillettes sem corte e o rude Inverno, que mal terminara.

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“A casa do incesto”, de Anaïs Nin

18.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

sonho

Escrito em 1949, este pequeno livro (conto) gira em torno de Sabina, personagem que reaparecerá nos romances da escritora, por exemplo “Uma Espia na Casa do Amor”. Sabina é inspirada em June Miller, segunda mulher de Henry Miller, e que inspirou a este último a sua Mona, personagem de, entre outros, “Trópico de Câncer” e “Sexus”.
Esta enigmática mulher, corrupta e obscura em Miller, é, em Anaïs Nin uma heroína, autêntica beauty queen descrita e vivida com toda a beleza e sensibilidade.
(Do blogue, Camel & Coca Cola)

A minha primeira visão da terra foi através da água. Pertenço à raça de homens e mulheres que olham todas as coisas através desta cortina de mar e os meus olhos são a cor da água.
Olhava com olhos de camaleão a face mutável do mundo e considerava anonimamente o meu ser incompleto.
Lembro o meu primeiro nascimento na água. À minha volta a transparência sulfurosa e os meus ossos moviam-se como se fossem de borracha. Oscilo e flutuo nas pontas sem ossos dos meus pés atenta aos sons distantes, sons para além do alcance de ouvidos humanos, vejo coisas que são para além do alcance dos olhos. Nasço cheia das memórias dos sinos da Atlântida. Sempre à espera de sons perdidos e à procura de perdidas cores, permanecendo para sempre no limiar como alguém perturbado por recordações, corto o ar a passo largo com largos golpes de barbatana e nado através de quartos sem paredes. Expulsadas de um paraíso de ausência de som, catedrais ondulam à passagem de um corpo, como música sem som.
Esta Atlântida só podia ser novamente encontrada à noite pelo caminho do sonho. Logo que o sono cobria a rígida cidade nova e a rigidez do novo mundo, abriam-se os portais mais pesados deslizando em gonzos oleados e entrava-se na ausência de voz que pertence ao sonho. Era o terror e a alegria de homicídios conseguidos em silêncio, um silêncio de calhas e de escovas. O lençol de água cobrindo tudo e abafando a voz. E um monstro trouxe-me, por acaso, à superfície.
Perdida dentro das cores da Atlântida, cores que vão dar a outras e se misturam sem fronteiras. Peixes feitos de veludo, de organdi com dentes de rendas, feitos de tafetá, recamados de lantejoulas, peixes de seda e penas e plumas, com flancos lacados e olhos de cristal de rocha, peixes de couro curtido com olhos de groselha, olhos como o branco de um ovo. Flores palpitando-lhes nas hastes como corações de mar. Nenhum deles sentindo o seu próprio peso, o cavalo marinho movendo-se como uma pena…
Era como um longo bocejo. Eu amava a facilidade e a cegueira e as mansas viagens na água transportando-nos através de obstáculos. A água estava ali para nos transportar como um abraço gigante; havia sempre a água para nos repousar, e que nos transmitia as vidas e os amores, as palavras e os pensamentos.
Eu dormia muito abaixo do nível das tempestades. Movia-me dentro da cor e da música como dentro de um diamante-mar. Não havia correntes de pensamentos, apenas a carícia-fluxo-desejo misturando-se, tocando, afastando, vagueando — no abismo infinito da paz.
Não me lembro de ali estar frio, nem calor. Nenhuma dor provocada pelo frio ou pelo calor. A temperatura do sono, sem febre e sem arrepio. Não me lembro de ter tido fome. Era-se alimentado através de poros invisíveis. Não me lembro de ter chorado.
Sentia apenas a carícia de mover-me — de passar para um outro corpo — absorvida e perdida dentro da carne de outrem, embalada pelo ritmo da água, pela lenta palpitação dos sentidos, pelo deslizar de seda.
Amando sem consciência, movendo-me sem esforço, numa corrente branda de água e de desejo, respirando num êxtase de dissolução.
Acordei de madrugada, atirada para uma rocha, esqueleto de um barco sufocado nas suas próprias velas.
(Tradução de Isabel Hub Faria – Edição, Assírio & Alvim)

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“O general no seu labirinto”, de Gabriel García Márquez

04.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

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“O general no seu labirinto”, é uma obra de Gabriel García Márquez, retratando os últimos dias do General Simón Bolívar – O Libertador.
O general é apresentado como doente, enfraquecido, embora portador de um passado deveras poderoso e cheio de glória. Seu corpo físico está morrendo, mas seu espírito mostra-se enérgico. Acompanhado de José Palácios, mordomo fiel a servi-lo sem questionar suas ordens, parte da Venezuela rumo à Europa, para deixar finalmente sua pátria. Após muito fugir do povo (uns o chamam de volta ao poder, outros o injuriam), do tempo, e de si mesmo, abandona esta vida rodeado de fiéis companheiros de guerra e de vida.

José Palácios, o seu servidor mais antigo, encontrou-o a flutuar nas águas depurativas da banheira, nu e com os olhos abertos, e julgou que se tinha afogado. Sabia que aquela era uma das suas muitas formas de meditar, mas o estado de êxtase em que jazia à deriva parecia o de alguém que já não era deste mundo. Não se atreveu a aproximar-se, mas chamou-o em voz baixa de acordo com a ordem de o acordar antes das cinco horas para viajar com as primeiras luzes. O general emergiu do encantamento, e viu na penumbra os olhos azuis e diáfanos, o cabelo encrespado cor de esquilo, a majestade impávida do seu mordomo de todos os dias segurando na mão a xícara com a infusão de papoilas com goma. O general agarrou-se sem forças às pegas da banheira, e surgiu das águas medicinais com um ímpeto de golfinho que não era de esperar num corpo tão enfezado.
— Vamos — disse. — Voando, que aqui ninguém nos quer.
José Palácios tinha-o ouvido dizer isto tantas vezes e em ocasiões tão diferentes, que ainda não pensou que fosse verdade, apesar das recuas estarem preparadas nas cavalariças e a comitiva oficial começar a reunir-se. Ajudou-o a secar-se de qualquer maneira, e colocou-lhe o capote dos paramos sobre o corpo nu, porque a xícara abanava com o tremor das suas mãos. Meses antes, ao vestir uma calças de pele de camurça que não usava desde as noites babilónicas de Lima, ele tinha descoberto que à medida que perdia peso, ia diminuindo de estatura. Até a sua nudez era diferente, pois tinha o corpo pálido e a cabeça e as mãos como que crestadas pelo excesso de exposição à intempérie.
Tinha feito quarenta e seis anos no último mês de Julho, mas já os seus ásperos cabelos caribenhos se haviam tornado cinzentos e tinha os ossos desconjuntados pela decrepitude prematura, e todo ele se apresen-tava tão abatido que não parecia capaz de perdurar até ao Julho seguinte. No entanto, os seus gestos decididos pareciam ser de alguém menos danificado pela vida, e caminhava sem parar à volta de nada. Bebeu a tisana em cinco sorvos ardentes que por pouco não lhe empolaram a língua, fugindo dos seus próprios rastos de água, nas esteiras esfiapadas do chão, e foi como se bebesse o filtro da ressurreição. Mas não disse uma palavra enquanto não soaram as cinco horas na torre da catedral próxima.
Sábado, oito de Maio do ano trinta, dia da Santíssima Virgem, Medianeira de Todas as Graças — anunciou o mordomo. — Está a chover desde as três da madrugada.
Desde as três da madrugada do século dezassete — disse o general com a voz ainda perturbada pelo hálito acre da insónia. E acrescentou a sério: — Não ouvi os galos.
Aqui não há galos — disse José Palácios.
Não há nada — disse o general. — É terra de infiéis.
(…)

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“Os Sensos Incomuns”, de Maria Isabel Barreno

24.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Publicado originalmente em 1993, este livro de contos foi galardoado no ano da sua publicação com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco e Grande Prémio do Conto da Associação Portuguesa de Escritores, e, em 1994, com o Prémio P.E.N. Clube, na categoria de ficção.

Começou a ler o livro num sábado de manhã. Um amigo seu tinha-lho recomendado. Belíssimo, dissera, há uma personagem feminina comovente, linda, tão misteriosa que é uma presença quase ténue, no livro, um fio de existência feito só de indícios, e de súbito reparamos que a personagem se instalou em nós, no coração, no ar que respiramos. Como se tivesse saltado das páginas do livro, literalmente, repetia o amigo, como se tivesse saído do livro e o seu destino viesse fundir-se ao nosso quotidiano.
Ele confiava na opinião daquele amigo. Gostava de passar os fins-de-semana de Inverno em casa, estirado no sofá da sala, lendo. Por isso sexta-feira à tarde foi comprar o livro antevendo com volúpia todo o desenrolar do processo: sair da livraria sentindo o livro nas mãos (era absolutamente impossível pedir emprestado um livro quando se tratava de saboreá-lo), desfazer o embrulho em casa, devagar, cheirar o livro (adorava o cheiro dos livros novos), mirar a capa dum lado e do outro, ler as badanas, deixar o livro pousado em cima da mesa da sala enquanto ia à cozinha preparar e comer o seu jantar (ele vivia sozinho); voltar à sala, olhar o livro de longe, aguçando o desejo; quase ceder à tentação de começar imediatamente a ler; resistir, aguçar ainda mais o desejo, decidir não, hoje à noite vou sair, amanhã sim. E o sábado chegou com uma cor amarela, cor da alegria, apesar de estar um dia chuvoso.
Começou a ler o livro sábado de manhã. Leu as primeiras vinte páginas com avidez. Sim aí estava ela, a tal comovente e ténue personagem feminina, fio secreto de todo o enredo. Era uma obra de arte, finamente cinzelada nas entrelinhas, entrevista, prometida. Prometido o encontro, leu mais vinte páginas, a inevitável desvelação não se anunciava mais próxima. A mulher entrara na sua pele como a mais insidiosa das amantes, mas permanecia feita só de obcecantes indícios, ameaçadoramente esfíngica. As páginas seguintes foram-se tornando progressivamente torturantes, cansativas, frustrantes. Corpo feito de entrelinhas, a mulher nada oferecia, revelava-se, recusava-se. Um jogo, infindo de coqueteria, um baixar de olhos, de pálpebras.

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“O Vermelho e o Negro”, de Stendhal

12.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

A ação transcorre na França no tempo da Restauração antes da Revolução de 1830, supostamente entre 1826 e 1830, e trata das tentativas de um jovem de subir na vida, apesar do seu nascimento plebeu, através de uma combinação de talento, trabalho duro, engano e hipocrisia, apenas para encontrar-se traído por suas próprias paixões. Em ensaio de 1954, Somerset Maugham incluiu-o entre os dez maiores romances de todos os tempos.

Verrières pode ser considerada uma das mais lindas cidades do Franco Condado. As suas casas brancas, com os pontiagudos telhados vermelhos, estendem-se pelo declive de uma colina em que as sinuosidades são marcadas por maciços de vigorosos castanheiros. O Doubs corre a algumas dezenas de metros abaixo das suas fortificações, construídas outrora pelos Espanhóis e hoje em ruínas.
A pequena cidade está abrigada do norte por uma montanha alta, um dos contrafortes do Jura. Os cumes recortados do Verra cobrem-se de neve com os primeiros frios de Outubro. Uma torrente, que se precipita da montanha, atravessa Verrières, antes de se lançar no Doubs, e põe em movimento um grande número de serrações de madeira. É uma indústria simples e que proporciona um certo bem-estar à maior parte dos habitantes, mais campónios que citadinos. Contudo, não foi esta indústria que enriqueceu aquela cidadezita. À fábrica de chitas, chamadas de Mulhouse, se deve a abastança geral que, desde a queda de Napoleão, tornou possível a reconstrução das fachadas de quase todas as casas de Verrières.
Mal se entra na cidade fica-se aturdido pelo estrépito de uma máquina barulhenta e de aparência terrível. Vinte pesados martelos, tombando com um estrondo que faz tremer o pavimento, são erguidos por uma roda movida pela água da torrente. Cada um fabrica por dia não sei quantos milhares de pregos. São lindas e frescas raparigas quem coloca debaixo destes enormes martelos os bocaditos de ferro que são rapidamente transformados em pregos. Este trabalho, de aparência tão rude, é um dos que causam mais admiração ao viajante que vai pela primeira vez às montanhas que separam a França da Helvécia. 
Se, ao entrar em Verrières, perguntar a quem pertence a bela fábrica de pregos que ensurdece as pessoas que sobem a Grande Rua, responder-lhe-ão com uma entoação arrastada: «Ah! É do senhor presidente da Câmara.»

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A Demanda do Santo Graal

03.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Em língua portuguesa medieval se preserva um manuscrito da Demanda do século XV, resultado de uma adaptação do texto francês da Post-Vulgata. A obra é uma das mais importantes da prosa novelística da literatura medieval portuguesa. O texto original em francês da Demanda não foi preservado intacto, e o manuscrito português tem importância excepcional por ser o mais completo entre todas as versões da Post-Vulgata existentes.
Atualmente o manuscrito sobrevive numa cópia do século XV preservada na Biblioteca Nacional de Viena. Indícios históricos e linguísticos no texto indicam que a tradução original foi feita ainda no século XIII, durante o reinado de Afonso III. A versão portuguesa foi utilizada como fonte para a versão em castelhano da Demanda, atualmente preservada numa edição já renascentista, do século XVI.
(Wikipédia)

Véspera de Pentecostes, houve muita gente reunida em Camalote, de tal modo que se pudera ver muita gente, muitos cavaleiros e muitas mulheres de muito bom parecer. O rei, que estava por isso muito alegre, honrou-os muito e fez servi-los muito bem e toda coisa que entendeu
que tornaria aquela corte mais satisfeita e mais alegre, tudo mandou fazer.

Aquele dia que vos digo, exactamente quando queriam pôr as mesas — isto era hora de noa —, aconteceu que uma donzela chegou muito formosa e muito bem vestida; e entrou no paço a pé, como mensageira. Ela começou a procurar de uma parte e de outra pelo paço; e pergunta-ram-lhe o que buscava.

– Busco, disse ela, Dom Lancelote do Lago. Está aqui?

– Sim, donzela, disse um cavaleiro. Vede-o: está naquela janela falando com Dom Galvão.

Ela foi logo para ele e saudou-o. Ele, assim que a viu, recebeu-a muito bem e abraçou-a, porque aquela era uma das donzelas que moravam na ilha da Lediça a quem a filha Amida do rei Peles amava mais que a donzela da sua companhia.

– Ai, donzela! disse Lancelote, que ventura vos trouxe aqui? Que bem sei que sem razão não viestes.

– Senhor, verdade é; mas rogo-vos, se vos aprouver, que vades comigo àquela floresta de Camalote; e sabei que amanhã, à hora de comer, estareis aqui.

- Certamente, donzela, disse ele, muito me agrada, pois tenho obrigação de vos servir em tudo que puder.

Então pediu suas armas. E quando o rei viu que se fazia armar com tanta pressa, dirigiu-se a ele com a rainha e disse-lhe:
- Como? Deixar-nos quereis em tal festa, quando cavaleiros de todo o mundo vêm à corte, e muito mais ainda por vos verem que por outro motivo: uns para vos verem, e outros por terem vossa companhia? 
- Senhor, disse ele, não vou senão a esta floresta, com esta donzela que me pediu, mas amanhã, à hora de terça, estarei aqui.

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“O Patriota”, de Pearl S. Buke

22.01.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Filha de pais missionários presbiterianos, aos 3 anos de idade, em 1892, foi levada pelos pais para a China, onde foi criada. A China marcou-a e evoca a cultura chinesa na maioria de suas obras.
Mestre em Literatura pela Universidade de Cornell em 1926, escreveu mais de 110 livros e várias novelas de rádio. Recebeu o Prémio Pulitzer em 1932 e o Nobel de Literatura em 1938.
Publicado em 1939, O Patriota descreve o processo de amadurecimento emocional de um estudante universitário, cujo idealismo é destruído pela brutalidade da guerra. Wu, com efeito, filho de um poderoso banqueiro de Xangai, deixa-se, em dado momento, contagiar pelas ideias revolucionárias e acaba por aderir ao Partido Comunista Chinês.

No ano décimo-quinto da República Chinesa (ano ocidental de 1926), vivia, na cidade de Xangai, um rice banqueiro, chamado Wu, que tinha dois filhos.
Wu era director do Grande Banco da China, com filiais em todas as cidades do centro e do sul da República. Fundara esse Banco, que se tornara tão importante sob o novo regime, ao regressar de uma viagem pelo Japão e pela Europa, empreendida, quando ainda muito novo, para estudar o assunto.
O pai, o velho general Wu, só se preocupava com Bancos, como militar, quando a guerra, em que aliás nunca tomara parte, fazia sentir a necessidade de dinheiro. Durante a última dinastia Manchu, fora mandado, com outros rapazes, para o estrangeiro. Os pais ficaram desolados com a ideia dessa viagem, sobretudo a mãe, cujas lágrimas e a recusa formal de tomar alimento levaram o imperador a permitir, por um decreto especial, que Wu ficasse junto dela, até que lhe desse um neto. Só quando lhe puseram nos velhos braços uma criancinha vermelha que acabava de nascer, a vagir, e que veio a ser este banqueiro, é que ela se conformou com a ideia de ver partir o filho, o futuro general Wu, então um belo e impetuoso rapaz de dezoito anos.
Isto passou-se durante os breves anos em que a casa reinante parecia querer reformar o velho e obsoleto exército chinês. Mas essas reformas nunca foram além do projecto. Todos sabiam que a poderosa e enérgica imperatriz-mãe dirigia o fraco filho e anulava as suas tentativas. O facto é que o general Wu, ao fim de menos de dois anos, viu-se em Berlim sem dinheiro. O pai mandou-lhe o necessário para o regresso e o jovem militar teve a demonstração prática do valor dos Bancos. Os banqueiros, concluiu ele, é que dirigem as nações e não os imperadores ou os reis. E fixou desde logo o plano de encaminhar o filho, então com dois anos, para a carreira bancária, plano que lhe foi dado realizar.
O vapor que o conduzia a Xangai ainda não atracara, quando o pai faleceu. A mãe, sem forças para lhe sobreviver, suicidou-se, engolindo os anéis de ouro e jade.
O general Wu, filho único, tornou-se então o chefe da família Wu, senhor de uma grande fortuna, de casas e terras ancestrais, na longínqua província de Hunan.

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“A casa dos espíritos” – Isabel Allende

09.01.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Romance de Isabel Allende, publicado em 1982, que retrata a saga da família Trueba, no Chile, ao longo do século XX. É constituído por catorze capítulos e um epílogo. A ação da obra reflete o momento revolucionário do Chile, terminado com o golpe militar de 1973, que veio a derrubar o presidente Salvador Allende. A história é narrada por três personagens: Esteban Trueba, a sua mulher, Clara, e a neta do casal, Alba. Baseado neste best-seller de Isabel Allende, surgiu, em 1993, um filme com o mesmo nome do livro, dirigido por Billie August. Tem a participação de grandes atores, tais como Jeremy Irons, desempenhando o papel de Esteban Trueba; Meryl Streep, como Clara; Glenn Close, no papel de Férula; Winona Ryder, como Blanca; Antonio Banderas, como Pedro.
(Wikipédia)

«Barrabás chegou à família por via marítima», anotou a menina Clara com a sua delicada caligrafia. Já nessa altura tinha o hábito de escrever as coisas importantes e, mais tarde, quando ficou muda, escrevia também as trivialidades, sem suspeitar que cinquenta anos depois os seus cadernos me iriam servir para resgatar a memória do passado e sobreviver ao meu próprio espanto. O dia em que chegou Barrabás era Quinta-Feira Santa. Vinha numa jaula indigna, coberto dos próprios excrementos e de urina, com um olhar extraviado de preso miserável e indefeso, adivinhando-se, porém, pelo porte real da cabeça e pelo tamanho do esqueleto o gigante lendário que veio a ser. Era uma dia aborrecido e outonal, que em nada fazia imaginar os acontecimentos que a menina registou para serem recordados e que ocorreram durante a missa das doze, na paróquia de San Sebastián, à qual assistiu com toda a família. Em sinal de luto, os santos estavam tapados com panos roxos que as beatas sacudiam anualmente no arcaz da sacristia e, por baixo dos lençóis de luto, a corte celestial parecia um amontoado de móveis esperando mudança, sem que as velas, o incenso ou os gemidos do órgão pudessem contrastar com esse lamentável efeito. Erguiam-se vultos ameaçadores no lugar dos santos de corpo inteiro, com rostos idênticos, de expressão enjoada, com complicadas cabeleiras de cabelo de morto, rubis, pérolas, esmeraldas de vidro pintado e vestuário de nobres florentinos. O único favorecido com o luto era o padroeiro da igreja, São Sebastião, porque, na Semana Santa, reservava para os fiéis o espectáculo do seu corpo torcido numa posição indecente, atravessado por meia dúzia de flechas, escorrendo sangue e lágrimas, como um homossexual sofredor, cujas chagas, milagrosamente frescas graças ao pincel do padre Restrepo, faziam Clara estremecer de nojo.
Era uma longa semana de penitência e jejum, não se jogava às cartas, não se tocava música que incitasse à luxúria e ao esquecimento, observava-se, na medida do possível, a maior tristeza e castidade, apesar de, justamente nesses dias, o aguilhão do demónio tentar com maior insistência a débil carne católica. O jejum consistia em tenros pastéis de massa folhada, saborosos guisados de legumes, fofas tortilhas e grandes queijos trazidos do campo, com que as famílias recordavam a Paixão do Senhor, tendo o cuidado de não provar o mais pequeno pedaço de carne ou de peixe, sob pena de excomunhão, como dizia, insistindo, o padre Restrepo. Ninguém se atreveria a desobedecer-lhe.

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“O Corsário dos Sete Mares”, de Diana Barroqueiro

29.12.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Fernão Mendes Pinto é o exemplo vivo do aventureiro português do século XVI, que embarcava para o Oriente com o fito de enriquecer. Curioso, inteligente, ardiloso e hábil, capaz de todas as manhas para sobreviver, vai tornar-se num homem dos sete ofícios, sendo embaixador, mercador, médico, mercenário, marinheiro, descobridor e corsário dos sete mares – Roxo, da Arábia, Samatra, China, Japão, Java e Sião – por onde, durante vinte anos, navegou e naufragou, ganhou e perdeu verdadeiros tesouros, fez-se senhor e escravo, amou e foi amado, temido e odiado.
(…)
Em sete mares se divide o romance, por onde o leitor, na pele das personagens, fará uma intrigante viagem no Tempo, ao encontro de si próprio e de mundos e povos antigos, tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes, uma peregrinação na busca incessante de fortuna, encarnada na demanda da mítica Ilha do Ouro.

Carta d’el-rei D. Manuel I ao Papa Leão X:
(…) Com a ajuda de Deus, descobrimos aquele poderosíssimo chefe dos índios e etíopes cristãos, o Preste João, senhor da Província da Abissínia. (…) Nossos antepassados esforçaram-se por descobrir novas terras, mais para benefício da cristandade do que em proveito próprio; nós, seguindo seus passos, fomos melhor afortunados do que eles e descobrimos a índia e muitas outras províncias. A nós coube unirmo-nos com este grande e poderoso príncipe, que muito desejava nossa amizade e aliança e há alguns anos enviou um embaixador com cartas e presentes e um bocado do lenho da verdadeira cruz.
(…) Finalmente a nossa armada chegou agora às praias e portos do Preste João, e depois de ter sabido alguma cousa daquela gente e distrito, tanto quanto o permitia a brevidade do tempo, e assinar um tratado, e enviar ao Preste João seu próprio embaixador com alguns dos nossos homens, para investigar devidamente os costumes, religião e outros particulares da província. (…)
Lisboa, 8 de Maio de 1521
Dezasseis anos tinham passado sobre a carta jubilosa acima transcrita, que el-rei D. Manuel enviara ao Papa Leão X com a notícia da descoberta do reino do Preste João das índias, pouco tempo antes da morte de ambos e da chegada a Lisboa de Fernão Mendes Pinto, aos dez anos de idade. Se, então, alguém lhe tivesse dito que haveria de visitar o encoberto imperador cristão da Abássia, tomá-lo-ia como chiste ou zombaria, por lhe parecer coisa impossível, contudo, a realidade que se desdobra ante os seus olhos confirma-o.
Fernão sente nas costas a dureza redonda do mastro onde se apoiou, em busca da sombra protectora da vela, para contemplar à sua guisa Daqhano, o porto de Arquico, no mar Roxo, que se acerca velozmente
de encontro ao focinho da Silveira. Com a fusta a correr sobre as ondas como um corcel em campo aberto, reconhece quão grande era a sua ignorância das coisas do Oriente que, ao ver pela primeira vez aquele tipo de embarcação à sua chegada a Diu, o levara a desdenhá-la por lhe parecer fraca e perigosa.

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“Afrodite”, de Isabel Allende

15.12.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Depois de se arrepender de todas as guloseimas que rejeitou por vaidade e as oportunidades de fazer amor que rechaçou por atitude puritana ou outros compromissos, a escritora chilena Isabel Allende tenta redimir-se com seu livro Afrodite: contos, receitas e outros afrodisíacos. A escritora, famosa por romances como A casa dos espíritos e De amor e de sombras, conta as coisas que aconteceram em sua vida de nómada com doses cavalares de fantasia. E assim, nas suas obras, desfilam avós etéreas que se comunicam com fantasmas, tias virando anjos e tios que decidem que é melhor ser faquir, dentre outras personagens, que seriam membros da sua família.

Arrependo-me das dietas, dos pratos deliciosos rejeitados por vaidade, tanto como lamento as ocasiões de fazer amor que deixei passar por estar ocupada em tarefas pendentes ou por virtude puritana. Passeando pelos jardins da memória, descubro que as minhas recordações estão associadas aos sentidos. A minha tia Teresa, a que se foi transformando em anjo e morreu com indícios de asas nos ombros, está para sempre ligada ao cheiro dos rebuçados de violeta. Quando esta dama encantadora aparecia de visita com o seu vestido cinzento e a sua cabeça de rainha coroada de neve, nós as crianças corríamos ao seu encontro e ela abria com gestos rituais a sua velha mala, sempre a mesma, tirava uma pequena caixa de lata pintada e dava-nos um rebuçado cor de malva. E a partir de então, todas as vezes que o aroma inconfundível de violetas se insinua no ar, a imagem dessa tia santa, que roubava flores nos jardins alheios para levar aos moribundos do hospital, regressa intacta à minha alma. Quarenta anos depois eu soube que era esse o selo de Josefina Bonaparte, que confiava cegamente no poder afrodisíaco daquele aroma fugidio que tão depressa assalta com uma intensidade quase nauseabunda, como desaparece sem deixar rasto para logo voltar com renovado ardor. As cortesãs da Grécia antiga usavam-no antes de cada encontro amoroso para perfumar o hálito e as zonas erógenas, porque misturado com o odor natural da transpiração e as secreções femininas, alivia a melancolia dos mais velhos e agita de forma insuportável o espírito dos homens novos. No Tantra, filosofia mística e espiritual que exalta a união dos opostos em todos os planos, desde o cósmico até ao mais ínfimo, e na qual o homem e a mulher são espelhos de energias divinas, o violeta é a cor da sexualidade feminina, e por isso o adoptaram alguns movimentos feministas. O cheiro penetrante do iodo não me traz imagens de cortes ou cirurgias, mas sim de ouriços, essas estranhas criaturas do mar inevitavelmente relacionadas com a minha iniciação no mistério dos sentidos. Tinha eu oito anos quando a mão rude de um pescador pôs uma língua de ouriço na minha boca. Quando vou ao Chile, procuro a oportunidade de ir à costa para provar novamente ouriços recém-extraídos do mar, e de todas as vezes me oprime a mesma mistura de terror e fascínio que senti naquele primeiro encontro íntimo com um homem. Os ouriços são para mim inseparáveis desse pescador, do seu saco escuro de mariscos a escorrer água do mar e o meu despertar para a sensualidade.

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“Peregrinação” – Fernão Mendes Pinto

01.12.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Fernão Mendes Pinto, na “Peregrinaçã” (publicada postumamente em 1614) deixou-nos um relato tão fantástico do que viveu, que durante muito tempo não se acreditou na sua veracidade; de tal modo que até se fazia um jocoso dito com o seu nome: Fernão Mendes Minto, ou então ainda: Fernão, mentes? Minto! 
Esta ideia de que o que contava era demasiado fantasioso para poder ter-lhe realmente acontecido parte do princípio que se pode julgar um texto do séc. XVI com os critérios de hoje, mas na verdade o texto é uma inestimável fonte de informação para conhecermos o que sucedia aos navegadores e aventureiros que iam a caminho do extremo-oriente nas caravelas portuguesas, mesmo que nem todas essas coisas tenham acontecido realmente a Fernão Mendes Pinto e que ele tenha compilado alguns relatos que ouviu durante a sua vida de aventuras.

Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade, e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome, e de grande glória: porque vejo que não contente de me pôr na minha pátria, logo no começo da minha mocidade, em tal estado, que nela vivi sempre em misérias e em pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigos da vida, me quis também levar às partes da índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas, me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos.
Mas por outra parte quando vejo que, do meio de todos estes perigos e trabalhos, me quis Deus tirar sempre em salvo, e pôr-me em seguro, acho que não tenho tanta razão de me queixar por todos os males passados, quanta de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida, para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura, que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha tenção escrevê-la) para que eles vejam nela estes meus trabalhos, e perigos da vida que passei no discurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo, e dezassete vendido, nas partes da índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra, e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos confins da Ásia, a que os escritores Chins, Siamês, Gueus e Léquios nomeiam nas suas geografias por pestana do mundo, como ao diante espero tratar muito particular e muito difusamente, e daqui por uma parte tomem os homens motivo de se não desanimarem com os trabalhos da vida, para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana ajudada do favor divino, e por outra me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente, por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos os meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças, e o ânimo para os poder passar, e escapar deles com vida.

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“Pantagruel” de, Rabelais

24.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Françhois Rabelaiche (Chinon, 1494 — Paris, 9 de abril de 1553) escritor, padre e médico francês do Renascimento, que usou, também, o pseudónimo Alcofribas Nasier (um anagrama de seu verdadeiro nome).
Ficou para a posteridade como o autor das obras primas cómicas Pantagruel e Gargântua, que exploravam lendas populares, farsas, romances, bem como obras clássicas. O escatologismo é usado para condenação humorística. A exuberância da sua criatividade, do seu colorido e da sua variedade literária asseguram a sua popularidade.

Já que nos sobeja o tempo, não será de todo inútil nem ocioso revelar a origem e extracção do bom Pantagruel. Foi assim que, nas suas crónicas, procederam todos os bons historiógrafos, não só árabes, bárbaros e latinos, mas também gregos, que foram borrachos de primeira, e os autores das Santas Escrituras, S. Lucas e S. Mateus.
Sabei pois que, nos alvores do mundo (quer dizer há mais de quarenta quarentenas de noites, se contarmos como os antigos druidas), pouco depois de Abel ter sido morto por seu irmão Caim, a terra, regada com o sangue do justo, vicejou e floresceu como um vero paraíso. Dos seus flancos, cresciam todas as árvores e havia fruta a dar com um pau. Sobretudo nêsperas. Dessa época ficou o dizer-se «ano das nêsperas gordas», porque três pesavam um alqueire.
Nesse ano também se descobriram as calendas nos breviários dos gregos, e viu-se então que Março calhava na quaresma e os meados de Agosto em pleno mês de Maio. Em Outubro, se bem me lembro, ou em Setembro, se não me engano (Deus me livre!) correu a semana ditosa entre as ditosas, tão afamada nos anais e hoje conhecida pela semana dos nove dias, porque o ano era bissexto: o sol desandou da direita para a canhota, a lua mudou de cinco toesas o seu curso e viu-se perfeitamente o tremelicar das estrelas fixas no firmamento. Foi então que uma das Três Marias, mandando as outras à fava, deu uma carreirinha até o Equinócio e a Espiga deixou a Virgem para se encafuar na Balança. Foram coisas tão pasmosas, tão terríveis e difíceis que os astrólogos quedaram estarrecidos, sem poderem meter o dente em tão especiosa matéria. De resto, só com dentes de cavalo chegariam até lá.
Sabei pois que o mundo inteiro apanhava grandes barrigadas de nêsperas, porque eram lindas de se verem e gostosas ao paladar. Mas, tal como Noé, santo entre os santos a quem devemos a plantação da vinha de onde nos vem este licor deleitável, delicioso, precioso, celestial e divino que se chama vinho, foi enganado ao bebê-lo, ignorante da sua virtude e força, as mulheres e os homens desse tempo empanzinaram-se à porfia com esse belo e sumarento fruto. O que foi motivo de muitas e diversas moléstias, sendo a mais importante um horrível inchaço nas partes mais inesperadas do corpo.

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“Ensaio sobre a lucidez” de José Saramago.

18.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Num país qualquer, num dia chuvoso, poucos eleitores compareceram para votar, durante a manhã. As autoridades eleitorais, preocupadas, chegaram a supor que haveria uma abstenção gigantesca. À tarde, quase no encerramento da votação, centenas de milhares de eleitores compareceram aos locais de votação. Formaram-se filas quilométricas, e tudo pareceu normal. Mas, para desespero das autoridades eleitorais, houve quase setenta por cento de votos em branco. Uma catástrofe. Evidentemente que as instituições, partidos políticos e autoridades, haviam perdido a credibilidade da população. O voto em branco fora uma manifestação inocente, um desabafo, a indignação pelo descalabro praticado por políticos pertencentes aos partidos da direita, da esquerda e do meio. Políticos de partidos diferentes, mas de atuações iguais, usufruindo de privilégios que afrontavam a população. Os eleitores estavam cansados, revoltados.(Wikipédia)

Mau tempo para votar, queixou-se o presidente da mesa da assembleia eleitoral número catorze depois de fechar com violência o guarda-chuva empapado e despir uma gabardina que de pouco lhe havia servido durante o esbaforido trote de quarenta metros desde o lugar onde havia deixado o carro até à porta por onde, com o coração a saltar-lhe da boca, acabava de entrar. Espero não ter sido o último, disse para o secretário que o aguardava um pouco recolhido, a salvo das bátegas que, atiradas pelo vento, alagavam o chão. Ainda falta o seu suplente, mas estamos dentro do horário, tranquilizou o secretário, A chover desta maneira será uma autêntica proeza se cá chegarmos todos, disse o presidente enquanto passavam à sala onde se realizaria a votação. Cumprimentou primeiro os colegas da mesa que actuariam como escrutinadores, depois os delegados dos partidos e seus respectivos suplentes. Teve o cuidado de usar para todos as mesmas palavras, não deixando transparecer na cara nem no tom de voz quaisquer indícios que permitissem perceber as suas próprias inclinações políticas e ideológicas. Um presidente, mesmo de uma assembleia eleitoral tão comum como esta, deverá guiar-se em todas as situações pelo mais estrito sentido de independência, ou, por outras palavras, guardar as aparências.

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“Naná” de Émile Zola

11.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Integrante de um ciclo de vinte romances, “Naná” descreve a trajetória da filha de uma lavadeira que, corrompida na adolescência, transforma-se na mais poderosa cortesã do Segundo Império francês. Escrito em 1880, provavelmente este seja o romance mais popular de Émile Zola, e um dos perfis de mulher mais explorados pelo cinema e pela literatura.

Às nove horas a plateia do Teatro das Variedades estava ainda vazia. Alguns espectadores, no balcão e na orquestra, esperavam, como que tresmalhados por entre as poltronas de veludo vermelho, na branca claridade do lustre a meia-luz. Uma sombra inundava a grande mancha vermelha do pano; e nem um ruído chegava da cena, estando a ribalta às escuras e as estantes dos músicos esbandalhadas. Somente em cima, no galinheiro, em redor da rotunda do tecto onde mulheres e crianças nuas tomavam o seu voo num céu averdungado pelo gás, os chamamentos e os risos sobressaíam por entre um falazar contínuo, e cabeças entoucadas ou embarretadas se mostravam, como que dispostas em degraus, sob as largas clarabóias redondas, de molduras douradas.
Por momentos aparecia uma arrumadora, azafamada, de bilhetes na mão, conduzindo na sua frente um cavalheiro acompanhado de uma senhora, que se sentavam, o homem de casaca, a senhora elegante e esbelta, olhando a sala com lentidão. Na orquestra, apareceram dois jovens. Conservaram-se de pé, observando.
— Não te dizia eu, Heitor — exclamou o mais velho dos dois, um rapagão de bigode negro — que chegávamos muito cedo?… Mais valera que me tivesses deixado acabar o meu charuto.
Passava uma arrumadora.
Oh! senhor Fauchery — disse ela familiarmente. — Isto não vem a principiar antes de meia hora.
Nesse caso, porque anunciam eles para as nove horas? — murmurou o Heitor, cujo rosto magro e comprido tomou uma expressão aborrecida. — Ainda esta manhã, a Clarisse, que entra na peça, me garantiu que principiaria às nove em ponto.
Calaram-se um momento, levantando a cabeça e perscrutando a sombra dos camarotes.

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“As Mil e Uma Noites”

03.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

As histórias que compõe as Mil e uma noites tem várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe uma versão definida da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como uma série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando-as matar na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites – as mil e uma do título – ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.
(Wikipédia)

Conta-se — mas Alá é mais sábio e justo, mais poderoso e bom — que, quando decorria a antiguidade do tempo e o passado da idade e do momento, havia nas ilhas da índia e da China, um rei dos reis de Sássan. Era senhor de muitos exércitos, ministros, servidores, e numeroso séquito. Tinha dois filhos, um mais velho e outro mais novo. Eram ambos heróicos cavaleiros; mas o mais velho era mais valoroso que o mais novo. Reinou este mais velho naqueles países, governando os homens com justiça; por isso os habitantes daquele país e reino o estimavam. E o nome dele era rei Schahriar. Quanto a seu irmão mais novo, o seu nome era rei Schahzaman e reinava em Samarcanda.
Mantendo-se este dito estado de coisas, ambos residiam em seus países; e, cada um em seu reino, foram os dois justos governantes de suas greis pelo espaço de vinte anos. E ambos o foram até ao limite do mais dilatado desenvolvimento.
E deste jeito se mantiveram ambos até ao dia em que o mais velho desejou ardentemente visitar o irmão mais novo. Ordenou então ao vizir que se pusesse a caminho e ali lhe trouxesse seu irmão. Ao que lhe respondeu o vizir: «Escuto e obedeço!»
E assim partiu, e com a graça de Alá, chegou em bem: entrou em casa do outro irmão e saudou-o com o saiam. Informou-o de que o rei Schahriar desejava ardentemente vê-lo e que o fim daquela sua viagem tinha como finalidade convidá-lo a visitar seu irmão mais velho. Tendo o rei Schahzaman respondido: «Escuto e obedeço!» Ordenou os preparativos da viagem, mandando que se aprontassem tendas, camelos, machos, servidores e ministros. Elevou depois o seu próprio vizir a governante do país e partiu em demanda das terras do irmão.
Mas ia a noite em meio, lembrou-se de uma coisa que no palácio lhe ficara esquecida e que vinha a ser o presente que destinava a seu irmão. E, voltando atrás, entrou no palácio. E achou a esposa deitada em sua cama, muito abraçada a um preto retinto, seu escravo.

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“O Nome da Rosa” de Umberto Eco

29.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Umberto Eco sugere n’O Nome da Rosa, um ambiente no qual as contradições, oposições, querelas e inquisições, no início do século XIV, justificam ações humanas, as virtudes e os crimes dos personagens, monges copistas de uma abadia cuja maior riqueza é o conhecimento de sua biblioteca. Para as personagens, a discussão do essencial e do particular, do espiritual e da realidade material, do poder secular e da insurreição, dos conceitos e das palavras entranham pelo mundo uma teia de inter-relações das mais conflituosas. A representação, a palavra e o texto escrito passam a ter uma importância vital na organização da abadia beneditina, gestando o microcosmo do narrador.

Era uma bela manhã de fim de Novembro. De noite tinha nevado um pouco, mas a fresca camada que cobria o terreno não era superior a três dedos. Às escuras, logo depois de laudas, tínhamos ouvido missa numa aldeia do vale. Depois tínhamo-nos posto a caminho para as montanhas, ao despontar o Sol.
Como trepávamos pelo carreiro íngreme que serpenteava em torno do monte, vi a abadia. Não me espantaram as muralhas que a cingiam por todos os lados, semelhantes a outras que vi em todo o mundo cristão, mas a mole daquilo que depois soube que era o Edifício. Esta era uma construção octogonal que à distância parecia um tetrágono (figura perfeitíssima que exprime a solidez e a inexpugnabilidade da Cidade de Deus), cujos lados meridionais se erguiam no planalto da abadia, enquanto os setentrionais pareciam crescer das próprias faldas do monte, nas quais se encaixavam a pique. Digo que em certos pontos, de baixo, parecia que a rocha se prolongava para o céu, sem solução de tons nem de matéria, e se tornava a certa altura um maciço torreão (obra de gigantes que tivessem grande familiaridade com a terra e com o céu). Três ordens de janelas diziam o ritmo ternário da sua elevação, de modo que aquilo que era fisicamente quadrado sobre a terra era espiritualmente triangular no céu. Ao aproximarmo-nos mais, percebia-se que a forma quadrangular gerava, em cada um dos seus ângulos, um torreão heptagonal, cujos cinco lados se adiantavam para o exterior — quatro portanto dos oito lados do octógono maior, gerando quatro heptágonos menores, que do exterior se manifestavam como pentágonos. E não há quem não veja a admirável concórdia de tantos números santos, revelando cada um um subtilíssimo sentido espiritual.

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António Skármeta – “O carteiro de Pablo Neruda”

19.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

O Carteiro de Pablo Neruda deu origem a duas versões cinematográficas sendo a segunda um estrondoso êxito. Filme realizado por Michael Radford sobre a amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda e um humilde carteiro que deseja aprender a fazer poesia.
Baseado no livro “Ardiente Paciencia” de Antonio Skármeta. O roteiro foi adaptado por Anna Pavignano, Michael Radford, Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli e Massimo Troisi que também interpretou o carteiro. Uma primeira versão do roteiro, feita por Troisi já havia sido realizada em 1983. O livro e a primeira versão do roteiro passavam-se  no Chile, por volta de 1970, quando Neruda vivia na Ilha Negra. Na segunda versão passa-se na Itália nos anos 50.
O Carteiro de Pablo Neruda é vencedor de um Oscar® da academia em 1996 tendo sido nomeado para 5 estatuetas.
(Wikipédia)

Em Junho de 1969 dois motivos tão afortunados como triviais levaram Mário Jiménez a mudar de ofício. Primeiro, o seu desamor pelas lides da pesca que o arrancavam da cama antes do amanhecer, e quase sempre quando sonhava com amores audaciosos, protagonizados por heroínas tão abrasadoras como as que via no écran do cinematógrafo de San António. Este talante, juntamente com a sua consequente simpatia pelas constipações, reais ou fingidas, com que se escusava em média todos os dias a preparar os apetrechos do bote do seu pai, permitia-lhe retouçar debaixo das nutridas mantas chilenas, aperfeiçoando os seus oníricos idílios, até o pescador José Jiménez voltar do mar, encharcado e faminto, e ele aliviava o seu complexo de culpa preparando-lhe um almoço de estaladiço pão, sediciosas saladas de tomate com cebola, mais salsa e coentros, e uma dramática aspirina que engolia quando o sarcasmo do seu progenitor o penetrava até aos ossos.
Arranja trabalho. – Era a concisa e feroz frase com que o homem concluía um olhar acusador, que podia durar até dez minutos, e que de qualquer modo nunca durou menos de cinco.
Sim, pai – respondia Mário, limpando as narinas com a manga do colete.
Se este motivo foi o trivial, o afortunado foi a posse de uma alegre bicicleta marca Legnano, valendo-se da qual Mário trocava todos os dias o diminuto horizonte da calheta dos pescadores pelo quase mínimo porto de San António, mas que em comparação com o seu casario o impressionava como faustoso e babilónico. A simples contemplação dos cartazes do cinema com mulheres de bocas turbulentas e duríssimos parentes de havanos mastigados entre dentes impecáveis, deixava-o num transe do qual só saía após duas horas de celulóide, para pedalar desconsolado de volta à sua rotina, às vezes sob uma chuva marítima que lhe inspirava épicas constipações. A generosidade do pai não chegava ao ponto de fomentar a moleza, de modo que vários dias da semana, falto de dinheiro, Mário Jiménez tinha de conformar-se com incursões às lojas de revistas usadas, onde ajudava a manusear as fotos das suas actrizes preferidas.
Foi num desses dias de desconsolada vagabundagem que descobriu um aviso na janela dos correios a que, apesar de estar escrito à mão e numa modesta folha de caderno de contas, matéria em que não se tinha distinguido durante a escola primária, não conseguiu resistir.
Mário Jiménez nunca tinha usado gravata, mas antes de entrar endireitou o colarinho da camisa como se tivesse uma e tentou, com algum êxito, disfarçar com duas passagens de pente a sua cabeleira, herdada de fotos dos Beatles.
– Venho pelo anúncio – declamou ao funcionário, com um sorriso que emulava o de Burt Lancaster.
– Tem bicicleta? – perguntou aborrecido o funcionário.
O seu coração e os lábios disseram em uníssono:
– Sim.
Bom – disse o empregado, limpando as lentes, – trata-se de um lugar de carteiro para a Ilha Negra.
– Que coincidência – disse Mário. – Eu vivo mesmo ao lado, na calheta.
– Ainda bem. Mas o que está mal é que só há um cliente.
– Um e mais ninguém?
– Sim, claro. Na calheta são todos analfabetos. Não sabem ler nem as contas.
– E quem é o cliente?
– Pablo Neruda.
Mário Jiménez engoliu o que lhe pareceu um litro de saliva.
– Mas esse é formidável.
– Formidável? Recebe quilos de correspondência todos os dias. Pedalar com a sacola às costas é o mesmo que levar um elefante aos ombros. O carteiro que o servia reformou-se marreco que nem um camelo.
– Mas eu tenho só dezassete anos.
– E és saudável?
– Eu? Sou de ferro. Nem uma constipação em toda a vida!
O funcionário deixou escorregar os óculos pela cana do nariz e fitou-o por cima do guichet.
– O salário é uma merda. Os outros carteiros ainda se arranjam com as gorjetas. Mas só com um cliente, mal te vai chegar para o cinema uma vez por semana.
– Quero o lugar.
– Está bem. Eu chamo-me Cosme.
– Cosme.
– Tens de dizer «Don Cosme».
– Sim, Don Cosme.
– Sou o teu chefe.

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“Evangelho segundo Jesus Cristo”, de José Saramago

14.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

O livro conta uma história humanizada da vida de Jesus e alude a uma sua eventual relação com Maria Madalena (no livro, foi com ela que Jesus “conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem”). Ao adoptar essa perspectiva, de humanização de Cristo, distante da representação tradicional do Evangelho e evidenciando o seu caráter frágil e vulnerável, Saramago coloca que a propagada histórica da crucificação de Jesus, “um revulsivo forte, qualquer coisa capaz de chocar as sensibilidades e arrebatar os sentimentos”, resultou na imposição de “uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas”, de acordo com a sua visão de mundo, segundo a qual “por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel”, e que, “no fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las”. Isso levou a que o livro fosse considerado ofensivo por diversos sectores da comunidade católica, a que ele sofresse perseguição religiosa em seu próprio país, e a que o governo português, pressionado pela Igreja Católica e por meio do então Subsecretário de Estado da Cultura de Portugal, Sousa Lara, vetasse este livro de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio literário europeu por “atentar contra a moral cristã”.
Em reacção a este acto do Subsecretário de Estado, que considerou censório, Saramago abandonou Portugal, passando a residir na ilha de Lanzarote, Ilhas Canárias, onde permaneceu até à sua morte.
(Wikipédia)

O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada. Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos os mantêm, cravados fundo. Pela expressão da cara, que é de inspirado sofrimento, e pela direcção do olhar, erguido para o alto, deve de ser o Bom Ladrão. O cabelo, todo aos caracóis, é outro indício que não engana, sabendo-se que anjos e arcanjos assim o usam, e o criminoso arrependido, pelas mostras, já está no caminho de ascender ao mundo das celestiais criaturas. Não será possível averiguar se este tronco ainda é uma árvore, apenas adaptada, por mutilação selectiva, a instrumento de suplício, mas continuando a alimentar-se da terra pelas raízes, porquanto toda a parte inferior dela está tapada por um homem de barba comprida, vestido de ricas, folgadas e abundantes roupas, que, tendo embora levantada a cabeça, não é para o céu que olha. Esta postura solene, este triste semblante, só podem ser de José de Arimateia, que Simão de Cirene, sem dúvida outra hipótese possível, após o trabalho a que o tinham forçado, ajudando o condenado no transporte do patíbulo, conforme os protocolos destas execuções, fora à sua vida, muito mais preocupado com as consequências do atraso para um negócio que trazia aprazado do que com as mortais aflições do infeliz que iam crucificar.
Ora, este José de Arimateia é aquele bondoso e abastado homem que ofereceu os préstimos de um túmulo seu para nele ser depositado o corpo principal, mas a generosidade não lhe servirá de muito na hora das santificações, sequer das beatificações, pois não tem, a envolver-lhe a cabeça, mais do que o turbante com que sai à rua todos os dias, ao contrário desta mulher que aqui vemos em plano próximo, de cabelos soltos sobre o dorso curvo e dobrado, mas toucada com a glória suprema duma auréola, no seu caso recortada como um bordado doméstico.
De certeza que a mulher ajoelhada se chama Maria, pois de antemão sabíamos que todas quantas aqui vieram juntar-se usam esse nome, apenas uma delas, por ser ademais Madalena, se distingue onomasticamente das outras, ora, qualquer observador, se conhecedor bastante dos factos elementares da vida, jurará, à primeira vista, que a mencionada Madalena é esta precisamente, porquanto só uma pessoa como ela, de dissoluto passado, teria ousado apresentar-se, na hora trágica, com um decote tão aberto, e um corpete de tal maneira justo que lhe faz subir e altear a redondez dos seios, razão por que, inevitavelmente, está atraindo e retendo a mirada sôfrega dos homens que passam, com grave dano das almas.

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“Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez

11.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Cem Anos de Solidão é uma obra do escritor colombiano Gabriel García Márquez, Prémio Nobel da Literatura em 1982, e é considerada uma das obras mais importantes da literatura latino-americana. Esta obra é das mais lidas e traduzidas de todo o mundo. Durante o IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, realizado em Cartagena, na Colômbia, em Março de 2007, “Cem Anos de Solidão” foi considerada a segunda obra mais importante de toda a literatura hispânica, ficando apenas atrás de “Dom Quixote de la Mancha”. Utilizando o estilo conhecido como realismo mágico, “Cem Anos de Solidão” cativou milhões de leitores e ainda atrai milhares de fãs à literatura constante de Gabriel García Márquez.
A primeira edição foi publicada em Buenos Aires, Argentina, em Maio de 1967, pela editora Editorial Sudamericana, com uma tiragem inicial de 8.000 exemplares.

(Wikipedia)

(Texto do excerto, não disponível. Leitura gravada em 9 de Setembro de 2005)

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“D. Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes.

10.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dom Quixote de La Mancha (Don Quijote de la Mancha em castelhano) é um livro escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616). O título e ortografia originais eram El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha, com sua primeira edição publicada em Madrid no ano de 1605. É composto por 126 capítulos, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615. É considerada a grande criação de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas européias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola. Em princípios de maio de 2002, o livro foi escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos. A votação foi organizada pelo Clubes do Livro Noruegueses e participaram escritores de reconhecimento internacional.

Vivia, não há muito, numa aldeia da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, um fidalgo dos de lança em armeiro, escudo velho, pileca escanzelada e galgo veloz. Dissipavam-lhe três partes dos bens um cozido, de vaca um pouco mais que de carneiro; salpicão as mais das noites; rabugices e lazeiras aos sábados; lentilhas ás sexta-feiras; algum borracho, de melhoria, aos domingos. Saio de velarte, calças de veludo para as festas; pantufos do mesmo; velori do mais fino, com que se 
honrava nos dias de semana, davam-lhe cabo dos sobejos. Tinha em casa uma patroa que passava dos quarenta, uma sobrinha que não chegava aos vinte, e um criado de fora e de dentro, que tanto lhe selava a besta, como manejava o podão. Calhava a idade do nosso fidalgo com os cinquenta anos; era de compleição robusta, seco de carnes, enxuto de rosto, grande madrugador e amigo da caça. Querem dizer que tinha o sobrenome de Quijada ou Quesada (no que há alguma dife
rença nos autores que deste caso escrevem) ainda que por conjeturas verosímeis se deixe perceber que se chamava Quijana; porem isto pouco importa ao nosso conto; basta que a narração dele não saia um ponto da verdade. Nos espaços em que estava ocioso (que eram os mais do ano) é de saber que este sobredito fidalgo se ocupava em ler livros 
de cavalarias, com tanto gosto e a ferro, que olvidou quase totalmente o exercício da caça, e até o amanho da sua fazenda. E a tal ponto chegou a curiosidade e desvario que vendeu muitas nesgas de terra de semeadura, para comprar livros de cavalaria em que ler, e assim levou para casa quantos pôde encontrar. E a nenhuns achava tão bem como aos que compôs o famoso Feliciano de Silva: porque a clareza da prosa, e aquelas intrincadas razões lhe pareciam de pérolas; e mais quando chegava a ler aqueles requebros e carteis, onde em muitas partes achava escrito: «a razão da sem-razão que á minha razão se faz, de tal maneira a minha razão enfraquece que com razão me queixo da vossa formosura»; e também quando lia: «os altos céus que de vossa divindade divinamente com as estrelas vos fortificam, e vos fazem merecedora do merecimento que merece a vossa grandeza».
Perdia o juízo o pobre cavaleiro com estas e semelhantes razões, e disvelava-se em compreende-las e decifrar-lhes o sentido, que não lhes arrancara o próprio Aristóteles, nem as percebera se para isso ressuscitasse.

(Texto retirado de uma edição de 1905 da Guimarães & Cª com atualizações de algumas palavras)

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