Nota biográfica >>

Alberto Pimenta (Porto, 26 de Dezembro de 1937) é um escritor, poeta e ensaísta português. Destaca-se entre os autores europeus contemporâneos pelo carácter crítico e irreverente da sua obra.

Alberto Pimenta – “Morreram todos…”

22.07.2016

morte

artur hipólito morreu com 62 anos, 20 anos após ter feito 42, mas na altura quem diria?
heitor fragoso morreu atropelado. foi levado para o hospital, mas esqueceram-se duma parte do corpo no local do acidente.
manuel testa morreu sem se ter conseguido habituar a este modo
de mal-estar no mundo.
arnaldo rodrigues caiu a um buraco da canalização e nunca mais
foi visto.
jeremias cabral pôs termo à existência por motivos desconhecidos.
zeca gomes morreu em defesa da pátria mas a pensar noutra coisa.
antónio de oliveira morreu igual a si mesmo: triste sinal dos tempos!
bernardo leite pôs-se a pensar na morte e não conseguiu voltar a
trás.
ivo gouveia tinha uma agência funerária e escolheu para si um
caixão representativo.
guilherme silva fechou-se no sótão, para morrer num lugar elevado.
luís dimas respirava saúde, agora respira um hálito de eternidade.
antónio garcia, o coveiro, teve uma síncope e caiu dentro da cova que estava a abrir.
bento nogueira engasgou-se com um pedaço de carne e desapareceu do nosso convívio.
paiva de jesus enforcou-se.
joão baptista viu o cunhado levantar-se do caixão e teve uma síncope.
lourenço pinheiro estava a ver a trovoada e um relâmpago entrou lhe por um olho e saiu-lhe pelo outro.
jorge velez de castro finou-se após uma longa vida de sacrifícios, toda dedicada ao bem-comum. e foi assim: depois de ter ingerido o seu sumo de laranja, foi conduzido para a cadeira de repouso pelo enfermeiro de confiança. nela se conservou, de boca entreaberta e olhos fechados, atéàs onze horas. às onze horas, o enfermeiro de confiança aproximou-se com a intenção de o conduzir ao banho. pondo delicadamente a mão nas costas da cadeira, disse: são horas do banho, senhor director. como este não desse sinal de ter ouvido, o enfermeiro de confiança, com a costumada jovialidade, debruçou-se e repetiu:são horas do banho, senhor director. posto isto, empurrou a cadeira até ao balneário, passou um braço pelos rins outro por baixo dos joelhos do director, e assim o levou para a água, só então se dando conta de que ele já não vivia.
zé maria, o peidolas, foi expulso da vida pela autoridade competente.
joão gaspar foi um nobre e valoroso homem que morreu heroicamente no campo da honra. paz à sua alma.
raul santos deitou-se um dia e por mais que o sacudissem nunca mais se levantou.
alfredo penha caiu tão desastradamente da cama que nem é possível dar pormenores da sua morte.
joaquim perestrelo morreu no meio da missa, qual quê! ainda a missa não ia a metade!
sousa dias morreu de pé, mas enterraram-no deitado, como toda a gente.

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