Nota biográfica >>

Os textos apresentados nesta página foram publicados e copiados do livro "Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro" editado pela Assírio & Alvim com direcção editorial de Manuel Hermínio Monteiro. A música que serve de fundo a estes textos é de autoria de Luís Pedro Fonseca e amavelmente cedida ao Estúdio Raposa.

“A Origem da Noite”

21.05.2012

Tupis, da Amazónia.

Antigamente, a noite não existia no céu. O dia era eterno. A noite dormia no fundo das águas. E os animais também não existiam, e os objectos falavam.
A filha da Grande Serpente casou com um homem, que tinha três criados fiéis. Ele disse-lhes uma vez: «Afastem-se, porque a minha mulher quer copular comigo.» Mas não era a presença dos criados que incomodava a jovem. Ela não queria fazer amor senão na escuridão. Explicou ao seu marido que o seu pai detinha a noite, e que ele devia enviar os seus criados buscá-la.
Quando estes chegaram, numa piroga, junto da Grande Serpente este deu-lhes uma noz de palmeira tucuman bem fechada, e recomendou-lhes que não a abrissem sob nenhum pretexto. Os criados voltaram a embarcar e, pouco depois, ficaram surpreendidos com um ruído que vinha do interior da noz: ten, ten ten, cri…ten, ten ten, cri, semelhante ao ruído que os grilos e as rãs fazem durante a noite. Um dos criados quis abrir a noz, mas os outros opuseram-se. Depois de muitas discussões, e quando já estavam muito longe da morada da Grande Serpente, reuniram-se finalmente no meio da piroga, fizeram uma pequena fogueira, e fizeram fundir a resina que mantinha a noz fechada.
Mal a noz se abriu, a noite surgiu, e todas as coisas que havia na floresta, se transformaram em quadrúpedes e pássaros, e todas as coisas que havia no rio, transformaram-se em patos e peixes. O cesto transformou-se em jaguar, o pescador e a sua piroga tornaram-se patos: na cabeça do homem surgiu um bico, a piroga tornou-se o corpo, os remos as patas…
A filha da Grande Serpente compreendeu a razão da obscuridade que reinava agora. Quando a estrela da manhã surgiu, a jovem decidiu separar a noite do dia. Para o conseguir, transformou duas bolas de fio nos pássaros curubim e inhambu (que anunciam a aurora). Para punir os criados, transformou-os em macacos.

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