Nota biográfica >>

Os textos apresentados nesta página foram publicados e copiados do livro "Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro" editado pela Assírio & Alvim com direcção editorial de Manuel Hermínio Monteiro. A música que serve de fundo a estes textos é de autoria de Luís Pedro Fonseca e amavelmente cedida ao Estúdio Raposa.

“A origem da terra, do trabalho e da gravidez”

19.05.2012

Povo Jugulares da Amazónia

Ainda a terra não existia e uma jovem virgem vivia sozinha no espaço vazio. Chamava-se Coadidop, a Avó dos Dias. Um dia, Coadidop resolveu fazer tabaco a partir do seu corpo; repousou-o sobre o chão, espremeu leite dos seus seios e fê-lo verter sobre o tabaco. Não só era o primeiro charuto do universo como era também a primeira das coisas criadas. Acendeu então o charuto e do fumo resultaram o raio e o trovão. Surgiu ainda a silhueta de um homem, mas desapareceu de imediato. Fumou de novo e a cena repetiu-se. Porém, ao terceiro charuto, o fumo transformou-se por fim num homem. Surpresa, Coadidop disse-lhe: «Es o filho do Trovão, és o Trovão; és o meu neto. Possuirás todos os poderes e farás o que quiseres. Chamar-te-ás Enu, o Trovão.» Acrescentou ainda que Enu, enquanto homem, deveria usar os seus poderes para criar para si uma multitude de companheiros.
Assim, Enu criou um homem do fumo do seu charuto, a quem resolveu chamar de filho e de irmão. Fumou outra vez e surgiram pela sua frente raios e trovões. Fumou uma outra vez e do fumo saíram outros dois homens, seus filhos e irmãos. Os Irmãos Trovão jun-taram-se e disseram à Virgem Avó dos Dias: «Nossa mãe, nossa mãe, nossa tia, faremos o que desejares.» Coadidop respondeu-lhes que, enquanto homens, não poderiam permanecer com ela. Pelo contrário, Coadidop necessitava de mulheres a seu lado. A Virgem acendeu então um charuto e criou a primeira mulher. Chamou-lhe Caiçaro e, insatisfeita com a companhia, acendeu outro charuto e criou uma terceira mulher. Havia agora quatro Trovões para três mulheres. Viviam todos juntos numa casa de pedra suspensa sob o firmamento.
Chegara a altura da primeira menstruação das três Virgens. Os Trovões, que mais não faziam senão fumar charutos e mascar coca, não percebiam a situação e tomavam as virgens por doentes. O Trovão mais novo dirigiu-se à Avó e perguntou-lhe o que fazer, ao que esta respondeu: «Tu és o último; o último de cada geração será sempre o mais sensato. Ensinar-te-ei a fazer um pari onde ficarei reclusa.» Passados alguns dias, as Virgens estavam recuperadas mas quei-xavam-se de fome. A Avó dos Dias disse-lhes que, de então em diante, a sua vida teria de mudar: «Vocês vão trabalhar e não vão ficar como os Trovões. Dar-vos-ei a terra e trabalhá-la-ão para que consigam dela os alimentos de que necessitarem.»
Coadidop pegou então numa corda e enrolou-a à volta da sua cabeça. Retirou depois a corda e pô-la no chão, desenhando assim um circulo sobre o qual lançou leite dos seus seios: nasceu deste gesto a terra. No dia seguinte, a Avó dos Dias ofereceu a terra às duas Virgens e disse: «Agora, trabalhai.» As mulheres desceram à terra mas os Trovões deixaram-se ficar pelo ar; só faziam trovoada.
As Virgens decidiram povoar a terra e os Trovões, invejosos, tentaram criar um quinto Trovão. Queriam engravidar e tt ntaram colocar a sua barriga nas pernas e nos braços. Porém, tal n.-o funcionou e as Virgens gozaram por vários dias com os Trovões, dizendo que eram loucos e feios. Feridos no seu orgulho, os trovões responderam: «Então deixem-nos a nós o trabalho e fiquem vocês com a gravidez.» E assim foi.

Trad.: Manuel João Magalhães