Nota biográfica >>

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 — Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980) foi um diplomata, dramaturgo, jornalista, poeta e compositor brasileiro. Poeta essencialmente lírico, também conhecido como "poetinha", apelido que lhe teria atribuído Tom Jobim. Conhecido como um boêmio inveterado, a sua obra é vasta, passando pela literatura, teatro, cinema e música.

Vinícius de Moraes – “Menina como uma flor”

18.05.2012

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Porque és uma menina como uma flor e tens uma voz que não sai do ouvido, eu prometo-te amor eterno, salvo se murchares, o que, aliás, não vais nunca porque acordas tarde, tens um ar acanhado e gostas de brigadeiros: quero dizer, doces feitos com leite condensado.
E porque és uma menina como uma flor e choraste na estação de Roma porque as nossas malas seguiram sozinhas para Paris, e morreste de pena delas que partiam assim, no meio de todas aquelas malas estrangeiras.
E porque sonhas que estou a deixar-te p’ra trás, transferes o teu t.p.m. para o meu quotidiano, e implicas comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de seres assim, tão subliminar.
E porque quando começaste a gostar de mim procuravas saber por todos os meus modos, com que camisola desportiva ia sair para fazer mimetismo de amor, só para te vestires de forma parecida.
E porque tens um rosto que está sempre um brinco, mesmo quando apanhas o cabelo, e pareces-te com uma santa moderna, e andas lentamente, e falas em 33 rotações mas sem aborreceres.
E porque és uma menina como uma flor, eu te predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma escapadinha marota para olhar para o lado, aí sim podes ir embora, eu compreendo.
E porque és uma menina como uma flor e tens um andar de pajem medieval; e porque quando cantas nem um mosquito ouve a tua voz, e desafinas tão bem que logo de seguida consertas, e às vezes acordas no meio da noite para cantar, feito uma doida.
E tens um ursinho chamado Nounouse e falas-lhe mal de mim, e ele escuta e não concorda porque é muito meu amigo, e quando te sentes perdida e sozinha no mundo deitas-te agarrada a ele, choras como um bebé e fazes um beicinho deste tamanho. 


E porque és uma menina que não pisca nunca e os teus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e és capaz de ficar horas a olhar-me.
E porque és uma menina que tem medo de ver a cara ao espelho, e quando te olho por muito tempo, começas a ficar nervosa até eu jurar-te que estou a brincar.
E porque és uma menina como uma flor e cativaste o meu coração e adoras puré de batata, eu te peço que me consagres teu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo tu uma menina como uma flor, peço-te também que nunca mais me deixes sozinho, como neste último mês em Paris; fica tudo como uma rua silenciosa e escura que não vai dar a lugar nenhum; os móveis ficam parados, olham-me com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam amar-me porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê.
E porque tu és a única menina como uma flor que conheço, escrevi uma canção tão bonita para ti, “Minha namorada”, afim de que, quando morrer, tu, se por acaso não morreres também, fiques deitadinha abraçada ao Nounouse a cantar sem voz aquela parte em que digo que tens de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que és uma menina como uma flor e eu estou agora a ver-te subir – tão pura entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que te traz ao nosso ninho, aqui nestas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando disseste que me amavas, desata a bater cada vez mais depressa.
E porque me levanto para recolher-te no meu abraço, e o mato à nossa volta faz-se murmuroso e enche-se de vaga-lumes enquanto a noite desce com os seus segredos, as suas mortes, os seus espantos – eu sei, eu sei que o meu amor por ti é feito de todos os amores que já tive, e tu és a filha predilecta de todas as mulheres que amei; e que todas as mulheres que amei, como tristes estátuas ao longo da álea de um jardim nocturno, foram de mão em mão passando-te até mim, cuspindo-te no rosto e enfrentando a tua fronte de grinaldas; foram passando-te até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque tu és linda, porque tu és meiga e sobretudo… porque és uma menina como uma flor.

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