Otília Martel – “Sentires”

16.01.2012

Saboreia o mesclado do meu sentir
como romã rubra deixada na tua boca,
acordando sentidos em êxtase peregrinos
como sol em dias quentes de Agosto.

Do meu peito apreende essa canção suprema
que, sempre bela, tem ao tempo resistido.
O amor é um poema
que só poetas sabem seu sentido.

Minhas palavras, porém, ficam aquém do pensamento.

Palavras que ainda não foram gastas
(podem-se gastar as palavras?)
em vidas vividas de sóis nascidos,
alados em caminhos de pedra polida,
brilhando no rasgar do sol-pôr.
Ecos esdrúxulos ouço em silvo estrídulo
roçando por mim em lúcido sonho.

Porque na vida vivida sem gosto e sem sal,
não escorre do corpo a seiva que estonteia
numa estranha volúpia como cordas de violino,
sopros que a brisa calmamente adivinha
em teu olhar que, fulgurante, reluz.

Trazes no corpo o fruto fecundo,
na alma a doçura das marés por descobrir,
feita de aromas inebriantes e falaz luz
que, deslumbrada, em sonhos hipnóticos me traz
uma visão alada, incorpórea, fugaz.

Trazes na voz a força do trovão,
a fragrância da terra molhada,
o suspiro das folhas que se libertam
na loucura de um instante
povoando de sonhos os jardins da quimera.

Trazes em ti a doçura das mulheres que amaste –
fruto amadurecido que tua semente germinou –
o teu olhar condensa o mar habitado
num fogo sentido que não se apagou

(Do livro “Menina Marota – Um desnudar de alma”)

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