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A primeira página de grandes obras da literatura.

“1984”, de George Orwell

14.08.2014

1984

Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico.

Era um dia frio e ensolarado de Abril, e os relógios batiam treze horas. Winston Smith, com o queixo fincado no peito numa tentativa de fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro do Edifício Vitória; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero.
O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a capacho de trapos. Na parede do fundo fora pregado um cartaz colorido, grande demais para exibição interna. Representava apenas uma cara enorme, de mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, com espesso bigode preto e traços rústicos mas atraentes. Winston encaminhou-se para a escada. Era inútil experimentar o elevador. Raramente funcionava, mesmo no tempo das vacas gordas, e agora a electricidade era desligada durante o dia. Fazia parte da campanha da economia, preparatória da Semana do Ódio. A casa dele ficava no sétimo andar, e Winston, que tinha trinta e nove anos e uma variz ulcerada no tornozelo direito, subiu devagar, descansando várias vezes no caminho. Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme fitava-o da parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda a parte. «O Grande Irmão vela por ti», dizia a legenda.
Dentro de casa uma voz sonora lia uma lista de números relacionados com a produção de ferro gusa. A voz saía de uma placa metálica rectangular, semelhante a um espelho fosco, embutida na parede direita. Winston torceu um comutador e o som da voz diminuiu um pouco, embora as palavras ainda fossem audíveis. O aparelho (chamava-se teletela) podia ter o volume do som reduzido, mas era impossível desligá-lo de vez. Winston foi até à janela. Ele era uma figura miúda, frágil, a magreza do corpo ainda realçada pelo macacão azul que era o uniforme do Partido. O cabelo era muito louro, a face naturalmente sanguínea e a pele irritada pelo sabão ordinário, as gillettes sem corte e o rude Inverno, que mal terminara.

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