Nota biográfica >>

João de Deus de Nogueira Ramos ( 8 de Março de 1830 — 11 de Janeiro de 1896), mais conhecido por João de Deus, foi um eminente poeta lírico, considerado à época o primeiro do seu tempo, e o proponente de um método de ensino da leitura, assente numa Cartilha Maternal por ele escrita, que teve grande aceitação popular, sendo ainda utilizado.

João de Deus – “O Avarento”

13.03.2017

Puxando um avarento de um pataco

Para pagar a tampa de um buraco

Que tinha já nas abas do casaco.

Levanta os olhos, vê o céu opaco,

Revira-os fulo e dá com um macaco

Defronte, numa loja de tabaco 

(Que lhe fazia muito mal ao caco…).

Diz ele então

Na força da paixão:

Há casaco melhor que aquela pele? 

Trocava o meu casaco por aquele…
E até a mim… por ele.

Tinha razão,

Quanto a mim.

Quem não tem coração.

Quem não tem alma de satisfazer 

As niquices da civilização 

Homem não deve ser;

Seja saguim,

Que escusa tanga, escusa langotim: 

Vá para os matos,

Já não sofre tratos 

A calçar botas, a comprar sapatos; 

Viva nas tocas como os nossos ratos, 

E coma cocos, que são mais baratos.

(in “Campo de Flores”, Edição de Jardins-Escola João de Deus.
Nota introdutória de António Ponces de Carvalho, bisneto do Poeta)

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