Nota biográfica >>

Os textos apresentados nesta página foram publicados e copiados do livro "Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro" editado pela Assírio & Alvim com direcção editorial de Manuel Hermínio Monteiro. A música que serve de fundo a estes textos é de autoria de Luís Pedro Fonseca e amavelmente cedida ao Estúdio Raposa.

“A Criação”

12.05.2012

(América do Norte – Povo Diguenhos)

Quando Tu-chai-pai criou o mundo, a terra era a mulher e o céu o homem. Um dia, tomado pelo desejo, o céu desceu sobre a terra e não mais quis voltar. Sentados junto ao lago que era a terra, Tu-chai-pai e o seu irmão sentiam-se a sufocar com o peso do céu que lhes caía sobre a cabeça. «E agora, o que fazemos?», perguntou o demiurgo. «Não faço ideia», respondeu de imediato o irmão. «Vamos dar um passeio», sugeriu Tu-chai-pai.
Passearam por uns momentos e sentaram-se a descansar. «E agora, que fazemos nós?», perguntou de novo o Criador. O seu irmão voltou a responder que não sabia. Então Tu-chai-pai sussurrou a palavra mágica we-hicht por três vezes, pegou em tabaco, enrolou-o e fumou três vezes. A cada trago de fumo, o céu erguia-se sobre as suas cabeças. O irmão também fumou e o céu distanciava-se cada vez mais. Quando fumaram juntos, mandaram o céu para tão longe que este tomou a forma côncava que hoje se lhe conhece.
De seguida, os irmãos resolveram colocar Norte, Sul, Levante e Poente nos seus respectivos pousos e desenharam sobre a terra duas linhas perpendiculares. Tu-chai-pai explicou então ao seu irmão que viriam de cada um destes pontos três ou quatro homens e disse-lhe que era hora de partir e criar rios, vales e montanhas. «Mas porque te dás tu a todo este trabalho?», perguntou o irmão ao Criador. Tu-chai-pai explicou então que, quando chegassem os homens, estes procurariam em vão comida e água bebível; o oceano estava já feito, mas faltavam ainda os rios. Foi depois fazer as florestas e o irmão voltou a perguntar: «Mas que fazes tu, grande tolo?» Infinitamente paciente, Tu-chai-pai respondeu que não tardaria que os homens sentissem frio e que era necessário criar algo que os pudesse aquecer.
Tu-chai-pai voltou a perguntar: «E o que fazemos agora?» O irmão voltou a responder que não sabia e que estava já a ficar cansado da Criação. O demiurgo disse-lhe então que era já hora de fazerem o homem. Tomou um pouco de lama nas mãos e fez os primeiros homens, os índios. De seguida, fez os Mexicanos. Foi fácil fazer o homem mas, quando chegou à altura de desenhar a mulher, Tu-chai-pai achou que deveria empenhar-se um pouco mais; demorou mais tempo a moldar a mulher do que a erguer os vales e as montanhas do mundo. Ordenou aos homens que viajassem para o Levante, de onde nascia, pela primeira vez, o sol. Os índios procuraram luz e, quando a encontraram, ficaram tão felizes e emocionados com a sua beleza que prometeram prestar culto a Tu-chai-pai por tão maravilhosa criação. O demiurgo avisou o seu irmão de que o sol não poderia ficar só e que era já hora de criar a lua. Esta, avisou, deveria partilhar o céu com o sol mas morreria regularmente. Quando a lua começasse a decrescer e a decrescer, os homens deveriam fazer corridas para tentar manter a lua viva. Os homens cumpriram a sua parte e os irmãos criadores, cansados de tanto trabalho, não voltaram a criar nada. Hoje, mais não fazem do que fumar tabaco enquanto se divertem com as mesquinhices do homem.

Trad.: Manuel João Magalhães
(As “gralhas” na leitura não foram corrigidas)

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