Nota biográfica >>

Pablo Neruda (Parral, 12 de Julho de 1904 — Santiago, 23 de Setembro de 1973) foi um poeta chileno, bem como um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX e cônsul do Chile na Espanha (1934 — 1938) e no México.

Pablo Neruda – “Quase fora do céu”

10.01.2012

Quase fora do céu fundeia entre dois montes
uma metade da lua.
Girante, errante noite, a cavadora de olhos.
Quantas estrelas haverá estilhaçadas no charco.
Faz uma cruz de luto entre os meus olhos, foge.
Frágua de metais azuis, noites das caladas lutas,
o meu coração dá voltas como um volante louco.
Moça vinda de tão longe, trazida de tão longe,
às vezes refulge o seu olhar debaixo do céu.
Queixume, tempestade, remoinho de fúria,
passa por sobre o meu coração sem te deteres.
Vento dos sepulcros leva, despedaça, dispersa a tua raiz sonolenta.
Arranca as grandes árvores do outro lado dela.
Porém tu, moça clara, pergunta de fumo, espiga.
Era a que ia formando o vento com folhas iluminadas.
Por trás das montanhas nocturnas, branco lírio de incêndio,
ah nada posso dizer! Era feita de todas as coisas.
Ansiedade que fendeste o meu peito à facada, são horas de seguir outro caminho, onde ela não sorria.
Tempestade que enterrou os sinos, voltear turvo de borrascas
para quê tocá-la agora, para quê entristecê-la.
Ai, seguir o caminho que se afasta de tudo,
onde não esteja emboscada a angústia, a morte, o inverno,
com os olhos abertos entre o orvalho.

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