Nota biográfica >>

Maria do Rosário Pedreira (Lisboa, 1959) é editora e escritora. Desempenha actualmente funções de editora na QuidNovi, depois de ter passado pela Temas & Debates e pela Gradiva. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Estudos Franceses e Ingleses, pela Universidade de Lisboa em 1981, foi professora de Português e Francês durante cinco anos.

Maria do Rosário Pedreira – “Hoje apareceu…”

09.02.2014

Hoje apareceu um pombo morto no 

quintal. Não foi o gato, que morreu 

antes dele num sábado sem sol, a não 

querer já a minha mão, a não querer

colo. Fiquei cansada: houve sempre

tantas mortes na minha vida – os meus

pais, tu, a menina pendurada no meu 

seio, os meus irmãos – e, como o pombo, 

também estas asas já vão reclamando 

voos noutros céus. Se eu

quisesse camélias brancas na minha

sepultura, como as que levei à igreja 

quando nos casámos, ou arrastar para a 

escuridão da terra o vago ouro das

nossas alianças; se tudo o que juntei

(e foi tão pouco) pudesse ainda ficar 

com os que me faltam, dava estes dedos 

deformados ao tear das palavras e 

escrevia um bilhete, como as raparigas

que se envenenam por amor; e havia de

pousa-lo no peito depois de me deitar, já 

lavada e vestida, para que ninguém se 

desse ao trabalho, que eu conheço essa 

dor. Mas partir é mesmo a minha

última vontade: tu já morreste, morreu o gato 

há dias; encontrei hoje um pombo morto no

quintal e, quando o enterrar, não

haverá já nada que me prenda – vou-me 

embora daqui tão só como cheguei, sem ter

deixado a ninguém o nome que me deram.

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