Nota biográfica >>

Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 - Lisboa, 21 de Agosto de 1986), ou simplesmente Alexandre O'Neill, descendente de irlandeses, foi um importante poeta do movimento surrealista.

Alexandre O’Neill – “Fados literários”

08.01.2012

fado

As fatrasias, versos anfigúricos (ou sem sentido) de fábrica popular (dói-me a barriga nas costas, / o coração nas orelhas; / não posso cantar dum braço / por causa das sobrancelhas), encontram correspondentes eruditos, entre outros, nos chamados fados «literários», à feitura dos quais não devia ser alheio o compadrio entre o espírito da boémia e a boémia do espírito que em alguns meios académicos (Coimbra, p. ex.) animou, como pôde, a vida portuguesa neles represada. Menos soltos imaginativamente que as fatrasias, os fados «literários» parece que têm, em contrapartida, uma capacidade de demolição do discurso que as primeiras desconhecem. Os elencos vocabulares e os mecanismos que os põem em movimento são deliberadamente artificiosos (como se vê nos nossos dois exemplos, especialmente no fado zombeteiro) e querem mostrar, pelo menos no segundo, parece-me, como o discurso pode assumir o ridículo de ser importante. É o falar caro que todos nós gozamos, mas que, sectorialmente, pode representar uma forma sisuda de manter classe …
Na ocasião em que, «para a Europa», a nacional-indigência não inventou nada de melhor que as nado-mortas letras das oito canções finalistas, será um exercício de auto-reanimação dar-vos a conhecer, ou a relembrar, um fado «esdrúxulo» dedicado à zombaria e um fado «tautofónico» todo entregue ao respeito:

Zombaria

Eu zombo de homens teutónicos,
Eu zombo dos argentários,
Eu zombo dos pitagóricos,
Eu zombo dos usurários.
Eu zombo dos dialécticos,
Eu zombo até dos sofísticos,
Eu zombo dos casuísticos,
Eu zombo já dos magnéticos;
Eu zombo dos cinegéticos,
Eu zombo dos bons eufónicos;
Eu zombo dos sons harmónicos,
Eu zombo dos bons topázios,
Eu zombo dos tais pascácios,
Eu zombo de homens teutónicos.
Eu zombo já dos gramáticos,
Eu zombo dos elegíacos,
Eu zombo desses siríacos,
Eu zombo dos esquipáticos;
Eu zombo até dos didácticos,
Eu zombo dos santanários;
Eu zombo dos proletários,
Eu zombo dos económicas;
Eu zombo dos pobres cómicos,
Eu zombo dos argentários.
Eu zombo dos privilégios,
Eu zombo dos sacrifícios;
Eu zombo dos artifícios,
Eu zombo dos sortilégios
Eu zombo dos sacrilégios’,
Eu zombo dos tais históricos;
Eu zombo dos alegóricos;
Eu zombo até já dos clínicos
Eu zombo dos próprios cínicos,
Eu zombo dos pitagóricos.
Eu zombo dos patológicos.
Eu zombo dos fidelíssimos;
Eu zombo dos modestíssimos.
Eu zombo dos mitológicos;
Eu zombo dos pedagógicos,
Eu zombo dos breviários;
Eu zombo dos perdulários,
Eu zombo dos cabalísticos;
Eu zombo dos humorísticos,
Eu zombo dos usurários.

Respeito

Respeito o poder do galo.
Respeito a voz do leão,
Respeito as tetas da vaca,
Respeito a pele do cação.
Respeito o ferrão da abelha,
Respeito as penas do pato,
Respeito as unhas do gato,
Respeito as cãs duma velha;
Respeito o velo da ovelha,
Respeito o nobre cavalo,
Respeito o rim-rim do ralo,
Respeito o fim da baleia,
Respeito a voz da sereia,
Respeito o poder do galo.
Respeito o mau papagaio,
Respeito o bom pintarroxo,
Respeito a forma do mocho,
Respeito o verde do gaio,
Respeito o fino garraio,
Respeito as pernas do anão,
Respeito os pés do pavão,
Respeito a velha serpente,
Respeito a língua da gente,
Respeito a voz do leão.
Respeito a cor da rolinha,
Respeito o zum do besoiro,
Respeito as armas do toiro,
Respeito o fel da pombinha,
Respeito o pôr da galinha.
Respeito o mal da macaca,
Respeito o pêlo da alpaca.
Respeito a tal cegarrega.
Respeito o bico da pega.
Respeito as tetas da vaca.
Respeito as asas do grilo,
Respeito a feia minhoca,
Respeito o berro da foca,
Respeito o vil crocodilo,
Respeito o curso do esquilo,
Respeito o ser tubarão,
Respeito os dentes do cão.
Respeito os coices da mula.
Respeito o gosto da lula
Respeito a pele do cação.

E muito obrigado pela atenção que nos dispensaram!

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