Nota biográfica >>

Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas (Póvoa de Atalaia, 19 de Janeiro de 1923 — Porto, 13 de Junho de 2005). Apesar do seu enorme prestígio nacional e internacional, Eugénio de Andrade sempre viveu distanciado da chamada vida social, literária ou mundana, tendo o próprio justificado as suas raras aparições públicas com «essa debilidade do coração que é a amizade».

José Bento – “Para um barco moliceiro…”

07.12.2015

jose_rodrigues

Para um barco moliceiro e para Eugénio de Andrade

É a hora que não consente sombras.
Dardos procuram o teu dorso, ou labaredas. Tudo
conheces da água, mas a sede é a corrente
insone que te fere e te impele.

Persistes em singrar, embora só: tua imagem não a
encontro senão em teu próprio reflexo. Porém, não
crias nunca solidão nem carência: quem te olha
decifra o esplendor do azul secreto.

Que destino, ser barco!: escrever ao magoar as
ondas com o sangue que sobre ti é o vento,
sabendo que as palavras agonizam nas sílabas
apenas brotam, e a espuma é o seu eco.

Uma noite extenuada, rente a um juncal ou um rosto,
já só tronco insubmisso, hás-de apagar-te, lento. Mas
em teu cerne o fogo que hoje te persegue continuará
a doer-nos, puríssimo, desperto.

Poema de José Bento, ilustração de José Rodrigues, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

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