Nota biográfica >>

Alberto Caeiro da Silva (Lisboa, 16 de Abril de 1889 ou Agosto de 1887 – Junho de 1915) foi uma personagem ficcional (heterónimo) criada por Fernando Pessoa, sendo considerado o Mestre Ingénuo dos restantes heterónimos (Álvaro de Campos e Ricardo Reis) e do seu próprio autor, apesar da apenas ter tido instrução primária.

Alberto Caeiro – “Da mais alta janela…”

05.06.2013

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus 

Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste. 

Esse é o destino dos versos. 

Escrevi-os e devo mostrá-los a todos 

Porque não posso fazer o contrário 

Como a flor não pode esconder a cor, 

Nem o rio esconder que corre,

Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência 

E eu sem querer sinto pena

Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?

Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.

Arvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.

Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.

Submeto-me e sinto-me quase alegre,

Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!

Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.

Murcha a flor e o seu pó dura sempre.

Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

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