Renato Costa – “Mel…”

renato_costa_mel14

Mel…mulher,
em ti…
na doce palavra que te veste…
moram todos os méis,
todos puros…
todos silvestres…
mel de sabores…
que nunca se esquecem…
bebido em noites..
que não amanhecem…

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Otília Martel – “Natureza”

otilia14

Ó espírito de inquietos e cândidos sonhos
que buscas na intemperança e volúpia do desejo
o calor da alma pressentida no júbilo da razão.

Deitas-te na terra húmida entre musgo verde e
adormeces na tempestade que o céu serenou.

Na terra orvalhada em chão de prata
onde o amor lavra e a chuva perdura
em palavras amenas que o coração dita
embarcas no sonho e na magia
que a neve da frieza em rocha dura não matou.

Não iludas o que aprouvera dos teus sonhos.

Falsa a magia do momento.
Na natureza nunca nasce a mesma água de parecida fonte.

(Este poema foi retirado do livro “Olhos de Vida”, Edi. Monocromia e apresentado em Outubro de 2014)

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Lou Alma – “Vem”

lou_alma_mar14

Vem construir felicidades
no segredo dos entendimentos
Vem com tuas mãos
tocar a música
que só tu consegues retirar
do meu corpo.
Vem trocar as voltas ao vento,
calar as ondas do mar!
Finge-te Deus
dum destino
que só a nós cabe ditar.
Saudade doi!
A dor do silêncio,
a distância…
o tormento dum corpo calado.
A orquestra que espera
O reinicio da sinfonia…
A sintonia
de quem domou as tempestades
 
Calamos vaidades
Sabemos a_mar

(Poema inserido ao abrigo do direito dos inscritos na Loja da Raposa, poderem propor para declamação um poema seu ou de um autor preferido)

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Paulo Eduardo Campos – “Caminhamos…”

paulo_campos14

caminhamos procurando o peso das palavras
os pássaros que adormecem sobre a areia
os amantes que cercam o tempo com as suas bocas
devolvendo a estreita luz que há na manhã.

não se recupera no final de cada dia
a palidez dos astros, o silêncio do arco-íris
as mãos que crescem dentro de outras mãos.

tudo se perde, o ardor da poesia,
a alegria que o poema sangra
e a solidão das palavras que têm o peso do caminho
quando a luz estremece no peito dos pássaros.

(Poema incluído no âmbito do direito dos inscritos na Loja da Raposa poderem indicar um poema seu ou do seu poeta favorito)

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Eugénio de Andrade – “Criança…”

crianca14

No fim do verão as crianças voltam, 
correm no molhe, correm no vento. 
Tive medo que não voltassem. 
Porque as crianças às vezes não 
regressam. Não se sabe porquê 
mas também elas 
morrem. 
Elas, frutos solares: 
laranjas romãs 
dióspiros. Sumarentas 
no outono. A que vive dentro de mim 
também voltou; continua a correr 
nos meus dias. Sinto os seus olhos 
rirem; seus olhos 
pequenos brilhar como pregos 
cromados. Sinto os seus dedos 
cantar com a chuva. 
A criança voltou. Corre no vento. 

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Carlos Conde – “Conceito”

asno14

Quando eles não valem nada

Não se ganha em discutir

Não é bom servir de escada

Para qualquer asno subir

Há gente que só diz mal

Para se impor, para ser notada

Quem discute menos vale

Quando eles não valem nada

E quem pouco valor tem

Só se vinga em deprimir

O desprezo chega bem

Não se ganha em discutir

Quem maldiz por ser ruim

Nunca vence a caminhada

A nulidades assim

Não é bom servir de escada

Quem vence de fronte erguida

Não se dispõe a servir

Como ponto de partida

Para qualquer asno subir

(Este poema foi cantado, em fado, por Alfredo Marceneiro)

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António MR Martins – “Paradigmas de uma folha de papel em branco”

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Deixei-te uma folha de papel viva
repartida por entre pedaços de mim,
com a nossa maior palavra cativa
e um suave cheirinho a jasmim.
 
Folha num sobrescrito inserida,
restando-se dobrada em três partes,
ficou outra palavra esquecida!…
Amor novo de múltiplos encartes.
 
No fundo desse invisível texto
coordenado pela sabedoria,
sendo instituído nesse contexto.
 
Entre o silêncio veio a ousadia,
êxtase para simular um pretexto…
de te enviar um beijo à revelia!…

(Poema lido no âmbito do direito dos inscritos na Loja da Raposa, à publicação de um poema do próprio ou de um seu poeta favorito)

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Margarida Piloto Garcia – “Encontro”

encontro10b
Se puderes
dobra essa esquina e abre os olhos
para me espreitares por dentro
Em qualquer pedaço de gesto, demora-te.
No intervalo da minha ausência
muda o tempo do verbo, mas não o próprio verbo
Desagua o verso sem pressa e faz fintas à vida
sem esquecer que a felicidade é um abraço
imprevisto
Se puderes
perde o rasto da razão mais-que-perfeita
e sorve o vento embalado num beijo inesquecível
a bater no chão fecundo do meu seio.
Se quiseres
vem com o vazio das mãos ávidas de mim
perseguindo o impensável sem curvas nem ossos
com o tempo a chiar e a tomar para si o pó dos dias
Se quiseres
ama esta inevitabilidade feita de um querer comum
e escreve sobre o amor abrigo ou inquietação
Depois
se puderes
se quiseres
sente as impronunciáveis emoções
e no obsceno arrepio que inventamos
a vida será chama sem palavras
e nada mais importará

(Este poema de Margarida Piloto Garcia foi gravado no âmbito do direito que as pessoas registadas na Loja da Raposa têm de verem gravado um poema seu ou do seu poeta favorito.)

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Herberto Hélder – “Sobre um poema” (Terceira versão)

poema14

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

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Manuel Bandeira – “Poética”

lirismo14

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente

protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário

o cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo o lirismo que capitula ao que quer que seja

fora de si mesmo

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante

exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes

maneiras de agradar às mulheres, etc

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

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Bertolt Brecht – “Canção da Inocência Perdida”

roupa14

O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
       Se isto não vale pra a roupa
       Também não vale pra mim.
       Que o rio lhe passe por cima
       Breve fica branca, assim.

Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
       A roupa já estava parda,
       No rio a fui mergulhar.
       No cesto está virginal
       C’mo sem ninguém lhe tocar.

Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
       A roupa branca no rio
       Enxaguada à roda, à roda,
       Sente que as ondas a beijam:
       «Volta-me a brancura toda».

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
      
Assim acontece à roupa
       E a mim acontecerá.
       A água corre depressa,
       Sujidade diz: Vem cá!

Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
       Com poupanças e jejuns
       Nenhuma mulher se acalma.
       Roupa guardada na arca,
       Na arca se não faz alva.

E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
       Mete-a na água e sacode-a!
       Há sol, cloreto e vento!
       Usa-a, dá-a de presente:
       Fica fresquinha a contento.

Bem sei: Muito pode vir
Até que nada por fim, fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
       E uma vez que apodreça
       Nenhum rio a embranquece.
       Leva-a consigo em farrapos.
       Um dia assim te acontece.

Bertold Brecht, in “Canções e Baladas”

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Alexandre O’Neill – “O ar do lisboeta”

caracois14

O AR DO LISBOETA (Lista a encurtar ou a acres-
centar pelo leitor)

o ar milonga do lisboeta
o ar mastronço do lisboeta
o ar activo do lisboeta
o ar coitado filha do lisboeta
o ar cabotino do lisboeta
o ar reservado do lisboeta
o ar dia oito do lisboeta
o ar missa da uma do lisboeta
o ar campdòrique do lisboeta
o ar queixudo do lisboeta
o ar ramona do lisboeta
o ar bichona do lisboeta
o ar pasma do lisboeta
o ar barrigatesta do lisboeta
o ar último olhar de jesus do lisboeta
o ar vilas boas do lisboeta
o ar estoril do lisboeta
o ar em princípio vou do lisboeta
o ar eu depois confirmo do lisboeta
o ar catarino do lisboeta
o ar daniel do lisboeta
o ar terilene do lisboeta
o ar jaguar do lisboeta
o ar poupar do lisboeta
o ar gastar do lisboeta
o ar solmar do lisboeta
o ar morrinhanha do lisboeta
o ar seminarista do lisboeta
o ar boçal do lisboeta
o ar servil do lisboeta
o ar por aqui me sirvo do lisboeta
o ar eu cá não vi nada do lisboeta
o ar portagem do lisboeta
o ar esnègabar do lisboeta
o ar jardim cinema do lisboeta
o ar crise de teatro do lisboeta
o ar é natal é natal do lisboeta
o ar estufa fria do lisboeta
o ar padre cruz do lisboeta
o ar mártires do lisboeta
o ar conjuntura do lisboeta
o ar ultramar do lisboeta
o ar tecnolírico do lisboeta
o ar você do lisboeta
o ar donamélia do lisboeta
o ar alentejano do lisboeta
o ar chico esperto do lisboeta
o ar sector um do lisboeta
o ar monsanto do lisboeta
o ar transístor do lisboeta
o ar trombudo do lisboeta
o ar lisbonudo do lisboeta
o ar matraquilhos do lisboeta
o ar agenda do lar do lisboeta
o ar et pluribus unum do lisboeta

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Teresa Gonçalves – “Montanha da Noite.”

pensamento

Perfumei os lençóis de insónia
e acendi lâmpadas de silêncio
na montanha da noite
tentei remir o pensamento
torná-lo vadio sem submissa liberdade
para voar sem destino
no tempo e no espaço
mas… ele ficou a pairar
por entre nuvens de algodão
como uma ave assustada com a asa magoada
temendo morrer e não renascer
das cinzas feita Fénix
ignorando a minha vontade
de atravessar o céu
as estrelas
e o luar

regressou indeciso pelo mesmo caminho
para a montanha da noite
para os lençóis perfumados de insónia
para as lâmpadas de silêncio
e vestiu palavras não ditas
com isolamento de afectos

ah, pensamento! não voas por rebeldia.

(Do livro “Laços”, de Manuela Barroso e Teresa Gonçalves. Ed. Versbrava)

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Alexandre O’Neill – “A Perna no Eucalipto”

braco14

Por entre as folhas, luzia a biqueira do sapato
como se fosse o sapato de alguém que, da varanda,
estivesse a ver passar cabeças militares.
Mas os capacetes tinham lá dentro cabeças de bombeiros
e estes trepavam, lestos, pela escada
para tirar a perna do eucalipto.
Uma perna errada abandonada pelo seu proprietário
como a um filho na roda?
Seria a mesma perna fantasmática
que já atemorizara João Soldado?
Diria que não com o dedo grande do pé
ao ser convidada a descer?
(Os elefantes humoristas «engasgam» os crocodilos nos ramos das árvores
para se verem livres deles).
Teria dito ele perna pra que te quero?
A esta perna no eucalipto poderá alguma vez chamar-se «fait-divers»?
Seria uma perna irrequieta
que, sem autorização do dono, subira àquela árvore
como um rapaz aos ninhos?
Enquanto a perna descia, era descida ao ombro dum bombeiro,
uma mulher extasiada explicou-me:
— Um velhote apanhado por uma mota…

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Manuela Barroso – “Ante o silêncio”

flauta

No silêncio onde mergulhas a flor do pensamento verás
que nas pétalas da gente o vento não tem a força nem o
canto dele vence a eterna dança do Amor

No homem como na flor continua a valsa do vento
umas vezes
é trigo amargo
outras é mel onde trago
leve aragem ao pensamento

Na floreira da vida quando os ventos estremecem
o caule da flor tardia

os olhos escurecem perante a flor murchando
onde sem seiva fenecem os sonhos
que vão morrendo na flauta do vento.

(Do livro “Laços”, de Manuela Barroso e Teresa Gonçalves. Ed. Versbrava.)

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Maria da Graça Varella Cid – “Insisto…”

deus14

Insisto em confirmar serenamente que
Não deves incluir-me já no teu percurso,
Nem na redonda noite imensa aberta ao meio,
Nos bancos de coral onde o teu sangue nasce,
Nem nos flancos de sal ou no interior dos músculos.

Insisto em te avisar que meus segredos múltiplos
Te expurgaram de vez de todos os circuitos
Em seu lugar deixando um vácuo que se expande
Desde o meu raciocínio à margem do crepúsculo.

Confesso no entanto que o teu eco duplo
Me persegue voraz logo que a lua chega.

E não obstante tu não mudas de silêncio,
Não voltas para trás onde as minhas mãos nuas
Em metal te esculpiam como a um deus nocturno

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Leonard Cohen – “Velho demais”

bombas14

Estou velho demais

Para decorar os nomes

Dos novos assassinos.

Este aqui

Parece cansado e atraente

Devotado, profissional.

Ele parece-se muito comigo,

No tempo em que ensinava

Uma forma radical de Budismo,

Para os insanos sem salvação.

Em nome da velha

Mágica sagrada

Ele ordena

Que famílias sejam queimadas vivas,

E crianças mutiladas.

Ele provavelmente conhece

Uma ou duas das minhas canções.

Todas elas

Todos que banharam suas mãos em sangue

E os mastigadores de vísceras
E escalpeladores
Todos eles dançaram
Ao som dos Beatles
Todos adoraram a Bob Dylan.
Queridos amigos,
Poucos de nós restaram
Silenciados
Tremendo sem parar
Escondidos no meio do sangue –
Fanáticos chocados,
Enquanto testemunhamos uns aos outros
A velha atrocidade
A velha e obsoleta atrocidade
Que levou para longe
O apetite ardoroso do coração,
E envergonhou a evolução
E vomitou preces.

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Natália Correia – “O deputado Morgado”

coito

O acto sexual é para ter filhos» – disse na Assembleia da República, no dia 3 de Abril de 1982, o então deputado do CDS, João Morgado, num debate sobre a legalização do aborto.
A resposta de Natália Correia – em poema, publicado depois pelo Diário de Lisboa em 5 de Abril desse ano – fez rir todas as bancadas parlamentares, sem excepção, tendo os trabalhos parlamentares sido interrompidos por isso:

Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
de cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

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João Penha – “A Carne”

corpo

Carne mimosa, carne cor de rosa
Nada mais sois, oh anjos, na poesia
Dos vates dissolutos de hoje em dia,
Nos romances de amor, hedionda prosa.

A vossa alma gentil, ideal, mimosa,
Nestas idades de descrença ímpia,
Como escondida, numa estátua fria
Sonha e não voa, de voar medrosa!

Anjos chorai o Amor! Com voz dolente
Dizei-lhe adeus! Bronco recife
Se apruma entre ele e vós, cruel, ingente:

Que par mais que de vinhos o borrife,
Ninguém gosta de ver, continuadamente,
Diante de si, fatal, o mesmo bife!

in “Novas Rimas” a Cândido de Figueiredo.

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José Henrique Azevedo – “Diário de Viagem”

horta2

Vivem em nove belas Ilhas no
meio do Oceano Atlântico.
Dizem ser o centro do Mundo, os últimos
picos da Atlântida — O Continente perdido,
a terra de Neptuno.
Falam de forma diferente.
Cozinham a comida em buracos
na terra, com o calor dos vulcões.
Fazem jogos com touros e perdem
quase sempre.
Nadam com golfinhos.
Mergulham com baleias que antes caçavam
em pequenos barcos e depois
gravavam-lhes os dentes.
Há 500 anos que resistem a tremores de
terra, a tempestades com ventos de 250 Km
por hora, a ondas do mar com 20 metros
Pescam os maiores peixes do
Mundo — espadartes e atuns.
Dividem os terrenos com flores
principalmente hortênsias.
Criam vacas e chamam-nas
pelo nome próprio.
Comem comida temperada com especiarias
vindas das índias, Áfricas e Américas.
Festejam o “Espirito Santo” que
dizem ser o seu “Senhor”.
Usam uma ave — Milhafre — como seu
símbolo mas chamam-se
Açorianos.
São uns estranhos e
simpáticos loucos.

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