Paulo Campos comenta o Lugar 85

18.03.2008

Caro Luis,
Não podia deixar de lhe responder ainda hoje.
Ao fim de duas audições estou sem saber o que dizer.
A primeira audição fi-la de olhos fechados. A segunda abri o ficheiro dos poemas para a acompanhar a audição, para me certificar que aqueles poemas que estava a ouvir foram escritos por mim. É uma sensação estranha. Quando os escrevo faço-o com um sentido, com uma entoação diferente (costumo lê-los em voz alta depois de os escrever). Ao ouvi-los declamados por si, para mim, aqueles poemas não eram meus. As pausas na leitura eram diferentes. Tudo era diferente. Era um outro poema que ouvia em paralelo enquanto o meu olhar seguia as letras no monitor do “meu poema”.
Foi uma experiência extraordinária a que me proporcionou. Não por uma questão de ego, mas pela sensação de ter uma “Voz” a ler um poema meu. Uma voz sentida, verdadeira, que nos confidencia algo.
Quanto a gralhas, foram mínimas, até porque a certa altura aquilo que estava a ouvir não me pertencia.
A música de fundo escolhida estava igualmente perfeita.
Pediu-me para lhe dizer o que penso. Prefiro dizer-lhe antes o que senti, porque no pensar, existe algo de muito mental, racional, que prejudica a avaliação. Em situações extremistas, ao ponto de deixarmos de ser honestos.

Vou então dissecar os poemas de uma forma resumida:

1º Poema – Enquanto não há amanhã
Na primeira audição senti uma diferença muito grande no timbre de voz entre a parte da introdução (da nota biográfica) e a leitura do poema, como se a voz e a dicção tivesse sido modificada em estúdio. Nas outras audições já não senti esse choque. Antes pelo contrário, senti que a entoação profunda ajudava a “mergulhar” no poema… Tornava-o ainda mais melancólico.

2º Poema – Partiste, quando a noite te caía pelos ombros
A entoação que dá a este poema é fantástica. Devo dizer-lhe que em certas partes do poema fiquei arrepiado. Foi uma interpretação muito intensa, muito pessoal. Com um final lindo, apoteótico, tanto em termos de voz como em termos de música. Quando se previa que o poema fosse acabar de uma forma suave, termina-o com um “crescendo” brilhante.

3º Poema – Vem só
Neste fiquei totalmente surpreendido. Inicialmente pensei que fosse ler só um excerto do poema. Depois achei imensa graça quando reparei que o que estava a fazer era trocar-lhe a ordem. Ainda estou na dúvida qual das versões fica melhor. Quando escrevo um poema escrevo-o com uma intenção e ao ouvi-lo percebo que existe uma interpretação completamente diferente.
Confesso-lhe que para mim este foi o poema que mais trabalho me deu a fazer e que para mim é um dos que mais gosto. Mais uma vez a música a terminar de forma perfeita.

4º Poema – O tempo passou por nós, não vês?
Aqui foi a única gralha mais audível. Também neste fiquei arrepiado. Foi como se ouvisse alguém confidenciar-me qualquer coisa, a narrar uma experiência pessoal. E uma vez mais a dar uma forma diferente àquela por mim imaginada.

Não tenho palavras para descrever o que sinto. Apesar do texto ir longo, fico com a sensação que não me consegui exprimir por forma a expressar o que sinto.
Tenho a agradecer-lhe o serviço que presta à nossa cultura. Cada vez mais gasta. Cada vez mais pobre. Mais delapidada.
Agradeço-lhe também o facto “altruísta” de divulgar aqueles que escrevem para a gaveta ou, como no meu caso, aqueles que se deixaram levar pelos labirintos escuros e maliciosos das editoras. Depois do livro editado, contento-me a oferece-lo aos amigos e a pessoas que se interessam por poesia. Isto porque a editora apenas fez o trabalho tipográfico. Não houve qualquer acção de divulgação, de promoção junto de livrarias (ao contrário do que estava estipulado no contrato), mas isso são os erros que se cometem fruto da inexperiência deste meio.

Agora, e se me permite, fiquei com curiosidade em saber as suas razões pessoais que lhe deram prazer a recitar os meus poemas. Apenas curiosidade de quem escreve…saber o que sente quem os lê.
E já agora, se houve alguma razão especial para a escolha destes quatro poemas.
Por curiosidade, também, gostaria de saber se todo este processo lhe dá muito trabalho. Quando recebe os poemas opta por lê-los várias vezes, experimenta diferentes entoações, diferentes timbres de voz, diferentes pausas no texto? Como faz para “encaixar” a música? Como encontra as músicas com a duração certa para os poemas? Perguntas de um curioso amador.
Acho esse trabalho fascinante. Eu próprio tentei fazer uma “brincadeira” com um dos meus poemas (curiosamente, o terceiro poema que o Luís leu) e foi-me extremamente complicado “encaixá-lo na música”. Estive a ouvir essa minha gravação depois da sua e o poema dito por mim parece-me agora que foi dito à pressa.
Já lá vão seguramente 2 horas desde que me sentei a ouvi-lo (ou a ouvir-me, não sei) e ao olhar para o papel já lá vão quase 3 páginas manuscritas.
Está na hora de me despedir e uma vez mais expressar a minha gratidão. Por mim. Por todos aqueles que escrevem. Por todos aqueles que ouvem.
A sua voz e o seu talento são uma bênção.
Bem haja.
Um forte abraço do
Paulo Campos

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